sábado, 18 de setembro de 2010

TELEVISÃO, 60 ANOS: UM DOENTE EM ESTADO GRAVE



Hoje a televisão brasileira faz 60 anos.

Era visto como uma loucura o projeto de Assis Chateaubriand criar uma emissora de televisão no Brasil. O mercado não aceitava, acreditava ser um mero delírio.

Mas a televisão foi instalada. A duras penas.

Veio padre Mojica abençoar as transmissões e sua programação, aos trancos e barrancos, se iniciava, transmitida em poucas horas, no horário nobre.

Programação 24 horas? Nem pensar. As limitações técnicas eram enormes, tanto que os erros de performance na dramaturgia e na publicidade eram grandes.

Mas, sem dúvida alguma, era uma televisão bem mais inteligente que hoje, apesar das facilidades do acesso à informação.

Os Diários Associados eram (e ainda são) um grupo empresarial conservador, mas em outros tempos até o conservadorismo direitista era mais decente.

O jornalismo de O Cruzeiro fazia suas picaretagens, mas até tais picaretagens eram bem feitas. David Nasser fazia arte com suas mentiras descaradas. Até o Amigo da Onça tinha medo dele.

Vieram outras emissoras de televisão, depois da TV Tupi paulista. A carioca TV Tupi era um ano mais nova. A TV Paulista surgiu em 1952, para depois morrer aos 14 anos de idade, engolida pelas Organizações Globo. E a TV Itapoan, dando um tempero de dendê na façanha dos Associados, surgiu em 1960.

Veio também a TV Excelsior em 1963, com seu projeto arrojado, a cara daquele projeto progressista e país, vigente desde a Era Kubitschek, mas abordado com a ditadura militar.

A TV Record, surgida em 1953, atingiu o auge com seus programas musicais na década de 60, entre 1965 e 1968, além dos seus festivais, incluindo o Festival da Canção de 1967, que rendeu documentário recente.

A televisão tinha excelentes musicais, quiz shows com perguntas sobre História e Filosofia, teleteatros, novelas mexicanas risíveis mas divertidas, transmissões de filmes enlatados e desenhos animados. E já produzia um seriado de excelente qualidade, o Vigilante Rodoviário, hoje uma preciosidade cult que ainda precisa recuperar vários episódios e lançar tudo em DVD de grande tiragem.

Eram outros tempos. Até Sérgio Porto, meio tímido, encarava (?!) de costas a televisão, mas dava conta do seu recado. Chico Anysio e seus personagens começavam a interagir na hoje tosca edição de videoteipe, a partir de 1960, mas a técnica era um avanço para aquela época. Jô Soares era um comediante promissor. E a turma que fazia humorismo no rádio também aproveitou para dar as caras na telinha.

A televisão era um luxo e tinha apenas poucos felizardos, que chegavam a alugar suas casas para que seus vizinhos assistissem à "caixinha" de imagens. Mas a transmissão frequentemente falhava e era em cores preto e branco. Uma das medidas era botar esponja de aço na antena para a transmissão não dar tantos problemas.

A televisão era feita ao vivo, até 1960. Veio o videoteipe, a partir de então, como dito acima. A qualidade da televisão era tosca, mas decente, inteligente. Mas, lamentavelmente, os estoques de sua programação sofreram incêndios, destruindo a maior parte do seu acervo. Por exemplo, não temos mais os primeiros programas apresentados por Wilson Simonal. E os registros da atuação de Leila Diniz nas novelas simplesmente desapareceram.

Veio a televisão a cores em 1972, com a transmissão da Festa da Uva, em Porto Alegre. Mas a maioria dos aparelhos usados pelo povo era em preto e branco. A televisão se popularizou, mas o golpe militar fez declinar sua qualidade. Com o AI-5, a televisão partiu rumo à cafonização. Que foi seguida como que por cartilha pela TV Tupi agonizante, pela TV Record enfraquecida e pela TV Bandeirantes em busca de sobrevivência. E, depois, por uma TV Studios que moldaria o comportamento domesticado do povo, tendência depois reforçada e "requintada" (ou requentada?) pela Rede Globo de Televisão.

Aliás, enquanto a TV Excelsior era destruída pela ditadura militar, a Rede Globo, lançada com a ajudinha da Time-Life, crescia e deturpava o projeto da TV Excelsior à mentalidade direitista, tal qual o sórdido Pimenta Neves fez com o projeto de Cláudio Abramo no jornal Folha da Tarde.

A televisão dos anos 50-60 tornou-se passado. Hoje impera a mentalidade viciada da televisão popularesca, supostamente "popular" e supostamente "moderna", com o espetáculo cínico da vulgaridade. Afinal, é a "ditabranda" do mau gosto. E ainda há gente feliz com esse circo da imbecilização brasileira.

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