quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A DOMESTICAÇÃO DO POVO BRASILEIRO


CENTRAL DA PERIFERIA - Glamurização da miséria como pretensa vanguarda cultural.

A mídia esquerdista canta, de forma precipitada, a vitória do petismo há um mês das eleições. Acha que José Serra, por estar em crise, está definitivamente derrotado. Confundindo leão ferido com cachorro morto, os blogueiros esquerdistas em geral preferem fazer a festa primeiro do que esperar a ocasião certa. Não venceram o campeonato, mas já cantam vitória, correndo o risco de gastar todo o seu estoque de fogos de artifício.

Outro erro seu é que, enquanto conseguem identificar as manobras do direitismo no âmbito político - mesmo no campo da crítica midiática, não escapa a essa abordagem - , deixam de identificar as mesmas manobras no âmbito cultural, o que é muito grave. As tramas políticas passam, sem deixar marcas na posteridade. Mas as artimanhas culturais, mesmo quando seus personagens passam, deixam marcas profundas nas gerações posteriores, provocando estragos irreparáveis.

Foi assim com a ideologia brega. Surgida dos redutos latifundiários do Nordeste, no final dos anos 50, sem o nome "brega" (que apareceu em 1972) e "cafona" (difundido por Carlos Imperial em 1962), a dita cultura brega cresceu durante a ditadura militar porque apostava num ideal de povo brasileiro que atendia aos interesses das oligarquias dominantes. Um povo condenado ao subemprego (inclui da prostituição ao comércio clandestino), às residências degradadas, ao alcoolismo e à subordinação sócio-econômica (mesmo quando aparentemente emancipado, às custas de loterias legais ou ilícitas, ou a artifícios como o crediário), mas induzido a se comportar com uma alegria quase debilóide, um comportamento popular condicionado pela grande mídia e que pretende transformar as classes populares em verdadeiras caricaturas de si mesmas.

A domesticação do povo brasileiro é algo que a mídia esquerdista não vê. Os jornalistas ignoram a necessidade de investigar esse processo, se limitando a ver que o povo, comportando-se feito uns patetas resignados, é assim tão lindo. Os cientistas sociais também não questionam, antes reforçam seus preconceitos em relação ao povo, muitas vezes cometendo julgamentos de valor que criam até mesmo um "preconceito às avessas", ou seja, quando essa intelectualidade enxerga uma "sabedoria" onde não existe.

Isso ocorre, por exemplo, no caso do tecnobrega, cujos intérpretes e público não têm ideia de quem foi Oswald de Andrade e por isso desconhecem a tal "antropofagia" que Pedro Alexandre Sanches, tão etnocentricamente (pura visão de paulistano zona sul que trabalha na imprensa e visitou Londres um dia na vida), atribuiu ao ritmo brega-popularesco do Pará.

A formação conservadora de muitos desses esquerdistas é denunciada no seu próprio etnocentrismo. Afinal, o comportamento popular lembra a ideia de pureza difundida pelas antigas gerações moralistas, lembrando a coerção religiosa que transforma as pessoas sofridas em criancinhas ingênuas.

Esta formação obtida na tenra infância faz com que muitos jornalistas e cientistas sociais de esquerda na verdade exponham seus preconceitos direitistas - afinal, sua pedagogia cultural remete à Rede Globo, O Globo e Estadão na ditadura militar e Folha nos primeiros tempos de redemocratização - em relação ao povo, sem que tenham real consciência do que fazem. Ou talvez tenham, mas não queiram assumir em público.

O que dizer que o discurso que Pedro Alexandre Sanches, Hermano Vianna, Rodrigo Faour e Bia Abramo fazem sobre a hegemonia da cafonice é exatamente o mesmo discurso que se vê em programas da Rede Globo como Fantástico e Domingão do Faustão? O próprio Hermano produziu a Central da Periferia que tentou converter a já avançada domesticação do povo pobre (que resulta na glamurização da miséria e na promoção de um conformismo social dos pobres que garante a "paz social" das elites) em "cultura de vanguarda", mas com a péssima repercussão do programa, sua abordagem foi herdada integralmente pela coluna Paçoca, de Caros Amigos, através de outro figurão da intelligentzia brasileira, Pedro Alexandre Sanches.

Aí há um grande erro. A repercussão negativa de Central da Periferia, para a intelectualidade viciada, acabou sendo menos pelo fato do programa promover a glamurização da miséria e reciclar o processo de domesticação do povo pobre num contexto de "cultura de vanguarda" e mais pelo fato de ter sido transmitido pela Rede Globo, símbolo do corporativismo da grande mídia.

Tanto que a coluna Paçoca de Pedro Alexandre Sanches faz exatamente a mesma coisa que Central da Periferia e, no entanto, é protegido pelo fato de ser publicada pela revista Caros Amigos. Só que aí o corporativismo, no lado da esquerda, acontece.

Todos se calam às críticas ao fato de Caros Amigos acolherem um sujeito oriundo da Folha de São Paulo, educado nas redações do "doutor" Frias, comprometido a promover uma visão etnocêntrica da cultura popular, claramente transmitida sob o ponto de vista de um paulista que, por estar por dentro da cultura pop internacional, acha que pode fazer o mesmo com a cultura da periferia.

Mas ninguém percebe o perigo de seu julgamento etnocêntrico - afinal, Pedro Sanches também conta com sua "plateia" animada, e até blogueiros como Patolino e Sakamoto seguem sua orientação etnocêntrica - , que comunha com os mesmos interesses da grande mídia na domesticação cultural do povo, num claro e gritante contraste com a espontaneidade dos movimentos sociais.

Afinal, vamos bater na mesma tecla, para fixar. Há uma grande diferença entre a iniciativa do povo em formar cooperativas, em fazer passeatas, em reivindicar seus direitos, e um bando de jovens que vai, feito criancinhas na Disneylândia, para as casas noturnas suburbanas consumir o som popularesco da moda.

Mas uma e outra coisas são confundidas sem necessidade. Ou são tendenciosamente vinculadas, quando suas diferenças de sentido não conseguem mais ser dissimuladas.

O grande perigo dessa manobra é que, de repente, Pedro Alexandre Sanches, num discurso bem sutil, venha relançar o É O Tchan como se fosse um "caleidoscópio multimídia pós-moderno", e que, tal qual um grupo de comediantes que, quando executa uma receita culinária, coloca até pneu de caminhão e galinha viva dentro da panela, Pedro venha a inserir comparações insólitas do horrendo grupo popularesco a Sérgio Ricardo (pela vaia) e Velvet Underground, ou comparações verossímeis a Caetano Veloso e Erlon Chaves (cuja performance de "Eu Quero Mocotó" poderia ser usada leviana e tendenciosamente para temperar a suposta validade do fenômeno É O Tchan).

A CULTURA PENSADA POR PEDRO ALEXANDRE SANCHES EQUIVALE EXATAMENTE AO BRASIL PENSADO POR JOSÉ SERRA

É um exemplo de como pode o maquiavélico discurso da intelectualidade etnocêntrica que comanda o país. E que nasceu no mesmo meio intelectual que José Serra, Fernando Henrique Cardoso e os jornalistas Otávio Frias Filho e Gilberto Dimenstein, que é a intelectualidade neoliberal da USP. Não há diferença alguma entre a cultura popular pensada por Pedro Alexandre Sanches e o projeto de país pensado por José Serra. Sendo mais exato, a cultura pensada por Sanches é parte integrante do Brasil pensado por Serra.

O vínculo da intelectualidade pró-brega com a intelectualidade neoliberal demotucana é proporcional ao vínculo que, há quase 50 anos atrás, teve o Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes com a intelectualidade nacionalista do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros), de figuras como Roland Corbisier, Hélio Jaguaribe e Nelson Werneck Sodré.

Enquanto o ISEB analisava a sociedade brasileira priorizando o âmbito sócio-econômico, mas sem menosprezar o cultural, os CPC's da UNE reforçavam este aspecto, levando-o como prioridade. Ambos discutiam a sobrevida da identidade nacional, promovendo um debate público que foi ridicularizado pela direita da época (o PiG dos anos 60, composto pelos pais e avós dos militantes do PiG atuais), que os acusou de sectaristas, panfletários e idealizadores da cultura popular. Mas o que se queria, na verdade, era levar o projeto isebiano e cepecista de país para o debate público, coisa que foi interrompida com o golpe de 1964, que mandou extinguir tais entidades.

Se antigos cepecistas como Arnaldo Jabor e Ferreira Gullar hoje estão vinculados ao PiG, o problema é deles. Mas não menos PiG é a atitude de Pedro Alexandre Sanches, que finge nunca ter bebido das fontes demotucanas de compreensão da cultura popular, que nos anos 90 se reunia nos pátios da USP ou nos botequins mais próximos para tentar passar a limpo o projeto de Brasil trabalhado por Fernando Collor de maneira caótica e pouco cautelosa, o que fez o Brasil collorido e popularesco (com seu breganejo, sambrega, lambada, "funk" e axé-music).

Por isso mesmo a domesticação do povo brasileiro, apesar de ter sido um processo claramente trabalhado na ditadura militar e nos governos democráticos pós-udenistas que o seguiram (Sarney, Collor e FHC, com um pequeno intervalo durante os anos de Itamar Franco), é vista como um tabu até mesmo pelos analistas de esquerda. Grande erro.

Pois não adiantará uma vitória de Dilma Rousseff, nem de Plínio, nem de qualquer outro esquerdista, diante de um cenário cultural de um povo domesticado, subordinado, sem identidade, caricato e estereotipado. O governo Lula começou como um novo governo Jango, mas encontrou um cenário cultural típico da Era Geisel. Culturamente falando, o Brasil continua com os mesmos fantasmas brega-popularescos surgidos em 1964. E que nada contribuem com a verdadeira cultura popular, nem mesmo se exibindo arrogantemente para as plateias do Madison Square Garden.

Um comentário:

Marcos Vinicius Gomes disse...

Esse fantasma brega me atormenta a mente há tempos. Já havia associado seu surgimento durante o regime militar, visto que não havia precedentes em nossa cultura midiática anteriormente à este período. Chacrinha, Flávio Cavalcanti e outros foram de certo modo os mesttres de cereimônia desta ideologia aperfeiçoada dia após dia. Vi uma reportagem da Carta Capital sobre Odair José, que fez shows com Caetano, numa época que fazer isso era assinar atestado de insanidade musical emepebista. Agora Odair é cultuado por Otos, Baleiros e até os chupetinhas eletrônicas do Pato Fu. Confuso, não. Este caos que vivemos pode ser atribuido por personagens da Folha, que numa pretensão de serem vanguardistas, exaltaram durante anos a cultura do auditório em suas análises televisivas e sociais. Lembro de um jornalista que louvava as transmissões do 'Fala que eu te escuto' com este papo de fim de monopólios e ineditismo de linguagens com pastores protestantes guiando as câmeras como âncoras da CNN. O fim só Deus sabe no que vai dar, há muito oba oba, Dilma é linda e etc. A tendência é piorar e num quadro surreal posso imaginal FHC sendo entrevistado no programa do Gugu analisando o dilema da falta de investimentos em habitação. ´E esperar para ver.