sábado, 23 de outubro de 2010

IDEOLOGIA BREGA SURGIU COMO "HIGIENIZAÇÃO" SOCIAL


NA "CULTURA" BREGA, O POVO É CONDENADO A "PRODUZIR" UMA "CULTURA" ENTREGUISTA EM CONDIÇÕES DE MISÉRIA E SUBORDINAÇÃO SOCIAL.

Há uma tese, bastante equivocada, de que Getúlio Vargas promoveu a "higienização cultural" do Brasil, transformando sambas, baiões e modinhas de viola em meros jingles do Estado Novo.

É um grande exagero, porque apenas algumas músicas foram adaptadas para a propaganda da ditadura varguista. E isso se limitou apenas às letras, mas praticamente toda a arte, toda a concepção rítmica e melódica dos ritmos populares originais estava lá, com todo o estilo caraterístico de seus respectivos artistas.

Superestima a intervenção de Getúlio Vargas na cultura brasileira, a ponto de reacionários como Eugênio Arantes Raggi julgarem que toda a MPB feita entre 1937 e 1968 é subproduto da manipulação varguista e suas ramificações comunistas, como se a MPB fosse fundada a quatro mãos por Getúlio Vargas e Luís Carlos Prestes, o que é um absurdo.

Só que os defensores dessa tese delirante esquecem que Vargas, antes do Estado Novo, contava com uma equipe de intelectuais da escola modernista - como o genial pesquisador Mário de Andrade, também poeta e escritor - , que estabeleceu estudos que difundissem os verdadeiros ritmos populares brasileiros, cuja difusão continuou de uma forma ou de outra, mesmo com o abandono de alguns projetos devido ao Estado Novo.

Isso se deu porque, se não mais tínhamos as pesquisas de Mário de Andrade sobre o folclore brasileiro, tivemos depois, na época áurea do rádio brasileiro, verdadeiros pesquisadores culturais, divulgadores da verdadeira canção brasileira, como Luiz Gonzaga e Henrique Foréis Domingues (o Almirante), este um ex-membro do Bando de Tangarás (que também teve Braguinha e Noel Rosa), deram sua grande contribuição para mostrar o rico patrimônio cultural em que vivemos.

A tão falada "higienização social" que costuma-se atribuir a Getúlio Vargas, na verdade, ocorreu durante até pouco antes da ditadura militar, já na crise do segundo governo varguista, eleito democraticamente.

O latifúndio patrocinou os primeiros ídolos que depois seriam considerados cafonas, e, mais adiante ainda, bregas. Eram arremedos de cantores de serestas, caricatos, estereotipados, que na verdade faziam um engodo que misturava elementos da música romântica italiana, dos boleros e mariachis mexicanos e da country music dos EUA, num estilo deturpado e medíocre que nada teve de brasilidade.

Era a "higienização social" que os latifundiários que, mais tarde, defenderam e patrocinaram o golpe militar de 1964, a ditadura e o AI-5, buscando enfraquecer culturalmente o povo pobre para evitar que se explodam revoltas populares. Ou, ao menos, neutralizar o avanço das Ligas Camponesas, um dos principais movimentos sociais dos anos 50.

Junto à música caricata, estereotipada e apátrida, simbolizada acima de tudo por Waldick Soriano, veio todo um padrão de comportamento que o poder dominante determinou para o povo, condenando-o ao subemprego, à prostituição, ao alcoolismo, e, sobretudo, à domesticação contínua que permita paliativos de ascensão econômica sem exercer uma cidadania crítica, firme e forte.

Os defensores da hegemonia brega tentam insistir na ideia de que ela é a "cultura popular pura". Grande engano. Mas podemos ver isso no sentido irônico, uma vez que as classes dominantes, através da cafonice cultural, tenta eliminar do povo suas raízes culturais autênticas, numa ação que as entidades policiais que reprimiram o samba, por exemplo, nunca imaginaram fazer.

Tirou-se do povo aquela brasilidade autêntica, aquela diversidade genuína que reconhecia no samba uma série de ritmos variantes que expressavam a riqueza desse ritmo afro-brasileiro (como o coco, maracatu, jongo, maxixe, caxambu, samba-de-roda, chorinho e gafieira) ou na música caipira verdadeira uma linguagem realmente interiorana, com seus cateretês, modinhas etc. Ou o baião autêntico, o xaxado autêntico, os ritmos do agreste nordestino que tinham sua expressão de regionalidade verdadeira.

A ideologia brega acabou com tudo isso. A ditadura militar e o latifúndio investiram pesado nos ídolos cafonas, num processo que hoje atinge o ápice do poder dominante, tanto que até mesmo intelectuais têm medo de que a hoje música brega-popularesca caia no ostracismo, tamanho é o mercado milionário que ela movimenta.

O horror dessa intelectualidade é o mesmo dos parlamentares do Primeiro e Segundo Impérios, quando se falava na abolição da escravidão. O horror de ver baiões autênticos e sambas genuínos serem retirados dos acervos de professores e jornalistas e serem devolvidos para o povo pobre, que, recuperando sua cultura hoje esquecida, pode rearticular-se para uma mobilização social sem precedentes. O mesmo argumento quando se falava que a abolição da escravatura iria transformar o Brasil numa guerra civil entre negros e brancos.

A ideologia brega só forjou uma brasilidade caricata a partir de 1970, com o sambão-jóia, que não era mais do que um arremedo cafajeste do samba-rock (que, apesar do nome, era a fusão do samba com a soul music), e a "música sertaneja", já corrompida pelo tendenciosismo mercadológico dos mariachis, countrys e boleros estereotipados, e dos vocais esganiçados que eram muito mais caricatos que as duplas caipiras humorísticas do rádio dos anos 40.

Com medidas relacionadas ao Turismo e à Economia, dentro do contexto político conservador da ditadura militar, outros ritmos brega-popularescos foram surgindo, uns investindo na falsa regionalidade, outros no entreguismo estilístico (que não pode ser confundido com "antropofagia", porque esta não dispensa a soberania nacional na assimilação cultural de tendências estrangeiras).

Vieram a lambada, a axé-music, o forró-brega, o breganejo propriamente dito (continuidade da diluição da música caipira nos anos 70), o "funk carioca" (com seu entreguismo estilístico), entre tantos outros derivados (como o arrocha e o tecnobrega) que não passam de derivados dos demais.

Cria-se uma "cultura popular" baseada na domesticação do povo pobre, no controle social da grande mídia, que é agora quem transmite "conhecimentos" e "valores" que, segundo a ótica do poder, devem ser assimilados e seguidos pelas classes populares.

Seja a música estereotipada, medíocre e apátrida, defendida por conta de uma visão paternalista e etnocêntrica que atribui à cultura popular a ideia de "mau gosto", traindo toda uma tradição de cultura de qualidade antes existente. Seja a imprensa policialesca, que difunde o pitoresco e o grotesco em seus valores sociais mais baixos. Seja pela exploração da vulgaridade feminina, da ingenuidade das famílias pobres, da grosseria quase cavernosa dos homens, pela erotização gratuita e aberta das crianças. Tudo isso a grande mídia faz dentro da perspectiva brega-popularesca, estabelecendo o controle social e a alienação que permitem a manutenção do privilégio dos detentores do poder.

Tudo isso também serve para isolar social e culturalmente as elites, que agora se acham "donas" do rico patrimônio cultural do povo brasileiro. Patrimônio que o próprio povo é proibido de usufruir e renovar.

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