domingo, 19 de setembro de 2010

BREGA-POPULARESCO, COM MEDO, NÃO ASSUME ASSOCIAÇÃO À GRANDE MÍDIA



Diante do "terremoto" de denúncias e escândalos envolvendo a grande mídia e os políticos conservadores, a música brega-popularesca e seus valores associados, há décadas patrocinado e apoiado pelas forças conservadoras e dominantes de nosso país, corre de medo diante dos efeitos devastadores diante desses escândalos.

Os empresários do espetáculo, no Brasil, deixaram de se concentrar no jabaculê radiofônico - também, a Aemização das FMs complicou o mercado musical de nosso país - e se concentram cada vez mais no jabaculê acadêmico. Financiam críticos musicais e cientistas sociais e especialistas em tecnologia (neste caso, Ronaldo Lemos da Fundação Getúlio Vargas) para escrever sobre brega-popularesco e jogam eles para escreverem nos periódicos de esquerda, na desesperada tentativa de dissociação da grande mídia que fez esse tipo de música aparecer e crescer.

Ameaçada de desaparecimento e sofrendo o natural desgaste semelhante ao que José Serra sofre nas pesquisas eleitorais, a música brega-popularesca tenta desde 2002 criar um discurso que tente disfarçar sua imagem evidente de música comercial, produzida tão somente para o entretenimento mais superficial e provisório.

A campanha já estamos "carecas" de saber. Ela se baseia na alegação de "preconceito" para tentar apagar a natural rejeição que a mediocridade cultural brasileira sofre das pessoas intelectualizadas. E a conversão de setores tendenciosos da intelectualidade - a intelectualidade etnocêntrica, que hoje quer ser a "juíza final" da cultura popular - à propaganda do brega-popularesco é o recurso que hoje está no auge, mas também já antevê seu declínio, vide as reclamações do público comum diante da adoração da intelligentzia à mediocridade cultural dominante no país.

Em primeira instância, a campanha pró-brega foi difundida por veículos como a Ilustrada da Folha de São Paulo, o Segundo Caderno de O Globo, a sessão cultural de Época e Isto É, os programas da Rede Globo, revistas como Quem Acontece e Caras e canais como o Multishow e GNT, da Globosat.

Mas, como a associação da grande mídia tornou-se visada, agora o brega-popularesco tenta se desvincular da grande mídia que o sustentou durante décadas. É como o filho bem nascido e bem criado pelos pais que hoje os renega, até com insistência.

Como se nós fôssemos tolos, os defensores do brega-popularesco agora tentam nos dizer que seus estilos não aparecem na mídia. O tecnobrega, por exemplo, todos nós sabemos que nada seria se não fossem as FMs de Belém do Pará controladas por grupos políticos dominantes. O festival de lorotas, no entanto, avança tão seriamente que já tem blogueiro esperto dizendo que existem "duplas sertanejas" (claro que ele fala de breganejo) que "estão fora da mídia". Isso é o mesmo que dizer que existe oceano sem água.

Tentam renegar o passado jabazeiro do brega-popularesco. Durante décadas, os ídolos bregas e neo-bregas seguiam felizes e conformados as regras do jabaculê radiofônico, envolvidos tranquilamente no propinoduto dos sucessos musicais. Mas hoje eles mesmos tentam dizer que nunca se envolveram com jabaculê e, se envolveram, foram obrigados a isso. Mas até Paulo Maluf e Joaquim Roriz negam que praticou corrupção.

A associação à grande mídia - reforçada sobretudo pela negativamente histórica farra de concessões de rádio por José Sarney e Antônio Carlos Magalhães - do brega-popularesco também é um fato neuroticamente desmentido pelos ídolos popularescos e por seus defensores, dos talifãs aos intelectuais etnocêntricos.

Tentam dizer apenas que "tiravam proveito" da grande mídia para divulgar sua "mensagem" para o grande público. Alguns intelectuais etnocêntricos, delirando nos seus argumentos de defesa ao brega-popularesco, chegam a dizer que os ídolos brega-popularescos estão "invadindo" a grande mídia para (supostamente) destrui-la. Essa intelectualidade ignora que os ídolos brega-popularescos aparecem felizes demais em programas como o Domingão do Faustão para executarem um suposto plano de destruição da grande mídia.

É compreensível que a esquerda no nosso país tem sua "banda podre". No âmbito político, há o apoio do PMDB e de partidos pequenos de aluguel (PP, PSC, PR) tradicionalmente associados ao direitismo mais cafajeste. Na Bahia, por exemplo, são os mesmos partidos que apoiaram historicamente o carlismo, tendo votado pelas mesmas causas parlamentares dos políticos demotucanos.

Na cultura, esse fisiologismo é também representado por empresários do espetáculo que tentam empurrar o que podem da música brega-popularesca - só não podendo fazer o mesmo com os cantores-medalhões do breganejo, sambrega e axé-music que ocupam o mainstream do establishment lúdico-midiático brasileiro - para o pretexto da anti-mídia.

A grande lição disso tudo é que a mediocridade cultural brasileira sabe que o buraco está mais embaixo e que, com a decadência da Era FHC, os grupos empresariais que financiam a música brega-popularesca perdem noites de sono tentando manter seus negócios. Temem perder dinheiro com o desgaste de um universo musical que há 46 anos movimenta um mercado milionário de entretenimento do povo pobre e que representa o mais eficaz recurso de controle social das massas populares.

Por isso mesmo é que, no país do chamado "jeitinho brasileiro", esse empresariado tenta financiar toda uma campanha discursiva e todo um lobby artístico-intelectual para o brega-popularesco. É uma campanha com o fôlego de um IPES-IBAD, de um Instituto Millenium, mas que tenta expandir seu tráfico de influência na mídia esquerdista. Mas, vendo que os direitistas históricos, como Collor, Sarney e Maluf, hoje se tornaram pretensos simpatizantes da esquerda, dá para perceber o nível da demagogia.

Só que o alarme do desconfiômetro soa sem parar, com seu barulho ensurdecedor que, no entanto, não chega na Casa Amarela e outros ambientes similares. Mas é um barulho que nunca para, na medida em que denuncia a semelhança entre as abordagens de defensores do brega-popularesco na Caros Amigos, Fórum, Carta Capital e até no Le Monde Diplomatique Brasil e o que é defendido sob o rótulo de "cultura popular" na Ilustrada da Folha de São Paulo e nos programas da Rede Globo.

Afinal, chama muito a atenção, de forma negativa, o fato de que a mídia esquerdista se opõe tão radicalmente à mídia dominante, a não ser na trilha sonora, onde a estranha afinidade causa estranheza a todos que tenham o mínimo de senso crítico possível.

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