sábado, 18 de setembro de 2010

GOLPE DE 1964 ATINGE TARDIAMENTE A BUSOLOGIA CARIOCA



Resíduos da ditadura militar estão em toda parte. Isso é fato. Até hoje, as feridas que o Brasil sofreu durante o período militar (1964-1985) não foram em todo resolvidas, e, em certos casos, se agrava seriamente.

É notório, por exemplo, que existe uma postura golpista, defendida abertamente pela chamada mídia gorda (grupos Abril, Globo, Estadão e Folha), e de forma sutil pela mídia fofa (Bandeirantes, Isto É, Diários Associados). Mas mesmo o entretenimento brega-popularesco também têm sua facção golpista, com pessoas como Olavo Bruno, Francielly Siqueira, Eugênio Raggi e até vários "anônimos" ou "heterônimos" defendendo os "sucessos do povão" (na verdade claramente patrocinados pelos grandes donos do poder político e econômico) com unhas e dentes, como verdadeiros "cães de guarda" das oligarquias que dominam o país.

Mas o golpismo existe mesmo até na busologia, e poucos conhecem o lado sombrio, bastante sombrio, do transporte coletivo de Curitiba.

Para começar, o arquiteto Jaime Lerner se formou na mesma UFPR que teve como reitor o temível Flávio Suplicy de Lacerda, que foi ministro da Educação no governo de Castelo Branco e que manifestou seu desejo de privatizar o ensino superior, além de criar uma entidade estudantil que, substituindo a UNE, seria na verdade manobrada pela ditadura militar. A gestão do ministro Suplicy de Lacerda provocou a revolta estudantil, em episódios que hoje se tornaram históricos, entre 1966 e 1968.

Jaime Lerner era filiado à Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e foi prefeito "biônico" de Curitiba, quando implantou seu padrão de transporte coletivo que hoje o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, impõe à cidade. "Biônico" era o apelido do qual os políticos nomeados pelo regime militar eram conhecidos. Era um sarro com o seriado O Homem de Seis Milhões de Dólares, em exibição na TV nos anos 70, cujo enredo girava em torno de um homem-biônico.

O projeto de Lerner, com todas as alegações que os tecnocratas do transporte carioca hoje fazem - "limpeza visual", "mais disciplina (sic) no transporte", "organização por serviço de linhas" etc - , é, com surpreendente exatidão, a mais fiel tradução, aplicada ao sistema de ônibus, do projeto político, econômico e técnico da ditadura militar.

DIVERSIDADE VISUAL É DEMOCRACIA, ATÉ NA HORA DA ACUSAÇÃO GOLPISTA

Também a própria ditadura militar usava um discurso "bonito", "moralista". Assim como os tecnocratas do transporte coletivo acusam a diversidade visual dos ônibus de "poluição visual", os defensores da ditadura militar chamavam a democracia autêntica de "desordem".

É exatamente isso que você leu no parágrafo acima.

Da mesma forma que o livre direito do povo de se expressar, de ter uma visão independente mas sempre vinculada à sua experiência concreta do cotidiano, a seus problemas e desafios, é visto pelas elites golpistas como se fosse "baderna", "bagunça" e "desordem", as elites golpistas do transporte coletivo chamam o direito da livre concepção visual das empresas de ônibus, expressão de sua autonomia operacional, de "poluição visual".

Daí a "necessidade", defendida pelos tecnocratas do transporte coletivo, em botar verdadeiras FARDAS nos ônibus.

Isso irá confundir seriamente os passageiros, porque assim como diferentes empresas de ônibus passarão a ter a mesma estampa, uma mesma empresa de ônibus pode ter mais de um desenho. Sendo mais claro: a delimitação da pintura por áreas de bairros ou tipo de ônibus (como micros e articulados) fará com que diferentes empresas que atuem numa mesma zona com o mesmo tipo de ônibus tenham pintura igual, enquanto uma só empresa que opere com tipos de ônibus diferentes vai ter mais de uma pintura.

Voltaram os fantasmas da ditadura militar, aquele moralismo tecnocrata, confiante de uma "eficácia absoluta" e de um "rigor administrativo" que, na realidade, são impraticáveis, tanto que o próprio modelo de transporte adotado por Jaime Lerner sofre um terrível desgaste na sua cidade de origem, o que anda tirando o sono das autoridades e tecnocratas paranaenses, que têm que esconder a sujeira debaixo do tapete enquanto mostram um "transporte de conto de fábulas" nos eventos internacionais e nacionais sobre transporte coletivo.

A tecnocracia sempre aposta numa falsa democracia, numa "democracia de gabinete", em que pretensos especialistas julgam a "vontade popular" no isolamento das quatro paredes de seus escritórios. Isso não vale somente para José Serra, o derrotado da hora, mas também para Jaime Lerner e Pedro Alexandre Sanches, que veem o interesse público olhando para seus umbigos. Por enquanto eles são vistos como "deuses" pela plateia deslumbrada, como o próprio Serra foi endeusado durante anos, desde os primeiros tempos da anistia até o decorrer da redemocratização.

Mas muita coisa ainda vai ocorrer para que essa "democracia de gabinete" mostre seu sentido verdadeiro, anti-popular, de arquitetos, sociólogos, antropólogos sem vivência social concreta. Afinal, julgar o povo através das quatro paredes dos escritórios mostrará seus novos equívocos.

Afinal, foi derrubada a "democracia de caserna" dos generais do regime militar, e agora começa a cair a "democracia de escritório" do PSDB e da mídia associada, e daqui a pouco a "democracia de gabinete" de arquitetos urbanos, sociólogos e antropólogos etnocêntricos e críticos musicais que vivem no mundo da Lua (ou de Londres e Nova York), que só veem o povo de longe, vai ruir.

O padrão "curitibano" de transporte coletivo ainda vai experimentar muitos desastres. Infelizmente é preciso que tais erros aconteçam. Dificilmente esse padrão prevalecerá por mais de 10 anos. Em 2016, o modelo de transporte baseado na concentração de poder das Secretarias de Transporte, na padronização visual e na ditadura dos "consórcios", estará em frangalhos.

3 comentários:

Marcelo Delfino disse...

Tá de sacanagem, Alexandre. Diários Associados não são mídia fofa aqui nem em lugar algum. Ainda mais usando a Infra Rádio Tupi do Rio de Janeiro para apoiar esses políticos do PMDB que tanto criticamos.

Favor colocar os Associados no grupo da mídia gorda. Junto com Globo, Folha, Estadão e Abril.

O Kylocyclo disse...

Marcelo, mídia fofa não quer dizer mídia menos reacionária. Ás vezes, ela pode ser até mais traiçoeira ainda. Durante anos a Folha de São Paulo foi mídia fofa, e isso depois do seu passado sombrio de colaborar com órgãos de repressão.

A Rádio Metrópole, em Salvador, já deu seus surtos reacionários e é considerado "mídia fofa". Isso porque o termo "mídia fofa" se refere não a uma mídia mais cordial, mas uma mídia que é poupada da maioria das críticas pesadas de boa parte de blogueiros e críticos da mídia.

Chamo a mídia fofa de mídia gordinha, também. E, no fundo, a mídia fofa com o tempo ganha peso e vira gordona quando as circunstâncias permitirem. Por isso, Marcelo, você pode entender a mídia fofa como uma mídia gorda apenas quieta, feito fera em tocaia.

Marcelo Delfino disse...

Valeu, Alexandre. Considerarei mídia fofa como uma mídia gorda mais sutil.