quinta-feira, 2 de setembro de 2010

MÍDIA DE ESQUERDA DEVERIA ROMPER COM O BREGA-POPULARESCO


JOSÉ SERRA E A MÚSICA BREGA-POPULARESCA - Unidos durante a Era FHC, sentem dificuldade de, separados, manterem o sucesso "unânime" dos anos 90.

Não adianta escapar. A música brega-popularesca, a suposta "música popular" que domina as rádios e a TV aberta, é historicamente ligada ao contexto político, econômico e midiático conservador, de direita.

É inútil tentar uma associação dessa "música popular" para a esquerda, a pretexto da (superada) origem pobre de seus ídolos ou do público de baixo poder aquisitivo, porque essa música carrega toda uma ideologia baseada na domesticação das classes populares, evitando assim inquietações sociais que ameaçariam os privilégios das elites.



Está havendo, nos bastidores, um grande mal-estar, uma vez que certos intelectuais ditos esquerdistas, como cientistas sociais, jornalistas e blogueiros, que tentam defender o brega-popularesco dentro de uma abordagem supostamente esquerdista, estão sendo desmascarados no seu etnocentrismo.

Todos tentando desmentir o que se confirmou a olhos vistos: que essa suposta música popular empurrada pelo mercado teve seu sucesso condicionado pelo poderio da grande mídia e das oligarquias regionais e nacionais que controlaram esse país desde a ditadura militar, ou antes, no caso dos latifundiários e dos barões da grande mídia.

Toda essa suposta "música popular", que bate cartão de ponto no Domingão do Faustão e lota plateias de micaretas, vaquejadas, "bailes funk" etc, nada tem a ver com a luta das classes populares. Há um grande contraste entre os favelados que vão para as rodovias protestar contra seus infortúnios e as turmas de jovens que vão apenas para o clube suburbano mais próximo ver o ídolo ou o modismo popularesco do momento.

Através dessa pseudo-cultura, que além da música brega-popularesca envolve valores que transformam as classes pobres numa massa ao mesmo tempo submissa, ingênua e domesticada, as oligarquias e o baronato da grande mídia reafirmam seu poderio, no ramo do entretenimento, pois há quem lucre por trás dessa suposta "música popular", e não são os pobres consumidores da periferia.

Como é que a esquerda pode acolher intelectuais cuja visão de música popular compartilha da mesma miopia que vemos na Rede Globo, seja no Domingão do Faustão, no Criança Esperança, nos programas da Xuxa e no Caldeirão do Huck? Que moral tem essa intelectualidade em escrever, a pretexto de abordagem esquerdista, os mesmos pontos de vista defendidos pelas corporações dos Marinho, Civita e Frias?

Não adianta escapar, tentando aludir a presença de grupos de "funk", forró-calcinha, tecnobrega e congêneres na grande mídia como um hipotético plano de destruição da grande mídia, até porque está mais do que evidente que tais ídolos desses estilos estão muito bem felizes e à vontade nos palcos e nas páginas da grande mídia golpista. Felizes demais para que algum lunático suponha um plano secreto de destruição da grande mídia, com ramificações em Havana, Caracas, La Paz e Quito.

É preciso que a imprensa esquerdista, se não quer ser criticada por acolher uma abordagem etnocêntrica e mercantilista da cultura popular, estabeleça uma ruptura com o brega-popularesco, que já tem TODO o espaço na grande mídia, seja ela de caráter nacional, seja ela de caráter regional.

É preciso que a imprensa esquerdista mire nos exemplos de Dioclécio Luz e Lúcio Flávio Pinto, que nunca creditariam o "créu" nem o "rebolation" como traduções festivas da Revolta de Canudos. Eles conseguem compreender que o Brasil teve uma música popular autêntica, produzida por gente das classes pobres, mas que tinha excelente qualidade. Infelizmente, essa música popular, que fez muito sucesso nos anos 40, não encontra equivalente na música "da periferia" de hoje, claramente estereotipada, sem qualidade musical nem valor artístico.

Chega de dependermos de uma intelectualidade etnocêntrica, que só olha a periferia de longe, pelos filtros da televisão aberta ou mesmo de parte da TV paga, que julga as classes populares com seu gentil preconceito paternalista, que desconhece que a verdadeira cultura é passada de comunidade para comunidade, e não das rádios oligárquicas para o povo. E que a verdadeira cultura popular não produz "só sucesso", mas produz conhecimentos e valores sociais.

Conhecimentos e valores sociais é algo que não se observa de forma alguma nos sucessos da música brega-popularesca. Assim como movimentos sociais não se caraterizam nesse consumo consentido com o que as rádios e a TV aberta empurram como "sucessos do povão". É bom a mídia esquerdista saber muito bem disso.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Acredito que lhe falta coragem para fazer o que eu já fiz há muito tempo: romper com a mídia de esquerda e com a esquerda como um todo. Já que eles também fazem o jogo da direita e do popularesco, eles que se lasquem, também.