domingo, 3 de outubro de 2010

A IMUNIDADE DOS TOTENS DA TECNOCRACIA


O ECONOMISTA JOSÉ SERRA, EM 1978 - HÁ 32 ANOS ATRÁS, ELE FOI UM TÓTEM INATINGÍVEL.

Uma das tradições que os valores conservadores ainda resistentes no Brasil mantém é a admiração de indivíduos que são considerados totens inatingíveis, inabaláveis.

A tecnocracia se efetivou na ditadura militar, converteu antigos esquerdistas, como César Maia e José Serra, em direitistas de caretirinha, mas fez outros direitistas como Jaime Lerner se camuflarem em siglas socialistas que NADA têm a ver com seus perfis.

A tecnocracia encontrou respaldo no moralismo retrógrado que nos fazia subservientes ao poder adulto, patriarcal, técnico, político, econômico e racial. Apenas deu um verniz de modernidade nisso.

Mas mesmo dentro dessa roupagem moderna as pessoas, por mais que tentem ensaiar algum senso crítico, por sinal bem parcial, expressam total submissão por indivíduos que são tratadas como "deuses", a ponto dessas pessoas que os admiram sintam algum medo ou insegurança quando seus pretensos "deuses" são duramente criticados.

Trabalhando este blog e o Menos Automóveis Nas Ruas, eu vejo o ápice dessa abordagem tecnocrática. Vejo o auge da reputação de tecnocratas, ou seja, intelectuais ou técnicos que servem a interesses privados mas cujos procedimentos e ideias prevalecem como dominantes na sociedade, e eles são admirados até com certo fervor por muita gente, vide as buscas do Google relacionadas a eles, ou de mensagens que porventura recebo, relacioadas ao tecnocrático arquiteto Jaime Lerner.

A natureza não dá saltos. A tecnocracia não é derrubada toda de uma vez, há um efeito dominó que, por enquanto, derruba o começo da fileira, enquanto o outro extremo goza de sua relativa estabilidade das peças ainda de pé.

Vemos a decadência de uma facção política dos tecnocratas, ligada ao PSDB, personificada sobretudo pela figura do presidenciável José Serra. Vemos a crise que cerca outra facção dos tecnocratas, a da grande imprensa, dotada pelos "tecnocratas da opinião".

Durante anos eles também eram considerados "deuses". A grande imprensa, até pouco tempo atrás, era endeusada como se fosse a consciência maior do cidadão médio, ou mesmo de uma classe média considerada "inteligente", mas que, preguiçosa, preferia subordinar seu livre direito de pensar à linha editorial da grande imprensa que, vaidosamente, consumia.

Há cerca de 20, 30 anos atrás, a hoje conhecida mídia golpista e o tucanato gozavam do mesmo inabalável prestígio que hoje até uma figura duvidosa como Paulo César Araújo (o historiador de ar sinistro que defende a música brega) goza.

Em 1978, o já economista José Serra - o mesmo que hoje é abertamente apelidado de Zé da Baixaria - , já se convertendo ao neoliberalismo, era no entanto uma figura considerada incontestável, como o eram Fernando Henrique Cardoso e outros figurões que mais tarde passaram a integrar o PSDB. Tanto que essa reputação garantiu dois mandatos para FHC, sob o apoio do então PFL (atual DEM) que também fascinava a classe média abastada pelas suas promessas de modernizar o liberalismo clássico no Brasil.

Em 1990, quando a Rede Globo era vista como a encarnação do mal em forma de televisão, a Folha de São Paulo, mais tarde sua aliada nas campanhas ideológicas, era também endeusada pela classe média abastada.

Imaginemos que já houvesse, há 20 anos atrás, uma Internet tão abrangente e atuante como hoje, e procuremos, em 1990, textos relacionados à Folha de São Paulo e a figuras como Otávio Frias Filho, Gilberto Dimenstein, Eliane Catanhede e outros. Todos eles gozariam de uma reputação fantástica, seriam considerados "deuses inabaláveis", e qualquer questionamento a eles causaria medo na plateia deslumbrada.

Se eu escrevesse um texto num blog questionando, em 1990, a pretensa modernidade da Folha de São Paulo, certamente receberia comentários discordantes à minha abordagem, com alegações do tipo "a Folha é, queira ou não queira, o maior jornal do Brasil", "a Folha é o símbolo da moderna imprensa brasileira", "a Folha lutou pela redemocratização", "a Folha é o reduto do pensamento do século XXI".

Seria até inútil se tivesse escrito, em 1990, que a Folha ofereceu suas viaturas para órgãos de tortura nos tempos do AI-5. "Isso são águas passadas", diriam alguns. Mas a maioria diria algo como "isso é conto da Carochinha".

Eu mesmo, quando universitário da UFBA, via como as pessoas liam a Folha de São Paulo com a vaidade de quem estivesse num retiro místico ouvindo as palavras de um guru. A classe média assinava a Folha e, com o maior deleite, abria as páginas dos jornais durante o café-da-manhã, caprichando até no cruzamento das pernas e sentido o orgulho de quem via na Folha a segunda (ou talvez, a primeira mesmo) voz da consciência humana.

Hoje os equívocos dos tucanos e da grande mídia são bem conhecidos. A "tão moderna" Folha exibe um reacionarismo mais grotesco do que o do concorrente Estadão, que, salvo o episódio Pimenta Neves, tinha uma postura mais elegante. Mas Folha se junta à rival em muitas causas, e recentemente tanto Folha, Estadão, Veja e Globo se uniram para defender um conservadorismo político que hoje é decadente.

Já os totens atuais, seja nas políticas de urbanismo, seja na abordagem da cultura popular, gozam de uma imunidade que impede que textos esclarecedores como neste blog e em Menos Automóveis repercutam de forma ampliada.

A imprensa paranaense em geral já mostra que o modelo adotado por Jaime Lerner para os ônibus de Curitiba se encontra em clara falência. A concentração de poder da Secretaria Municipal de Transportes, o visual padronizado, a pressão profissional sobre os motoristas, os bancos desconfortáveis e duros, enfim, todo esse modelo tecnocrático mostra sua séria crise em diversas ocorrências, que a imprensa conservadora de São Paulo, suposto paradigma do pensamento nacional da sociedade, tenta minimizar sua repercussão, dizendo que são apenas "problemas normais e de fácil solução".

Teme-se em arranhar a reputação de Lerner, uma espécie de tradução busóloga da figura de Roberto Campos, famoso economista que implantou o neoliberalismo no Brasil. Teme-se em pôr em xeque um modelo tecnocrático de transporte que, ainda que contrário aos interesses públicos, cria um padrão "moderno" e "eficiente" para o transporte coletivo.

O mesmo está em relação à abordagem da cultura popular, por críticos musicais ou cientistas sociais inseridos numa lógica tecnocrática. Tal qual Jaime Lerner, pessoas como Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches e até mesmo Paulo César Araújo veem a sociedade de dentro de seus gabinetes, não possuem uma vivência social real nem concreta.

Sua vivência é abstrata. Seu discurso tenta creditar como "de interesse público" aquilo que, na verdade, é de interesse privado. Mas se Lerner fala em "urbanismo sustentável" e deixa a plateia embevecida, o mesmo faz Pedro Alexandre Sanches, quando tenta narrar a periferia do Pará como se fosse um subúrbio de Londres, numa clara visão idealizada, estereotipada, do povo pobre, mas é um discurso "otimista", "positivo", por isso também deixa a plateia boquiaberta e feliz.

Daí as buscas da Internet, com mais textos generosos e felizes no catálogo. A tecnocracia e sua "cidadania de gabinete" não é contestada, não é analisada de forma crítica nem objetiva. As pessoas se comportam como crianças quando veem o gerente do supermercado fantasiado de Papai Noel e pensam que ele é mesmo o lendário personagem natalino.

Dessa maneira, a opinião pública ainda precisa se amadurecer. As armadilhas do neoliberalismo, da tecnocracia, estão aí para seduzir as pessoas promovendo uma sociedade de plástico e um mundo de cor e fantasia. Tudo para defender interesses privados e impor restrições ao povo, essa entidade que a classe média abastada, que controla o mainstream da opinião pública, não consegue compreender.

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