quarta-feira, 8 de setembro de 2010

JOVEM GUARDA: GRAVAÇÕES ORIGINAIS SÃO ESQUECIDAS DO GRANDE PÚBLICO


EDUARDO ARAÚJO - Antiga gravação é resgatada como tema de seriado da Rede Globo.

Atualmente, está no ar o seriado Separação?!, da Rede Globo, criação do casal Fernanda Young e Alexandre Machado. Prestes a encerrar sua primeira temporada, o seriado escolheu como tema uma antiga gravação de "Pode Vir Quente que Eu Estou Fervendo", sucesso da Jovem Guarda, na voz de um de seus autores, Eduardo Araújo (que fez a música com Carlos Imperial, para quem não sabe uma espécie de Carlos Eduardo Miranda dos anos 60). A gravação, se não me falha a memória, é de 1965.

É algo estranho que acontece com um fenômeno que até mantém-se relativamente forte na lembrança das pessoas e consegue ser apreciado até mesmo por gerações mais jovens, mesmo aqueles que nasceram quando os antigos cantores jovens já estavam na casa dos quarenta.

A Jovem Guarda é muito lembrada, mas as gravações originais são praticamente esquecidas, prevalecendo as regravações que sucessivamente aconteceram ao longo do tempo, seja pelos próprios intérpretes, seja por outros dos mais diversos estilos. São poucas as gravações originais de seus sucessos que são relembradas pelo grande público e difundidas pela mídia, e nem mesmo todas as músicas de Roberto Carlos são relembradas nas versões originais. Sobretudo o lendário álbum Louco Por Você (1961), renegado pelo cantor por ser supostamente um subproduto dos projetos artísticos de Carlos Imperial.

É verdade que a Jovem Guarda não foi um fenômeno artisticamente revolucionário. Seu maior mérito é modernizar a cultura jovem brasileira, mostrar elementos ligados à jovialidade e descontração, além de mostrar, mesmo de forma tímida e frouxa, a cultura rock para o país. Frouxa, porque não discernia o rock original de nomes como Elvis Presley, Bill Haley e, mais tarde, os Beatles, de canastrões como Bobby Darin e Pat Boone ou do ingênuo pop juvenil italiano, forte influência da JG devido à grande ascendência italiana da juventude urbana paulista e pelo efeito do sucesso do filme Candelabro Italiano, de 1962.

Como todo fenômeno, a Jovem Guarda teve seu antes e seu depois. Sua origem foi da cena jovem brasileira, a partir de 1958, quando jovens cantores como os irmãos Cely e Tony Campello faziam suas primeiras apresentações e seus primeiros discos. Essa fase durou até 1963, quando os maiores ídolos jovens eram Cely Campello, Sérgio Murilo e Ronnie Cord. Tínhamos até um conjunto que estava sintonizado com a onda da instrumental guitar muito em evidência na época, que foram The Jordans.

A Jovem Guarda ganhou seu nome em 1964 por conta de uma tirada de Carlito Maia, publicitário da Magaldi, Maia & Prosperi, baseada numa frase de Vladimir Ulianov, o célebre Lenin da Revolução Russa de 1917: "O futuro pertence à jovem guarda porque a velha está ultrapassada".

Não vou aqui dizer toda a história da JG, mas sabemos que Roberto Carlos se tornou seu ídolo maior, tornando-se o mais famoso de seus integrantes. Seu amigo Erasmo Carlos também é outro dos principais nomes, junto a Wanderléia. Mas outros nomes tornaram-se conhecidos, entre conjuntos e cantores.

Eduardo Araújo é um deles. Namorado e depois esposo de outra cantora da JG, Silvinha Araújo (já falecida), tornou-se famoso por músicas como "O Bom" ("Meu carro é vermelho / Não uso espelho pra me pentear") e "Pode Vir Quente que Eu Estou Fervendo".

O pouco conhecimento que o grande público tem do acervo original da Jovem Guarda é de certa forma preocupante. Não tanto pelo fato da Jovem Guarda ser musicalmente genial, mas num certo sentido suas músicas eram divertidas e empolgantes. Várias delas eram até boas, e seus intérpretes de fato tinham uma natural empatia com o público juvenil.

É uma questão puramente de honestidade. Afinal, se a Jovem Guarda teve seu valor, por que seu legado tem que ser ofuscado por regravações sucessivas ou até mesmo por versões "banquinho-e-violão" feitas por ídolos da MPB pós-1988? Não seria bom se a JG fosse relembrada pelos jovens através de suas gravações originais?

O repertório originalmente gravado pelos artistas da Jovem Guarda têm, de certa forma, seu sentido histórico. São, de certa forma, o retrato de uma época. Além disso, o melhor seria se o público jovem de hoje se lembrasse muito mais dos precursores do movimento, como Sérgio Murilo e Cely Campello, do que de retardatários como Odair José, Paulo Sérgio e Diana.

A pré-Jovem Guarda é muito mais instigante, mesmo dentro de seu contexto de temas inocentes e postura despolitizada e não-engajada, do que a pós-Jovem Guarda dos ídolos que integraram a segunda geração da música brega. Como toda tendência que mostra todo seu potencial no início. E que, no caso da Jovem Guarda, era um potencial que encontrou seu auge entre 1964 e 1968. O que aconteceu depois foi apenas sombra do que já foi.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Só da Jovem Guarda? Espere só o que pode acontecer com o rock oitentista, com essa história de trocarem suas gravações originais pelas regravações das bandinhas da trilha sonora de Malhação.