sexta-feira, 17 de setembro de 2010

O QUE DÓI COM O FIM DO JB IMPRESSO



O que dói, de tristeza e até de raiva, é que o fim da versão impressa do Jornal do Brasil, no começo deste mês, não deixou qualquer herdeiro de sua sofisticada linha editorial. O JB era um jornal conservador, mas, a exemplo de O Estado de São Paulo, era ao menos um jornal elegante, sofisticado, não sendo perfeito, é verdade, mas que esbanjava inteligência e bom-senso, mesmo no seu plano ideológico conservador.

Agora, o único concorrente forte do jornal O Globo na imprensa carioca é o jornal O Dia, cuja linha editorial apenas elevou-se de forma pífia em relação à linha sanguinolenta de outrora. E ainda comete a estupidez de divulgar os talentos do brega-popularesco. Por razões óbvias: a horripilante FM O Dia é do mesmo grupo empresarial.

Juro que tentei ver na primeira página de O Dia, na última segunda-feira, uma nota sobre o falecimento do cineasta francês Claude Chabrol. Nada. Se fosse o Jornal do Brasil, havia nota. No site de O Dia, também não tem nota a respeito.

Eu não publiquei nota sobre Claude Chabrol, por um lapso meu. Mas senti muito porque é menos um cineasta de arte que se foi. Mas se eu fosse redator de O Dia teria escrito, sim, e dito para meu editor-chefe que valia a pena escrever sobre ele. Vai alguém botar um filme de qualquer cineasta da nouvelle vague, legendado e de graça, para o pessoal da Zona Norte carioca, ou da Baixada Fluminense, e até o complicado Jean-Luc Godard será tão popular quanto o Daniel Filho cineasta.

O povo pobre, quando tem acesso à cultura de verdade, vai, gosta e aplaude. Com um prazer inimaginável para muitos, mas indiscutível. Enquanto o povo aplaude quase que automaticamente, com a "espontaneidade" de frequentador de sessões de hipnotismo, esses ídolos fajutos do "sertanejo" ou do "pagode romântico" (que aqui chamamos, respectivamente, de breganejo e sambrega), quando o caso é de um artista de verdade, os aplausos são muito mais naturais e entusiasmados.

Recentemente, em Recife, o músico Egberto Gismonti, que faz uma música considerada "difícil", foi aplaudido de pé por uma plateia mais do que entusiasmada. E não tinha só gente de classe média, doutorzinho, madame, não. Tinha também gente do povo, e não eram poucos. Nenhum ídolo do sambrega, por mais badalado que fosse, nem a mais carismática "dupla sertaneja", nem qualquer "diva" da axé-music, nenhum desses arranca aplausos assim com tamanha naturalidade.

Também doeu muito o fato de que a Nova Brasil FM não ter voltado mais. Sua frequência foi ocupada por uma inútil repetidora da Rádio Globo AM, fruto de uma transação privativa entre os irmãos Marinho e Orestes Quércia, só apoiadas pela "panelinha" de radiófilos que não passam de lambedores-de-gravatas, igualzinho à "panelinha" de busólogos que adoram bobagens como o sistema de "pool" nos ônibus e a sua uniformização visual. Com o lamentável Roberto Canázio empurrando música brega goela abaixo para quem é obrigado a ouvir a "Rádio Globo AM" FM, por conta da poluição sonora de algum trouxa de plantão.

Para a mediocridade, tem se todo investimento. É como diz o ditado, para baixo todo santo ajuda. E todo demônio também. Mas, para quem quer algo de qualidade e bem-feito, as escolhas ficam cada vez mais escassas.

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