domingo, 12 de setembro de 2010

O PRECONCEITO DA INTELECTUALIDADE PRÓ-BREGA


A "PAÇOCA" DO PEDRO ALEXANDRE SANCHES TAMBÉM ESTÁ NO CARDÁPIO DE ANA MARIA BRAGA

A intelectualidade defensora do brega-popularesco se acha dona da visão oficial a respeito da cultura popular. Não é uma visão coerente, afinal eles compreendem a periferia do alto de seus condomínios, através do filtro parabólico da TV paga.

Dá para perceber que esses intelectuais, considerados "deuses" por boa parte de setores ingênuos da opinião pública, só veem a periferia de longe. Mas, como eles fazem um discurso aparentemente positivo, o aplauso é certo. Muitos põem o blog de Pedro Alexandre Sanches como link nos seus blogs. E mesmo um cafajeste literário como Paulo César Araújo - vi ele pessoalmente, e ele não me passa confiabilidade - é endeusado ao extremo por essa plateia deslumbrada.

Por isso é que eles, mesmo adotando uma visão paternalista, elitista e etnocêntrica do povo pobre - na ironia deles mesmos acusarem os que discordam deles com os mesmos adjetivos - , eles são aplaudidos. E são adotados pela intelectualidade de esquerda sem a menor desconfiança de que a "cultura" brega-popularesca que defendem é exatamente a mesma que é apoiada, com entusiasmo, pela Rede Globo, Folha de São Paulo e Grupo Abril (através da Contigo, Caras e Tititi).

Como sabemos aqui, o discurso que Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, Rodrigo Faour, Hermano Vianna, Bia Abramo e Milton Moura fazem não é coerente. É um discurso confuso, dotado de falhas. Num instante, é uma narrativa descritiva, que se torna um apelo publicitário maquiado de divagações intelectualóides. E que, mesmo com alegações falsamente militantes, com seus clichês da retórica "pós-moderna", eles de uma forma ou de outra adotam algum conceito neoliberal por dentro desse discurso engenhoso.

É inútil costurar essa abordagem da "cultura popular(esca)" com alegações do tipo "pequenas mídias", usando clichês do discurso informático, pós-moderno, militante e antroposociológico. Numa passagem ou noutra, aparecem as abordagens típicas do discurso neoliberal.

Se por exemplo esses críticos musicais ou cientistas sociais falam que a MPB dos anos 60/70 e mesmo a música brasileira de qualidade vinda das classes pobres nos anos 40 e 50 acabou, que a "nova música brasileira" é brega e "primitiva" (maneira de dizer para ocultar o pejorativo termo medíocre), eles estão recorrendo à tese do "fim da história" do historiador neoliberal Francis Fukuyama, aplicada à análise da Música Popular Brasileira.

Se esses críticos e etnólogos por exemplo afirmam que a mediocridade da música brasileira de sucesso hoje - mediocridade que eles cinicamente isolam com aspas - vale "porque a maioria das pessoas gosta" ou porque "é isso que o povo sabe fazer", eles adotam o mesmo preconceito de dondocas esnobes que integram os mais ricos e antisociais setores da alta burguesia brasileira.

Se esses críticos se apavoram de tanto horror, quando falamos da necessidade de surgirem, nas periferias, roças e sertões, novos Ataulfo Alves, João do Vale, Jackson do Pandeiro, Marinês, Donga e Cornélio Pires, e nos chamam de "loucos saudosistas", estão adotando o mesmo discurso do medo de Regina Duarte naquela antiga campanha tucanopefelista (como se conheciam os demotucanos uns dez anos atrás). Pior, acabam se equiparando à reação do publicitário nazista Josef Göebbels que ficava furioso quando ouvia a palavra cultura.

Se esses críticos acreditam na utópica evolução do brega-popularesco atual, de converter os Léo Santana lenta e gradualmente nos Jackson do Pandeiro de amanhã, ou transformar uma Tati Quebra-Barraco numa nova Elza Soares (tal qual os breganejos e sambregas milionários brincam de "emipebê" em tributos musicais organizados pela Rede Globo e Multishow ou mesmo em incursões oportunistas em programas da TV Cultura e da MPB FM), eles estão apelando para um dos pilares do pensamento neoliberal moderno, o filósofo positivista Auguste Comte.

Se esses críticos dizem que o brega-popularesco é "a verdadeira MPB" porque faz sucesso entre as classes populares, lotando plateias, alimentando o sucesso da mídia (que em outros momentos "desaparece" da mesma retórica apologética) e tendo alta rotação nos botecos e camelôs das ruas das cidades, esses críticos (tal qual os cientistas sociais de mesmos argumentos) adotam a mesma lógica de economistas neoliberais, que medem o sucesso da sociedade através do faturamento e do sucesso de vendas e de consumo.

Os fatos não deixam mentir. Os ídolos brega-popularescos que esses críticos e cientistas sociais tanto defendem, e que eles, só eles, assim como sua plateia animada, acreditam serem ignorados pela grande mídia, aparecem com a maior facilidade no Domingão do Faustão, principal vitrine de entretenimento do Partido da Imprensa Golpista.

Ora, ora, se até os comediantes do Casseta & Planeta já são apelidados de Psdbeta & Tucaneta, quanto mais o grande olimpo da cafonice reinante, a maior máquina de entretenimento das Organizações Globo, que condiciona todo um comportamento domesticado e resignado da população pobre provida de televisão. Como é que os maiores ídolos popularescos, ou mesmo as tendências emergentes, aparecem no olimpo midiático do Domingão do Faustão, e essa intelectualidade não vê? E ainda se acham sábios pela retórica confusa e equivocada que adoram. Vá entender...

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