segunda-feira, 13 de setembro de 2010

LE MONDE DIPLOMATIQUE: ENTREVISTA SOBRE TECNOBREGA É CHEIA DE CLICHÊS



Mariana Fonseca, editora-assistente da edição brasileira do Le Monde Diplomatique, começou mal a reportagem-entrevista sobre o tecnobrega. "Sem o auxílio da mídia tradicional...", disse ela, totalmente desinformada com as recentes aparições dos ídolos do tecnobrega na mídia golpista, seja na Folha de São Paulo, na revista Época e, principalmente, a Rede Globo de Televisão, através da Ana Maria Braga, do aval de William Waack por intermédio de Nelson Motta (que é sócio de carteirinha do Instituto Millenium) e, acima de tudo e antes de mais nada, o olimpo brega-tucano do Domingão do Faustão.

A reportagem-entrevista tem como entrevistado o escritor Ronaldo Lemos, co-autor, com Oona Castro, do tendencioso livro Tecnobrega: O Pará Reinventando o Negócio da Música. E, certamente, a reportagem mais parece um press-release do livro do que uma entrevista séria de um periódico de esquerda, cuja matriz francesa é famosa por contestar duramente os "cães de guarda" do neoliberalismo francês, a grande imprensa da França.

Ronaldo Lemos é diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro e diretor do Creative Commons Brasil. É formado pela USP em licenciatura e doutorado, mas o mestrado foi feito em Harvard. É um bom currículo, mas José Serra também tem um bom currículo.

Não é preciso dizer que a entrevista não trouxe novidade alguma, e que é totalmente cheia de clichês e dados (des)informativos. A saber os principais deles:

1. O tecnobrega é contraditoriamente creditado como um fenômeno "sem acesso na mídia" mas que é o mais popular do país. Ronaldo Lemos faz até gracinha, dizendo algo como "Vocês (a mídia) não sabem, mas a maioria toda conhece o tecnobrega".

2. O tecnobrega fez seu estrondoso sucesso por todo o país apenas pelo "modesto" esquema de divulgação pelas chamadas redes sociais (Twitter, YouTube, Orkut).

3. O autor cita o nome de Hermano Vianna, para reforçar a tese do suposto enfraquecimento dos "grandes centros" (ou seja, a parcela da grande mídia que tem escritório na Avenida Paulista).

4. O autor cita a expressão "preconceito", palavrinha mágica para os oportunistas que querem defender o brega-popularesco.

5. O autor menciona com certo ar de desprezo os tais "árbitros do bom-gosto", e tenta argumentar que o povo ignora a má qualidade de "sua" música (como o tecnobrega e outros estilos que o autor cita, como o forró-eletrônico, também conhecido por nós como forró-brega, oxente-music e forró-calcinha).

6. Ronaldo Lemos disse que a tecnologia mudou a música brasileira, só para justificar a hegemonia brega-popularesca de hoje. Ele esqueceu-se de dizer que o marketing também. E que sua visão está em perfeita consonância com as análises de "gurus" dos "novos tempos" como Francis Fukuyama, Jack Welch, Steve Jobs e Rupert Murdoch.

Elementar, meus caros leitores deste blog!! Se o povo ignora a má qualidade da música brega-popularesca, é porque passou por décadas de domesticação midiática. Ora, é como um cachorro que não se interessa em analisar o padrão de vida em que vive.

É evidente que essa construção discursiva - não estou sendo muito semiótico, né, pessoal? - cria um mundo maravilhoso, cheio de sonho e fantasia. É lindo, a juventude da periferia vai para os clubes noturnos do subúrbio, feito criancinhas indo à Disney. A cultura brasileira se "disneyficou", e quem paga o pato são as future girls que por mera coincidência atuam nas comédias do canal Disney, mas certamente possuem informação musical bem melhor que os ídolos do espetacular (no sentido Guy Debord-Jean Baudrillard do termo) tecnobrega.

O tecnobrega não fez sucesso porque foi difundido pelas redes sociais. Por maiores que elas sejam, elas não têm força suficiente para produzir um sucesso estrondoso de caráter nacional. Quem produz esse sucesso é a grande mídia. E, enquanto os defensores do tecnobrega insistem na lorota de que o estilo não tem acesso na grande mídia, o maior veículo de imprensa do Pará, O Liberal, deu um aval mais do que entusiasmado ao estilo.

O próprio Estado do Pará possui emissoras de rádio FM, controladas por grupos oligárquicos locais, que difundem em larga escala os ídolos do tecnobrega. Portanto, o mito de que o tecnobrega não tem acesso na grande mídia não tem fundamento sequer no seu próprio lugar de origem, porque a mídia gorda dá aval para o tecnobrega, sim!

E o que dizer do Domingão do Faustão? Será que os intelectuais etnocêntricos ainda imaginam que Fausto Silva é ainda um figurão cult da mídia de vanguarda paulista? Ora, ora, Fausto Silva deixou de ser cult há muito tempo, deixou de sê-lo antes até mesmo do jornalista e artista performático Pedro Bial, de Regina Casé, Patrícia Pillar e Casseta & Planeta, todos hoje bem acomodados no neoliberalismo sócio-cultural brasileiro. Fala-se muito dos antigos cepecistas Arnaldo Jabor e Ferreira Gullar terem se convertido para a direita, como o ex-guerrilheiro Fernando Gabeira, mas a patota acima também participa do banquete da grande mídia.

Além disso, o que dizer das "aparelhagens", que na prática se constituem numa elite que investe no tecnobrega? Que eles são pobres-pobres-pobres, de marré-de-si? Ora, se o tecnobrega junta alta tecnologia (a reportagem admite isso e a compara com os equipamentos usados pela equipe técnica de Ivete Sangalo) e superprodução dos seus espetáculos, como é que seus responsáveis podem ser equiparados, por exemplo, aos agricultores sem-terra? Nada a ver!

O tecnobrega, como diz a reportagem-entrevista, movimenta mais de R$ 3,3 milhões por mês. E já tem um tempo que o tecnobrega faz esse sucesso comercial. Mas é claro que a patota vai preferir acreditar que o tecnobrega é pobrinho, coitado, e que esses mais de três milhões são esmolinhas.

Quer dizer, isso se converte em quase R$ 40 milhões ao ano, uma grande fortuna. Um poder oligárquico se faz justamente a partir de valores assim. Deixemos de ser tolos, abramos mão do "comunismo papai-noel" e vejamos as coisas da forma mais crítica possível.

É por isso que a mídia golpista anda gracejando da ingenuidade do público esquerdista e do oportunismo dos intelectuais etnocêntricos, que veem a periferia sob os olhos filtrados pelas parabólicas, enquanto o escriba aqui já percorreu muitos bairros populares de Salvador, Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Nova Iguaçu e Mesquita.

Os intelectuais etnocêntricos - dos quais Ronaldo Lemos também se enquadra - , que acham a pobreza tão linda, menosprezando os reais dramas do povo pobre, vivem com as mentes em Londres e Nova York, e pensam a periferia brasileira como se fossem guetos fashion britânicos e estadunidenses traduzidos para nossa realidade.

Mas para uma plateia que sabe menos ainda, esses intelectuais são as maiores autoridades em cultura popular no nosso país. Em terra de cego, quem tem um olho míope é rei.

PARA QUEM TEM PACIÊNCIA: Parte da entrevista é reproduzida neste endereço:
http://diplomatique.uol.com.br/print.php?tipo=ar&id=782&PHPSESSID=bba25c7eb17ed17b7dafe5e535b454b4

CUIDADO!! O artigo deve ser lido com o desconfiômetro ligado. A entrevista é pouco recomendável para mentes acomodadas e acríticas.

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