quinta-feira, 16 de setembro de 2010

OS IMPASSES DA CONTRACULTURA


WOODSTOCK 1994 - A "nação Woodstock" vendeu sua alma para a McDonald's.

A nação Woodstock anunciava, há 41 anos, um novo mundo em que a sociedade consumista conservadora seria extinta e o mundo se transformava numa aldeia global hippie, com base no termo "aldeia global" lançado por Marshall McLuhan.

A cultura do novo, o fim dos preconceitos, a paz absoluta, a liberdade absoluta, eram princípios lançados pela Contracultura, muitas vezes da forma mais ingênua e sonhadora possível, embora com certeza na melhor das intenções. Entre 1968 e 1969, os rumos que pareciam tomar a cultura jovem nos anos 60 indicava tais expectativas, e o avanço tecnológico seria contrastado por um estilo de vida jovem que recuperava o contato primitivo com a natureza.

Sabemos que esses ideais todos envelheceram, diante de novos impasses e novos desafios. De repente, os anos 70 foram representados pela reação da sociedade conservadora, que, horrorizada com o visual "sujo" e "rude" dos hippies, retomava todo um ideal de glamour e luxo que estava decadente nos anos 50 e reciclá-los nos anos 70. Todo um repertório ideológico que incluiu Ray Conniff, Salsoul Orchestra, hotéis cinco estrelas, carros como Landau (da Ford) e Opala (da Chevrolet), quarentões grisalhos vestindo smoking (que se tornaram matrizes para a imitação tardia de Ghiaronis e Justus nos anos 2000), uísques escoceses, ternos de grife, elegantes damas da hi-so, colunistas sociais etc.

Só que uma terceira via havia chegado, o movimento punk, rigorosamente lá por volta de 1976. Assustando novamente a sociedade granfina, mas também deixando apavorada a "nação hippie", já convertida em pais e mães de família "caretas" apenas com vestuário flower-power, o movimento punk lançava outro comportamento, menos otimista, a princípio mais jocoso, depois mais politizado (neste caso com a geração hardcore de 1981). Vieram os anos 80 e as tendências pós-punk criaram uma outra cena - que o mainstream fingiu que não viu - com tendências musicalmente tão ricas e impactuantes quanto as tendências roqueiras dos anos 60.

Nos anos 90, depois da conversão de hippies dissidentes (os mais ideologicamente acomodados) em yuppies, e depois de terem caído o Muro de Berlim (também apelidado de "muro da vergonha" e "cortina de ferro"), a União Soviética e os regimes do Leste Europeu, a sociedade capitalista viveu um clima de euforia. E Francis Fukuyama, historiador pouco conhecido, apressou-se a dizer que a história da humanidade acabou. O mercado fez o maior carnaval com a globalização econômica, e, com a Internet, as empresas "ponto com" também abusaram de todo o clima festeiro.

Só que desde então as coisas ficaram mais complicadas. Há muito o hippie é considerado um espécie antigo, e quem parecesse com os tipos rebeldes de 1968-1969 era chamado de "hippie velho", seja o coroa trajado de "poder da flor", seja o gorducho cinquentão com jeito de "hell's angel", usando camisa de flanela, casaco de couro em cima e montando uma moto Harley Davidson.

Mas os próprios ideais dos anos 60 se tornaram mais complicados de se concretizarem hoje em dia. Vivemos numa pós-modernidade onde cada vez está mais difícil ser "provocador". Muito dos ideais da Contracultura foram assimilados, com gosto, pelo establishment, que nos anos 90 teve seus quadros profissionais e mesmo decisórios preenchidos por novas gerações, com uma nova mentalidade.

Não é preciso entender isso. Basta vermos que, por exemplo, os grandes bancos agora apelam para campanhas publicitárias mais humanistas, não obstante cômicas, mas em outros casos apenas sentimentais.

Por isso mesmo, aquele discurso concretista de 1956-1961, a performance do corpo nos teatros de vanguarda, a retórica intelectual que líamos na imprensa alternativa, tudo isso foi assimilado pelo "sistema". Se até hoje os mais matutos jogadores de futebol usam o cabelo moicano antes exclusividade dos punks londrinos, significa hoje que a modernidade foi ontem e que a pós-modernidade torna hoje muito difícil sabermos o que é avançado e o que é careta.

Os mais conservadores são os que mais cobrem seus corpos de tatuagem. Os mais cafonas são os que mais abusam do uso de piercing, sobretudo no caso de colocá-los nos umbigos das mulheres. Os mais reacionários são os que mais apelam para a overdose de gírias e palavrões. Por outro lado, os vanguardistas de hoje são mais sóbrios, mais céticos e mais discretos. A burguesia conservadora também está cheia de subversivos no bom e no mau sentido, na liberdade sexual ou na rebeldia encrenqueira.

Um dos sintomas disso é que os festivais de Woodstock de 1994 e 1999 apenas reconstituem, visualmente, o estilo dos hippies e de outros estratos sociais rebeldes do festival de 1969. É apenas uma reconstituição formal, porque o estado de espírito desapareceu, substituído por um ideal conformista de consumo e a falta de preocupação com a realidade em que vivemos.

Por isso mesmo é que é muito perigoso usarmos a retórica pós-moderna para justificar a banalidade e a vulgaridade do entretenimento. De fato tivemos muitas conquistas e avanços, mas em compensação o "sistema" assimilou muito do que parecia subversivo há mais de 40 anos atrás.

Não dá para compararmos a filosofia corporal dos grupos teatrais de vanguarda dos anos 60-70 (no Brasil tivemos, por exemplo, os Dzi Croquettes) com a tolice puramente grotesca do É O Tchan, dos similares e do "funk carioca". Não dá para compararmos a "liberdade total" falada nos anos 60 com o império da mediocridade de hoje, como se os brega-popularescos de hoje fossem "filhos perdidos" do Tropicalismo (não são - quando muito, são clones genéricos de antigos seresteiros ou filhos bastardos da Jovem Guarda).

Gente como Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna lançam uma retórica "pós-moderna" para fazer simples propaganda das tendências popularescas vigentes, pondo nelas o tendencioso e falsíssimo rótulo de "cultura de vanguarda". Pelo discurso que adotam em seus textos, parecem estar em 1970 e escrevendo para jornais mimeografados udi-grudi, e pega o público desprevenido, achando que de repente aquilo que veem de música no Domingão do Faustão é a "nova Contracultura". Discurso confuso e perigoso, compreendão idem.

Pois essa falsa analogia que hoje converte o ultra-conservador Waldick Soriano em "rebelde subversivo", na verdade, acaba minando e destruindo as conquistas e avanços da sociedade contracultural. Afinal, a Contracultura dos anos 60 nos mostrava uma música de excelente qualidade, e a MPB não fugiu a esse propósito.

Pois é o rancor da intelectualidade com a ineficácia social da MPB dos anos 60 e 70 que permite chamar os brega-popularescos de "ousados" (quando eles são claramente apoiados pelos setores mais conservadores da sociedade, todos eles). A MPB foi obrigada a transformar sua mensagem poética num código secreto e cantar o Brasil do futuro que mais parecia incerto, e a intelectualidade chamou seus ídolos de traidores, quando eles o faziam forçados pelo AI-5.

Aí, na gororoba discursiva e analítica de hoje, num Brasil onde as pessoas não ouvem música com atenção nem leem livros de forma atenta e observadora, o grotesco é tido como "subversivo" e o subversivo como "grotesco". Até a Publicidade e Propaganda absorveram o discurso concretista e ninguém desconfia.

Muita gente cai na gargalhada quando alguém parodia o discurso intelectualóide - como Bruno Mazzeo no seu personagem, o antropólogo Albenzio Peixoto - , mas é a mesma gente que aplaude Pedro Alexandre Sanches quando usa um confuso discurso "pós-moderno" só para dizer que ele é fã da Gaby Amarantos, um ídolo da mediocridade musical brasileira, porque é a periferia amestrada pelo poder oligárquico e limitada a brincar de pop americano (neste sentido, a "Beyoncé do Pará" não difere muito dos chitões, zezés e belos que aparecem há mais tempo na tela da Globo).

As funqueiras e dançarinas de porno-pagode não têm ideia de que significa a "filosofia do corpo" que a intelectualidade apologética atribui a elas. Muito fácil e confortável é acusar quem rejeita a vulgaridade delas de militância moralista. Ora, eu apenas rejeito a vulgaridade, por ela ser puramente grotesca e constrangedora, e de repente sou integrante de uma instituição moralista que nem tenho ideia do que seja? De repente, eu não posso ter preconceito a coisa alguma, exceto com meu prazer.

Por isso o discurso "contracultural" para justificar as coisas que aí estão, na verdade, é um mimetismo retórico que o "sistema" adotou para parecer moderno. E que vai contra as verdadeiras conquistas da Contracultura, que, acima de tudo, defendia a valorização do prazer e da liberdade humana. A liberdade que não significava se comporar como um tolo patético e resignado, que é o caso da ideologia brega-popularesca.

O maior desses impasses é que a aparência se voltou contra a essência. O discurso e o visual da Contracultura hoje agem muito mais contra a essência e as conquistas da juventude contracultural dos 60-70, na medida em que o discurso e visual pós-modernos de hoje só servem para reforçar e respaldar os valores do neoliberalismo (neo)conservador vigentes desde os anos 90. E o neoliberalismo de hoje cada vez mais troca seus anéis, mas seus dedos continuam os mesmos. Coisa que certos caros amigos, deslumbrados com a troca dos anéis, não conseguem perceber.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Há de se anotar que o ambientalismo era parte da contracultura lá nos anos 60, e depois do fim da onde hippie, essa agenda foi levada adiante pelos ecologistas ou verdes. Só que, hoje em dia, os verdes também foram cooptados pelos substratos mais conservadores do mundo da política e da economia.