terça-feira, 26 de outubro de 2010

COMERCIAIS DE CERVEJA LANÇARAM DEFINIÇÃO DE "FALSO NERD"



Já deu para perceber que aquilo que aqui no Brasil se chama de "nerd", na prática, pouco tem a ver com o filme Vingança dos Nerds. Como também pouco tem a ver com Buddy Holly, com Devo, com Morrissey.

Geralmente são rapazes que adoram cultivar uma barba, adoram rodadas de cerveja e ver partidas de futebol. E, estranhamente, fazem mais sucesso entre a mulherada do que se pode cogitar num nerd autêntico.

Como no Brasil há a mania do pretensiosismo, de pseudo-esquerdistas, pseudo-alternativos, pseudo-altruístas, pseudo-excluído social etc, ser "nerd" virou mais um pretensiosismo. Basta qualquer garanhão biriteiro passar mais de duas horas num computador e ver filmes de ficção científica e, pronto, se criar um blog supostamente "nerd" este acaba fazendo mais sucesso do que se pode cogitar num blog autenticamente nerd.

E logo sabemos de onde a mídia brasileira se inspirou para fazer o tipo pseudo-nerd, esse estranho ser com barbinha por fazer, fanático por birita e sem qualquer experiência de solidão afetiva.

Simples. Foram os comerciais de cerveja que esboçaram essa coisa sem pé nem cabeça que se conhece oficialmente como "nerd".

É certo que os nerds de Vingança dos Nerds tomavam uma cervejinha, mas nada daquela coisa religiosa dos garanhões que enchem a cara até no café da manhã. Se os nerds autênticos tomam cerveja, é de vez em quando, e noutras situações eles podem tomar sucos, bebida láctea, café, refrigerantes, chás etc.

Quanto a mim, bebida alcoólica não é minha especialidade. E, pessoalmente, acho cerveja uma espécie de vitamina de dipirona, com aquele sabor de Novalgina com espuma. Totalmente sem graça.



Sabemos que os comerciais de cerveja tratam o jovem brasileiro feito um imbecil, num recurso sutil para atrair o público adolescente (a lei não permite, mas a molecada, por ser impulsiva, é ótima demanda para as indústrias de cerveja).

E tomem comerciais "engraçadinhos", cara chato com voz fanha dizendo "um cervejão, ão-ão" e um grupo de biriteiros no estádio enquanto suas namoradas (lindíssimas!!!!!!!!!!!) estão em casa para "roubar" o estoque de cerveja dos caras.

Você junta o perfil de homem pateta do comercial de cerveja, põe óculos nele, faz ele ficar mais tempo no computador, criando blogs supostamente "nerds" (tipo Judão), desses que, na opção de musas, são mezzo Nicole Bahls, mezzo Leandra Leal, faz ele ver filmes de ficção científica durante quatro horas seguidas (dá para ver dois longas).

E aí, pronto: temos um pseudo-nerd, que mais parece um mauricinho mais cínico e barbudo, tão "identificado" com Vingança dos Nerds como Reinaldo Azevedo (temível colunista de Veja) com os blogueiros progressistas.

Aí temos um garotão, ão-ão, que adora um cervejão, que só vê um jogão, que não sabe se prefere boazudas ou classudas, mas que, de ão-ão-ão, só não conhece a solidão. O que significam os versos de "Heaven Knows I'm Miserable Now", de Morrissey, para ele? "Um casal de namorados, de mãos dadas, passa perto de mim / E o céu sabe que eu sou miserável agora"... Para o pseudo-nerd, esses versos não existem. Ele prefere as grosserias do Axl Rose.

Sem falar do Buddy Holly, o sagrado Buddy que morreu para salvar a humanerdade. Para o pretenso nerd, ele parece como o Beethoven da juventude alienada. Da mesma forma que os jovens alienados pensam que Beethoven não é mais do que um cachorro são-bernardo, os pseudo-nerds pensam que Buddy Holly não passa de nome de música do Weezer.

Um comentário:

M.V "Shogun" disse...

"cerveja uma espécie de vitamina de dipirona, com aquele sabor de Novalgina com espuma".

Hahahaha brilhante definição! É mais ou menos esse sabor que sinto quando TENTO dar um gole em cerveja, para desistir logo em seguida.