terça-feira, 19 de outubro de 2010

CORPORATIVISMO ACADÊMICO FAZ INTELECTUALIDADE IGNORAR "ENSAIOS PATRIMONIAIS"



Só mesmo num país como o Brasil, com uma intelectualidade em maioria fechada para suas próprias salas ou para a ostentação tendenciosa de palestras, para que um site como Ensaios Patrimonais seja completamente ignorado.

O Brasil vive uma situação kafkiana em relação à intelectualidade. Tanto porque abandonou os antigos referenciais pré-1964 - porque a intelectualidade não quer recuperar a cultura popular autêntica, antes preferisse preservar o brega-popularesco patrocinado pela mídia golpista (realidade que nossa intelligentzia não reconhece) - quanto por sucumbir a uma burocracia acadêmica que vê mérito apenas em títulos acadêmicos e nas "grifes" intelectuais que se projetam na mídia.

A situação é kafkiana porque, se um nome como o escritor Gilberto Freyre, lançasse hoje seu prestigiadíssimo livro Casa Grande & Senzala, que ganhou traduções em vários países do mundo, as elites acadêmicas teriam se recusado completamente, por julgar o trabalho "anti-científico", com narrativa "amadorística" e teses "de aluno medíocre de nível médio". Dentro do chamado "rigor científico" hoje adotado pela nossa burocracia acadêmica, simplesmente Gilberto Freyre não teria passado e toda sua bibliografia não passaria hoje de meros rascunhos guardados na casa do autor.

Também é kafkiana a situação, porque, se nomes como Umberto Eco, Noam Chomsky e o falecido Guy Debord fossem brasileiros, não teriam acesso sequer à seleção de mestrado, pois suas inscrições seriam simplesmente vetadas.

Além do mais, Debord, um dos críticos ferrenhos da sociedade do espetáculo, não teria sequer coluna na Caros Amigos, porque falaria certas verdades que soariam "preconceituosas" para a intelectualidade que hoje domina a abordagem oficial sobre a cultura atribuída ao povo pobre no Brasil.

PRIMEIRO SÍTIO VIRTUAL SOBRE PATRIMÔNIO FORA DO MEIO ACADÊMICO

A burocracia acadêmica é cega, surda e muda para Ensaios Patrimoniais, o primeiro sítio virtual dedicado ao patrimônio histórico que não está ligado ao meio acadêmico.

Em quatro anos de existência, Ensaios Patrimoniais informou para o leitor comum as principais atividades do IPHAN, além de apresentar algumas personalidades históricas do meio intelectual e fazer uma abordagem realmente crítica dos problemas acerca da cultura popular. É, portanto, um site sério, mas que não é assim visto porque foge do corporativismo acadêmico e de seus totens que aparecem na mídia.

Afinal, Ensaios Patrimonais não é uma "grife" como é o caso do documentário Sou Feia Mas Tô Na Moda, que, apesar da habilidade discursiva da cineasta Denise Garcia, fala tão somente de uma grande bobagem. O "funk carioca", sabemos, é um ritmo de qualidade artístico-cultural bastante duvidosa e que investe nos valores sociais mais baixos (mesmo dentro de um parâmetro moralmente mais liberal), com a expressão brutal do grotesco, isso já no decorrer do Século XXI.

Por isso mesmo é que um documentário desses vale muito menos pelo assunto apresentado e mais pelo prestígio e pelos recursos discursivos da cineasta, a verdadeira estrela do filme.

Já Ensaios Patrimoniais, que prima pela produção de conhecimento, e se esforça numa análise crítica da problemática da cultura em nosso país - problemática no seu verdadeiro sentido, de apresentar problemas, e não descrever fatos de forma acrítica - , não é todavia uma grife acadêmica nem seu autor possui títulos de pós-doutorado, doutorado nem mestrado.

Em outros tempos, qualquer um que produzisse conhecimento de forma relevante teria uma consideração pelo meio acadêmico. E os projetos de pós-graduação seriam considerados pela produção de conhecimento, e não pelo rigor das regras academicísticas que tornam o texto prolixo, rebuscado e, portanto, chato de se ler.

Isso mostra o quanto a intelectualidade brasileira está em crise, seja pelas teses delirantes de Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Denise Garcia, Ronaldo Lemos e outros sobre o que eles entendem como "cultura popular", seja pela intelectualidade acadêmica que, para expor sua produção de conhecimento, se perde em quase todas suas teses em cansativas citações de outros autores.

Afinal, não dá para esperar, na leitura atenciosa e entediante, que uma tese considerada relevante mostre a que veio no final, depois de 75% de suas páginas se limitarem a um mero desfile de citações bibliográficas, sem sabermos em que posição o autor está na sua aparente produção de conhecimento. E só o tempo em que ele perde, com muitas páginas escritas, para explicar o trabalho, dentro do "rigor científico", é um convite para nós desistirmos da leitura e condenarmos o livro ao confinamento nas estantes mais sombrias, à mercê de traças, fungos e cupins.

A intelectualidade diz que quer transmitir seu conhecimento para a "comunidade", para não dizer "sociedade" (que é, todavia, um termo de sentido mais genérico e vago). Mas ela mesma se isola na sua vaidade acadêmica, que só considera a qualidade do autor pela grife que ele representa ou pelos títulos que ele acumula, enquanto tem medo de questionar problemas que ponham em risco os preconceitos ideológicos etnocêntricos e comprometam a reputação de alguns astros da intelectualidade corporativista.

Com esse comportamento, a elite acadêmica brasileira acaba passando vergonha para seus colegas do exterior, que conhecem bem os riscos que esse corporativismo pode trazer para a reputação internacional dos astros e dos burocratas da intelectualidade nacional.

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