segunda-feira, 13 de setembro de 2010

ESQUERDA E (CENTRO)DIREITA ERRAM NA ABORDAGEM DO BREGA-POPULARESCO


VIVIANE BATIDÃO E MIKE DO MOSQUEIRO - Mais espaço para o tecnobrega no templo lúdico da mídia golpista, o Domingão do Faustão da Rede Globo.

A esquerda brasileira erra ao exaltar a domesticação do povo pobre. A direita brasileira - e setores do centro mais alinhados a ela - erra ao querer se isolar do povo pobre. Mas ambos, de uma forma ou de outra, acabam condenando os movimentos sociais, o que é mal de ambos os lados.

De um lado, vemos uma esquerda brasileira "festiva", que acha que movimentos sociais só são bons quando feitos nos Andes, nos países bascos, nos guetos de Israel, nas praças de Caracas e Havana. Mas, no Brasil, acham que "movimentos sociais" são apenas a juventude pobre consumindo tendências do brega-popularesco, como a bola da vez, o tecnobrega, por vezes conhecido como tecnomelody.

De outro, vemos uma direita esnobe, medieval, e setores neutros que mais parecem preferir o discurso direitista. Pessoas que condenam o brega-popularesco, é verdade, mas condenam também os movimentos sociais, parecendo não aguentarem sequer ver os passarinhos montarem seus ninhos nas árvores, sob as bênçãos da Natureza, sem acusá-los de "aves petralhas, parasitas do BNDES".

Não se fala aqui de pessoas que realmente são de centro, como os cimistas, embora toda pessoa de centro, no contexto de hoje, encontre tentações e armadilhas que possam jogá-las para a direita, como a tentação de usar termos vejistas para criticar o esquerdismo no Brasil. Mas fala-se de setoresque se dizem de centro, mas que são inclinados naturalmente para o pensamento direitista.

Com esse abismo separando essas duas forças dominantes e influentes no país, que vivem uma Guerra Fria doméstica, ambos os lados erram, seja a esquerda afeita ao (discreto) fisiologismo, que a faz sucumbir aos cantos-de-sereia diversos, sejam os mensaleiros, os funqueiros e os tecnobregas, seja a direita e seu centro simpatizante, que as faz isolarem-se horrorizadas até do mais altruísta movimento social, a não ser as mesmíssimas manifestações alienadas e hipócritas dos grupos conservadores, mais afeitos a soluções fascistas de resolver os problemas sociais.

A "cultura" brega-popularesca consiste no processo de domesticação do povo pobre. Isso é evidente. Mas enquanto a direita subestima esse detalhe, a direita (e seus simpatizantes "independentes") superestima. Os primeiros jogam a sujeira jabazeira que envolve o brega-popularesco para debaixo do tapete. Os segundos sacodem esse tapete, sujam a casa toda e vão embora.

Por isso é que, enquanto as coisas no âmbito político parecem de fácil solução - como dar continuidade ao projeto político petista através de Dilma Rousseff, aparentemente invicta por causa das pesquisas de intenções de voto - , o âmbito cultural, no Brasil, parece estar numa situação bastante delicada.

A MPB autêntica resiste. Egberto Gismonti é aplaudido entusiasmadamente pelo povo, um aplauso que nenhum ídolo tecnobrega consegue arrancar. Djavan e Milton Nascimento produzem novos trabalhos. A música caipira de verdade tenta respirar sob o silêncio da grande mídia e seu "sertanejo" de araque. Músicos baianos que não compactuam com a axé-music (nem com o "pagodão" e o arrocha, subprodutos do mercado axezeiro-carlista) tentam sobreviver artisticamente, sem apoio da mídia. E, pelo jeito, mal conseguem ter o apoio de uma mídia esquerdista iludida com o mesmo tecnobrega que aparece fácil no Domingão do Faustão, transmitido pela maior das corporações da mídia golpista.

A esquerda e a (centro) direita acabam agindo de forma diferente pelo mesmo objetivo, desprezar o drama das classes populares, seja pelo populismo grotesco defendido pelos esquerdistas, seja pelo elitismo niilista com que reagem os direitistas (e seus discípulos ideologicamente "neutros").

Uns e outros acabam travando o verdadeiro desenvolvimento social do Brasil, e em nada resolvem para que o povo brasileiro supere de seu carma cafona, de sua eterna mediocridade, de sua inferioridade sócio-cultural. Agem contra o verdadeiro progresso social de nosso país. Agem de forma vergonhosa, com seus preconceitos igualmente elitistas. Cegos na sua visão de sociedade, surdos aos alertas sobre o perigo de seus equívocos e mudos na omissão de justificar suas posições equivocadas.

Por isso mesmo, enquanto esquerdistas se iludem com o Cavalo de Tróia do brega-popularesco, e enquanto direitistas declaram em tom esnobe sua ojeriza generalizada aos movimentos sociais, enquanto temos que suportar esse maniqueísmo tolo entre a credulidade mais ingênua e o ceticismo mais niilista, o povo brasileiro sofre com a miséria, com a violência e ainda é domesticado e manobrado por um padrão de "cultura" e entretenimento desenvolvido pelas oligarquias da mídia e do espetáculo, e tomada como se fosse "cultura do próprio povo".

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