domingo, 26 de setembro de 2010

"PANELINHAS": QUANDO A MINORIA SE ACHA A MAIORIA



No advento da Internet, um fenômeno insólito surgiu para desafiar toda análise a respeito da opinião pública. Grupos minoritários ou particulares, ligados a causas específicas, espécie de "maçonarias digitais", defendem procedimentos, conceitos ou ideias que, mesmo não sendo de interesse nem em benefício da maioria da sociedade em geral, parecem à primeira vista majoritários.

Causas que não correspondem aos interesses da maioria da sociedade, mas que, dentro dos grupos específicos situados sobretudo em fóruns de Internet, comunidades do Orkut e outras redes sócio-digitais, são apoiadas pela maioria de seus integrantes.

Sendo eu um radiófilo e um busólogo, pude verificar grupos assim, particulares e minoritários, que no entanto falam como se fossem a maioria da sociedade, sendo apenas majoritários dentro do grupinho privativo deles.

No rádio, há o caso daqueles que defendem a Aemização das FMs, e na busologia, há quem defende o sistema de "pool" nos ônibus. É evidente que existe muita gente reprovando esses fenômenos da "racionalidade" tecnocrática, que eu defino como futilitaristas (porque são defendidas com alegações "utilitárias" na prática supérfluas), mas há aqueles grupos que parecem organizados para defender a causa como se fossem "as causas do povo".

Claro que, num período delicado como o de hoje, quando a grande imprensa não se contenta em perder o posto de "dona da opinião pública" (ela mesma querendo vender os interesses privados como se fossem públicos), existem pessoas que defendem seus interesses particulares usando todo tipo de argumento que dê a impressão que ele defende interesses públicos.

Na verdade, essas "maçonarias virtuais" contam com "panelinhas" formadas quando duas ou três pessoas defendem determinada ideia mediante intensa argumentação, nem sempre coerente, mas verossímil e insistente, com seus textos longos, com seu pedantismo, com sua intransigência e seu empenho em contraargumentar quem quer que fosse discordar de suas teses.

Na Internet, nota-se que essa "panelinha" acaba tendo um poder decisório e um tráfico de influência que contradiz muitas vezes com seu sentido impopular. Muitas vezes quem tem maior visibilidade pode agir contra o interesse da maioria, e mesmo assim sua ação acaba prevalecendo. Como a meia-dúzia de legisladores ou juristas que, muitas vezes, decidem sentenças ou projetos impopulares, mas o interesse deles acaba prevalecendo.

A fragilidade do senso crítico da maior parte dos brasileiros permite que "panelinhas" assim se formem, e em várias situações pude ver posturas tão constrangedoramente minoritárias, mas "majoritariamente" defendidas dentro de um grupo.

Quando eu participava de espaços de mensagem para sites sobre rádio, uma vez espinafrei as ditas "rádios rock" 89 e Rádio Cidade porque elas eram feitas por quem não entendia de rock. De repente uns idiotas escreveram que "não precisa entender de rock, tem que ser bom profissional", e outros incautos seguiram, como se apoiassem a tão "imparcial" posição.

Esta postura, no entanto, vai até contra as próprias normas naturais de qualquer profissão, uma vez que um bom profissional tem que gostar e entender daquilo em que trabalha. Se ele não entende, não há como ser bom profissional, por mais jogo de cintura que tenha. Com o tempo, a posição da "panelinha" radiofônica perdeu força, e hoje nenhuma das duas "rádios rock" existe mais, com seus produtores hoje trabalhando com "funk carioca", sambrega e breganejo, estilos que eles mesmos "rogavam morte" há dez anos atrás.

Há vários outros exemplos, o que demonstra que o Brasil começa a viver sua crise de representatividade. A própria grande mídia, ligada a interesses privados, não consegue mais bancar a "proprietária" da opinião pública. O mundo não passa na televisão, nem no rádio FM, nem nos jornais impressos de grande circulação. A blogosfera mostra um mundo mais real e mais abrangente que a grande mídia, mesmo a "boazinha", não consegue mostrar.

A crise de representatividade ainda vai mostrar mais coisas. Radiófilos que fingem defender os interesses dos ouvintes, mas apenas os usam como pretexto para defender projetos que interessam mais aos donos de rádio. Busólogos que fingem defender os interesses de passageiros, dentro de uma retórica desesperada de seus textos longos, paranoicamente persuasivos, que no entanto demonstram mais ligação aos interesses dos grandes donos. Eo outros interesses, de demagogos, pelegos, reacionários e outros grupos particulares que querem que seus interesses privados sobressaiam sobre a maioria da população.

É esperar para ver.

2 comentários:

Edilson Trekking disse...

Esses dias conversei com um rapaz que faz rádio lá no sul, e ele me disse que está sendo muito dificil manter a qualidade do programa na rádio universitária(não vou citar o nome para preservar o rapaz), sendo essa Universidade considerada 5ª no estado do RS e 11ª no ranking Brasil das melhores. Disse ele que o assédio, a insistência dos empresários de brega-popularesco é muito maior e que as pessoas que gostam da boa música ficam na deles. Esse "ficar na nossa" dos que gostam de cultura é que talvez
esteja facilitando esse oceano de medíocridade que está se tornando(ou já se tornou o país). E o seu blog, Marcelo, vai continuar fazendo a diferença. Continue assim. Parabéns!

O Kylocyclo disse...

Edilson, só uma pequena correção. Sou Alexandre, o Marcelo é meu irmão e faz o Planeta Laranja.