quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A NOVA DIREITA DE AMANHÃ


JOSÉ SERRA, EM 1964 - Ninguém imaginaria, mas o líder estudantil que apareceu ao lado de Jango e Brizola hoje se afina mais com as elites que fizeram a passeata golpista Marcha Deus e Liberdade, naquela mesma época.

Tudo bem. Os esquerdistas hoje precisam fazer alianças com tendências de centro e até de centro-direita existentes no Brasil. Mas, passada a "frente ampla", a rotina política pode mostrar grandes surpresas. As circunstâncias poderão mostrar quem é que realmente está do lado das forças progressistas no nosso país, depois da euforia do eclético bloco de alianças.

A História é repleta delas. Daria um livro bem grosso, só para descrever, de forma mais sucinta, os diversos casos históricos que ocorreram. Desde a adesão do filho do militante comunista Maurício de Lacerda, ninguém menos que o jornalista e político Carlos Lacerda, à direitona da UDN, até casos recentes como o histérico reacionarismo do comediante Marcelo Madureira, do Casseta & Planeta, mostram o quanto a direita pode se servir de gente que foi da esquerda ou gente até que nunca foi de esquerda mas embarcou na garoupa do esquerdismo a troco de vantagens ocasionais.

O caso mais contundente envolve o próprio candidato tucano à Presidência da República, José Serra. Nos anos 60, ele era um líder estudantil de esquerda católica, ligado à Ação Popular, e em 13 de março de 1964 ele era presidente da UNE (do qual foi eleito em 1963), quando participava do comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, juntamente com o então presidente da República, João Goulart (que tinha um projeto político parecido com o de Lula e Dilma hoje), entre outras personalidades esquerdistas.

Ninguém imaginava, na época, que o então presidente da UNE estaria mais tarde no lado das mesmas forças político-ideológicas que, poucos dias depois do comício da Central, em 19 de março, se reúniram no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, para pedir o golpe militar. Hoje, José Serra é o símbolo da mesma direita retrógrada que derrubou Jango e apoiou e sustentou uma ditadura militar de 21 anos.

Há também o caso de Cabo Anselmo, que, contam os analistas mais cautelosos, nunca foi esquerdista, apesar daquela postura falsamente socialista durante a revolta dos marinheiros. Depois, o sargento José Anselmo dos Santos, conhecido pelo tal apelido, mostrou-se cruel e traiçoeiro, dedurando colegas que foram mortos nos porões da tortura. Oficialmente, Anselmo declara que virou direitista por desilusão com a luta armada, mas há indícios fortes de que ele sempre foi um direitista a serviço da CIA, serviço de informação política dos EUA.

É até impossível que, numa gigantesca frente ampla que cerca a política petista, todos sejam naturalmente solidários a Lula, Dilma e similares.

Há muitos jovens reacionários que embarcam no esquerdismo por puro oportunismo, aparentemente porque "é bonito" ou por conta de algum "protocolo" atribuído à natureza "rebelde" dos jovens.

Há muita gente que vira "esquerdista" ou "centro-esquerdista" por modismo, por medo de assumir suas verdadeiras posturas, pela busca de vantagens pessoais ou porque viraram desafetos de lideranças direitistas. Ou porque já não fazem mais parte do mainstream político conservador.

Há vários casos assim, que aparentemente podem garantir o sucesso da vitória eleitoral progressista, mas podem dificultar sua sobrevivência. E exemplos não são poucos para vermos a parte tendenciosa dos aliados de ocasião, para não sermos pegos de surpresa numa guinada assumidamente direitista deles.

Não precisamos detalhar o caso de Paulo Maluf, Fernando Collor e José Sarney. Todos simpatizantes do udenismo há 45 anos. Nem no caso do baiano Mário Kertész (espécie de "Paulo Maluf com dendê"), o pseudo-radiojornalista que apunhalou a esquerda baiana pelas costas.

Há também pessoas como o professor mineiro Eugênio Arantes Raggi, numa Minas Gerais que ainda não aprendeu com os casos de Marcos Valério ou mesmo do histórico traidor dos inconfidentes Joaquim Silvério dos Reis, pelo fato da esquerda mineira não desconfiar um momento sequer do tendenciosismo do feroz reacionário que, de repente, passou a falar macio para os petistas, enquanto denuncia o pensamento da blogosfera progressista para seus amigos do Globo Esporte Minas.

Há também o caso de Pedro Alexandre Sanches, jornalista criado pela Folha de São Paulo, que caiu de pára-quedas na imprensa esquerdista, por conta de contatos profissionais com os verdadeiros dissidentes do jornal, como José Arbex Jr. e Marilene Felinto. Mas Sanches prova não ser solidário com a causa esquerdista, pois, em muitos de seus textos, ele fala do esquerdismo como um estranho no ninho, numa abordagem "distanciada" que a revista Piauí (simpática a ACM Neto e Daniel Dantas) já fazia, até acolher o próprio Otávio Frias Filho como colaborador.

Há também o ex-prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, tecnocrata apadrinhado pela ditadura militar, o bom aluno da facção da UFPR comandada pelos punhos conservadores que levaram o reitor Flávio Suplicy de Lacerda a ser ministro de Castelo Branco e ameaçar privatizar o ensino superior e prender lideranças estudantis.

Lerner foi filiado da ARENA, prefeito biônico (nomeado pelos militares) da capital paranaense, e seu "tão moderno" projeto para o transporte coletivo foi implantado no auge da ditadura, em 1974. Nesse mesmo ano, os órgãos de tortura intensificaram os assassinatos de prisioneiros políticos ou oposicionistas da ditadura militar, vários deles ligados a grupos guerrilheiros. Desse pessoal todo, é justamente Dilma Rousseff um dos remanescentes.

Também tem o PMDB carioca, na verdade uma dissidência do antigo PFL carioca, com ramificações do PSDB local, não pela divergência de princípios, mas por desavenças puramente pessoais. Temos o ex-comunista César Maia, hoje direitista com a adesão mais entusiasmada do filho Rodrigo Maia, ambos no DEM. E temos Luís Paulo Conde, Sérgio Cabral Filho e Eduardo Paes, ligados a um projeto político de dedicar o Rio de Janeiro somente para o povo rico.

A REVIRAVOLTA VERDE - Uma das grandes surpresas que a esquerda não estava preparada para encarar é a reviravolta do PV na base política de apoio ao PT. Um partido considerado irmão do outro, cujas trajetórias se confundem e cujas siglas rimam na pronúncia, de repente rompeu com o grupo petista, a ponto de estabelecer alianças com o grupo rival, o PSDB, cujo máximo de "esquerdismo" que conseguiria obter para seu apoio era o PPS e setores do PTB ou até mesmo do PSB.

A ruptura pegou todos de surpresa e o jogo de baralhos direitista também passou a ser reforçado por pessoas que pareciam se inclinar ao mais sincero esquerdismo, como Sônia Francine, a bela ex-VJ da MTV que entrou na vida política. Ou mesmo a coleção de ex-esquerdistas (ou "ex-querdistas", num trocadilho irônico) passou a ser reforçada por antigos integrantes dos CPC's da UNE, como Ferreira Gullar e Arnaldo Jabor, ou pelo "independente" Fernando Gabeira, já amestrado quando virou colunista da Folha de São Paulo e ganhou simpatia dos retrógrados de Veja.

A situação é imprevisível. Não vamos apostar que a grande frente ampla que apoia Dilma e Lula possa se manter como está. Nem todo mundo entra na causa esquerdista porque passou a gostar dela, há vários que embarcam na garoupa e, quando obtém suas vantagens, simplesmente traem a esquerda e vão embora.

Para cada um Paulo Henrique Amorim (ou Rodrigo Vianna, Luís Nassif, Luiz Carlos Azenha e Hildegard Angel) que se identifica verdadeiramente com a causa esquerdista, há milhões de Pedro Alexandre Sanches, Eugênio Raggi, Mário Kertèsz, Paulo Maluf e Fernando Collor que podem parecer solidários hoje, mas serão os traidores de amanhã.

Vamos esperar as eleições e, no caso da vitória petista, o dia da posse e as primeiras medidas do governo Dilma, se ela sair vitoriosa. Vamos ver até quando a frente ampla que envolve tanto gente solidária quanto oportunista se sustentará, porque é até impossível que o grupo oportunista continue solidário até o fim dos tempos. A máscara vai cair, como em outros episódios da História do Brasil.

Por isso, a nova direita de amanhã pode ganhar a adesão dos oportunistas que, por enquanto, incham a frente ampla de esquerda nos dias atuais. Tudo pode acontecer, e é bom que se tenha autocrítica, cautela e atenção, muita atenção.

Caso contrário, as forças progressistas poderão ruir quando os traidores aparecerem e provocarem seus estragos.

2 comentários:

Marcelo Delfino disse...

Faltou citar a banda governista do PV, liderada por Zequinha Sarney, não por acaso filho do Imperador do Maranhão, já biografado por Palmério Dória em seu magistral livro.

No mais, o texto está corretíssimo.

Marcelo Delfino disse...

Vale lembrar que, no dia que a direita governista romper com o Governo e se juntar ao PSDB e ao DEM, teremos enfim um caso inédito de um Congresso Nacional majoritariamente oposicionista, tanto no Senado como na Câmara. Aí quero ver os otários do Governo se mexerem.

Mas sempre há a alternativa do Governo dito progressista e esquerdista fechar o Congresso, não é mesmo? Como fizeram os milicos de 1964.