terça-feira, 14 de setembro de 2010

COMO SER UM INTELECTUAL ETNOCÊNTRICO



A intelectualidade elitista está cansada de ficar restrita em suas cátedras.

A intelectualidade paulisto-burguesa, com seus simpatizantes e adeptos também instalados na Cidade Maravilhosa, quer ser estrela pop.

Esses intelectuais cansaram de esperar por bolsas de pesquisa do governo.

Passaram a defender o brega-popularesco como fórmula fácil para agradarem a plateia.

Descobriram a máquina da fortuna ao defender as mesmas tendências da música comercial feita no Brasil em artigos verossímeis.

E o que é essa fórmula?

Ora, essa fórmula consiste em definir os "sucessos do povão" dentro de um delirante discurso rebuscado, confuso, complicado.

Num país onde até a classe média lê menos e quase ninguém ouve música com atenção, isso se torna maravilhoso.

Definir os glúteos das mulheres-frutas como "armas etnográfico-concretista-bolivarianas" do feminismo brazuca rende muitos aplausos por quem mal consegue ler uma lista de compras, quanto mais um blog feito por pessoas que podem ser patolinos ou sakamotos.

(Lembrando que "patolino" é uma espécie de "pato donald" metido a militante tropicalista e "sakamoto", no caso, é uma espécie de "fukuyama" disfarçado de estudioso modernista).

Escreve-se uma verdadeira gororoba de palavras. E o intelectual aparece como produtor da Globo, crítico da Folha, para depois, pelas portas dos fundos, se infiltrarem na mídia esquerdista para defender os mesmos valores lúdicos do PiG.

Arruma-se qualquer desculpa, dizendo que o PiG abraçou o brega-popularesco por "oportunismo", ou que os ídolos popularescos apenas estão "tirando proveito da grande mídia para expor sua mensagem", e outras alegações que só quem é muito ingênuo consegue acreditar. E o intelectual etnocêntrico, com sua formação neoliberal, passa a ser visto como "respeitável intelectual de esquerda", com o link de seu blog presente nos demais blogs esquerdistas, na boa-fé.

Mira-se nos programas humorísticos, nas paródias das receitas culinárias, onde até pneu de caminhão e urina de galinha são jogados na panela para fazer o suposto prato principal.

Escreve-se um monte de alegações neoliberais. "A MPB acabou, a cultura popular hoje mexe os glúteos sem medo", "Tio Sam entra na porta da frente, dorme no nosso quarto e mexe nos nossos talheres. Viva o novo Brasil sem medo do mundo!" e outras frases semelhantes são jogadas.

Fala-se que a MPB de Ataulfos e Dongas, Cornélios e Gonzagões, acabou para sempre. O "fim da história" chegou à MPB. Fukuyama tomou nossos pandeiros e violas.

Fala-se que agora a "MPB" (Música do PiG Brasileira) aderiu à tecnologia e à "atitude pop" (leia-se marketing).

A "criatividade" agora fica por conta de conjuntos com proprietários, que brincam de pop americano com um caricato sotaque regional malfeito com sorrisos patéticos.

Mas o intelectual tem que pincelar esse texto em defesa dessa "música brasileira", para disfarçar os (pre) conceitos neoliberais, com referências delirantes relacionadas a temas diversos como Modernismo, Socialismo e Informática. Do jornalismo, pega-se a narrativa do new journalism. Da História, pega-se a narrativa da História das Mentalidades.

Faz-se um engodo teórico com uma abordagem "positiva" dos modismos popularescos. Mistura-se ideias neoliberais com outras supostamente "esquerdistas".

Os "sucessos do povão" agora são atribuídos à divulgação "exclusiva" das redes sociais virtuais, como se a evidente divulgação das rádios FM e TV aberta não tivessem influência decisiva no negócio. Mas têm, e muito.

Afinal, a Internet não atingiu uma multidão suficiente para que Orkuts, Twitters, YouTubes decidam exclusivamente pelo sucesso de seus "astros". Não. Quem faz o "sucesso" é a TV aberta, é o Faustão.

Mas não importa a realidade. Os intelectuais escrevem suas besteiras e acabou. Fica mais confortável acreditar nos Hermano Vianna, Ronaldo Lemos, Pedro Alexandre Sanches, Milton Moura, Paulo César Araújo, Bia Abramo, Rodrigo Faour, Roberto Albergaria, do que acreditar na realidade que salta a olhos vistos.

Afinal, muitos desses (maus) leitores, despreparados para lerem criticamente os artigos confusos que encontram na ciberrede, preferem o sonho intelectualizado, a periferia maquiada pela estética de Walt Disney.

Preferem a cosmética da pobreza do que a realidade crítica do subdesenvolvimento. "Quem é Celso Furtado?", perguntam eles. "Sebastião Salgado? Acho que eu vi esse nome quando folheava a Bravo...", dirá talvez algum deles.

Afinal, só viram a periferia nos documentários da TV paga. E o único contato com os pobres é com suas empregadas domésticas, porteiros de prédio, faxineiros, lixeiros e os camelôs da 25 de Março.

Coitados, ainda sonham com Londres. Acham que os caras do "rebolation" são iguais à admirável turma do two-tone londrino.

A intelectualidade etnocêntrica, no entanto, escreve qualquer besteira e é transformada em totens.

Quantas mentiras Paulo César Araújo publicou. Ele gastou um capítulo inteiro para tentar nos convencer que o reaça, machista e direitista Waldick Soriano era um "subversivo", um "cantor de protesto", um "militante revolucionário". Assim até história de pescador parece realismo jornalístico.

Mas o povo endeusa Paulo César Araújo. Porque ele mostra o mundo do sonho, a periferia perfumada e maquiada, afinal certas pessoas ainda se inclinam à pieguice emocional, apesar de se acharem com os pés presos no chão.

Legal ver os pobres de boné de roupas de "suas próprias grifes", dançando o "rebolation" e indo que nem gado para os clubes suburbanos que tocam os "sucessos do povão".

Mas vai que ocorre uma chacina de Eldorado dos Carajás, o deslizamento do Morro do Bumba, mais uma seca no agreste nordestino e passeatas de moradores pobres pedindo passarelas nas rodovias, e o público que se deleita com as "paçocas" de Pedro Alexandre Sanches e companhia veem soar o alarme dondoco-moralista.

Sim. Aí esse pessoal, que nos acusa de moralistas-elitistas-saudosistas-etnocêntricos, fala mal do povo que protesta, do povo que sofre, do povo que reclama.

Aí entram os preconceitos escondidos por essa intelligentzia "sem preconceitos".

Para eles, povo bom é o que dança o "rebolation", que vai ao clube noturno assistir ao festival de tecnobrega, forró-brega, sambrega, "funk" etc.

Mas se o povo se recusa a fazer esse papel de verdadeiros bobos-da-corte da mídia do espetáculo, essa "sociedade bem informada" reage com horror.

Sim, os mesmos que se dizem esquerdistas e correm para o Encontro dos Blogueiros Progressistas para sentar na primeira fila, mas que escrevem nos seus blogs defendendo toda a cafonice que aparece no Domingão do Faustão, no Fantástico, na Ilustrada da Folha.

Gente que endeusa os intelectuais etnocêntricos, afinal é a plateia que garante o sucesso deles.

Essa é a realidade de uma intelectualidade que pensa que está pensando, quando na verdade apenas cria uma fantasia sobre o povo pobre, a partir da imagem domesticada que esse povo tem através da televisão.

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