segunda-feira, 13 de setembro de 2010

O ÓDIO INTELECTUAL À MPB



Quem defende a música brega-popularesca, em primeira instância, fala, a título de provocação, que essa categoria musical é "a verdadeira MPB", só porque seus ídolos lotam plateias e são ouvidos pela empregada doméstica, pelo porteiro de prédio, pelo camelô e similares.

Mas hoje em dia, não havendo sentido em chamá-los de MPB ou de, num recurso ao mesmo tempo arrogante e nervoso, falar em Música Popular Brasileira (às vezes enfatizando a palavra "popular" de forma bem oportunista) com todas as letras, os defensores e simpatizantes da cafonice reinante se desanimaram com o rótulo MPB, incapazes de fazer a sigla deixar o estigma de "Academia Brasileira de Letras" musical para se transformar na Casa da Mãe Joana da música brasileira.

Por isso, a intelectualidade etnocêntrica, assim como os próprios ídolos do brega-popularesco, passaram a sentir repugnância à sigla MPB. "Virou um clube fechado", é a acusação. Os alvos da acusação não se tornam claros. Fala-se em Caetano Veloso e Gilberto Gil, mas eles mesmos são condescendentes à cafonice reinante. Fala-se, timidamente, em Tom Jobim, porque não dá para desmoralizar um mestre impunemente. Sobra para Chico Buarque, mas também ele tem sua reputação a zelar. No fim, quem paga o pato é Guilherme Arantes, que, olhe só, é acusado de "brega" enquanto, pasmem, a pieguice chorosa de Fábio Jr. é que é considerada por certos incautos e outros cínicos como "a verdadeira MPB".

Mas hoje a tendência é a intelectualidade etnocêntrica, que invade a mídia esquerdista a tratar o público que nem gado - sorte que a maioria dos leitores da nossa imprensa esquerdista foi "alfabetizada" pela Folha de São Paulo - para defender o "verdadeiro valor" da cafonice hegemônica em nosso país, é rejeitar o termo MPB.

Isso deixa vasar um certo ódio que esses intelectuais têm em relação à MPB.

Que ódio é esse? Que rancor, que má vontade? Logo partindo de cientistas sociais, de jornalistas culturais, gente que deveria zelar pela cultura de qualidade, mas prefere exaltar o "tchan", o "créu", o "rebolation", o tecnobrega e afins?

É o ódio de ver envelhecer a geração emepebista dos anos 60/70 sem que ela tenha provocado uma revolução sócio-cultural para o país. É certo que a MPB passou por uma fase de crise no final dos anos 70 até o fim da década seguinte, e que a geração atual de críticos musicais, blogueiros e cientistas sociais passou as décadas setentista e oitentista vendo Cassino do Chacrinha, ouvindo Rock Brasil etc.

Mas será justo um rancor dessa espécie, acusando os talentos emepebistas de 1965-1974 de terem rompido o diálogo com o povo? Na verdade, se Chico Buarque, Milton Nascimento, Djavan, Diana Pequeno, Nara Leão, Taiguara, Sidney Miller e Elis Regina, por exemplo, pareciam não dialogar mais com o povo, é porque o país vivia sob intensa censura e dura repressão, esses artistas tiveram, a contragosto mesmo, de adotar uma poética que o povo pobre não conseguia compreender.

Mas daí a manipular a história cultural do nosso país feito uma massinha de modelar e dizer que os ídolos bregas eram os "verdadeiros subversivos" é cometer uma grande insensatez. Até porque os ídolos bregas, quando no tempo da Era Médici e, depois, da Era Geisel, sempre se sentiram felizes com o cenário político em que viviam. Bem mais do que os cantores da "MPBzona" que falavam de um Brasil de esperança, de um anunciado futuro que se tornou presente mas que parecia incerto então.

Podemos resumir a atual ojeriza da intelectualidade em relação à MPB autêntica através dos seguintes motivos que provocaram essas reações absurdas:

1. A ditadura separou a MPB autêntica do grande público, e a redemocratização não teve condições de reaproximá-los.

2. A indústria fonográfica tentou deturpar a MPB autêntica, através de regras mercadológicas que os artistas teriam que seguir para continuar na mídia;

3. Insatisfeitos com as pressões das gravadoras, os artistas recentemente deixaram as grandes gravadoras, num êxodo mercadológico que praticamente deixou a indústria fonográfica sem seus grandes nomes da MPB.

Ou seja, a MPB autêntica sofre as restrições da ditadura e do mercado fonográfico, é obrigada a não falar mais para o grande público senão de maneira diluída e deturpada, e, quando não quis mais se subordinar a isso, deixou as grandes gravadoras, que hoje trabalham numa pseudo-MPB de medalhões da "música sertaneja", do "pagode romântico" e da axé-music que hoje estão no mainstream da grande mídia.

Só que a intelectualidade etnocêntrica chama a MPB autêntica de covarde, de careta, de ultrapassada. A MPB não teve oportunidade de se renovar e reestabelecer o diálogo com o povo e sua cultura regional, como havia no pré-1964.

O povo passou a ser manipulado pelo latifúndio (que depois patrocinou a ditadura militar), e perdeu a cultura regional que tinha em troca da esquizofrenia do brega-popularesco.

No entanto, a MPB foi vista como um trabalhador que é obrigado a sair da cidade interiorana onde vive e, quando retorna, é hostilizado pela população. Enquanto a farsa do brega-popularesco se multiplicou em tendências pseudo-populares que até a intelectualidade defende.

Num país cujo pouco hábito de leitura, os textos favoráveis ao brega-popularesco - como os de Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo, por exemplo - , mesmo confusos e cheios de contradições, são aplaudidos diante da leitura superficial de sua plateia bem (des)informada. E, como também é pouco o hábito de ouvir música com atenção, certamente muitas barbaridades como o "funk carioca" e o tecnobrega conseguem enganar a multidão com o falso rótulo de "vanguarda".

O resto é a "MPBzona" que paga a conta.

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