sábado, 4 de setembro de 2010

ATÉ QUANDO SE DESPREZARÁ O CONTRASTE ENTRE BREGA-POPULARESCO E MOVIMENTOS SOCIAIS?



MÃES DE MAIO - Os movimentos sociais não dançam o "rebolation" nem o "funk", tecnobrega e similares.

Quem lê este blog sabe muito bem que a "paçoca" servida por Pedro Alexandre Sanches tem um gosto azedo de artigo folhista. A análise da música brega-popularesca, mesclada apenas com informações da Música Popular Brasileira do passado - numa abordagem que lembra bem a análise histórica de Francis Fukuyama, que também cita os movimentos sociais isolados no seu contexto passadista, "ultrapassado" - , invade a mídia de esquerda sem que qualquer pessoa desconfie da manobra. Já foi escrito aqui sobre isso várias vezes, mas o problema é que ninguém até agora caiu na real.

A música brega-popularesca, que historicamente está ligada sempre ao poderio da grande mídia, se alimentou por décadas e décadas da indústria do jabaculê. É uma música que, em seus vários estilos (que são mais fetiches do que "linguagens regionais", "diferentes" sabores de um mesmíssimo produto), é tendenciosa, medíocre, apátrida e simboliza uma visão domesticada e estereotipada do povo pobre, trabalhada com mal disfarçado paternalismo por uma intelectualidade que tenta dominar até mesmo o pensamento cultural de esquerda.

Mas hoje, como a música brega-popularesca, nos últimos dez anos, ameaça desaparecer e colocar seus ídolos no ostracismo, foi lançada uma campanha dotada de um discurso confuso e ideologicamente esquizofrênica. Fala-se de forma tão hipócrita em "movimentos sociais da periferia", quando entre uma e outra abordagem encontram-se conceitos tipicamente neoliberais, mesmo entre uma e outra discurseria pretensamente pós-moderna e pseudo-militante.

Dessa maneira, o tecnobrega, trabalhado por Pedro Alexandre Sanches como uma suposta "antropofagia", dentro de uma visão claramente etnocêntrica de um crítico paulista que quer julgar a periferia do Pará sob o ponto de vista de paulistano zona-sul, esconde todo um arsenal teórico neoliberal, como é o caso da ideia de "globalização" aplicada à cultura. Da mesma forma que, no discurso neoliberal, "não temos" mais nacionalismos, mas os "novos" conceitos de "democracia" defendidos pelo capitalismo atual, "não temos" mais o antigo nacionalismo musical, mas o "moderno" conceito de "diversidade cultural" defendido pela cultura pop (na prática "cultura pop" é o equivalente lúdico da ideologia capitalista).

Ninguém percebe o contraste que se tem entre o brega-popularesco, e seu entretenimento caricato e conformista, e os movimentos sociais que acontecem no país e no mundo. O contraste é gritante, é chocante, porém mais chocante ainda é o desprezo que a própria opinião pública de esquerda tem por esse contraste.

De um lado, é a luta autêntica das classes populares contra a opressão do poder dominante. É o lado dos movimentos sociais, da busca do povo pela qualidade de vida, pelas melhorias sociais, pelo fim das injustiças e do sofrimento.

De outro, porém, é tão somente o entretenimento caricato, estereotipado e claramente medíocre. Dá para ver a diferença dos ativistas sociais e os ídolos brega-popularescos, porque estes soam tão tolos, risíveis e patéticos, em nada lembrando a dedicação séria daqueles, que, mesmo agindo com humor e até mesmo algazarra, nunca sucumbiriam ao tolo nem ao grotesco nem ao piegas.

O problema é que vivemos a ditadura da intelectualidade etnocêntrica. Gente que se diz de esquerda, mas se observarmos o passado de Pedro Alexandre Sanches, por exemplo, verá que ele estava do lado de José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, Gilberto Dimenstein etc.

Gente, Pedro Alexandre Sanches é cria da FOLHA DE SÃO PAULO e ninguém desconfia de coisa alguma!! Ele é tratado como se, antes de passear pelas redações esquerdistas, ele só trabalhou em zines universitários ou em jornais sindicalistas. Balelas! Quando lhe convinha, Pedro Sanches trabalhou na Folha e na Abril todo feliz da vida, fazendo o jogo da grande mídia. E quem vê seus artigos na sua fase "esquerdista", sabe muito bem que sua abordagem cultural mantém totalmente a abordagem neoliberal que ele aprendeu na Ilustrada.

É um grande absurdo creditar como "movimentos sociais" um simples ato de jovens pobres irem que nem gado ao clube suburbano da moda só para ouvir os sucessos brega-popularescos que rolam no rádio (dominado por oligarquias regionais, diga-se de passagem). É rir da cara do povo, e rir da cara do povo com o rosto coberto da bandeira do socialismo é até pior do que um neoliberal condenar o povo. Porque, neste caso, o neoliberal assumido é um reacionário sincero, assumido, é verdadeiramente cruel, enquanto o neoliberal enrustido vê o povo de forma domesticada mas tenta posar de socialista só para dizer que gosta de pobre.

Só que não se gosta de povo pobre adotando essa postura cinicamente paternal, obrigando o povo a sucumbir ao padrão medíocre de "sua" cultura. É muito fácil também, para intelectuais que, de repente, passaram a odiar a MPB autêntica dos anos 60/70 - que aparentemente não cumpriram a revolução cultural que prometiam - e querem transformar Waldick Soriano, Odair José, Benito di Paula, Michael Sullivan e o que vier na cola em "subversivos" e "revolucionários".

Repetindo: isso é um grande absurdo. É tratar a opinião pública como trouxa. Evidentemente, música de qualidade não está relacionada com sofrimento e dor, mas também não é essa alegria ao mesmo tempo patética, chinfrim, estereotipada, apátrida e domesticada do brega-popularesco. Até porque a música brega-popularesco é apoiada claramente pela Globo, Folha e Abril (esta através das revistas Contigo e Tititi e, às vezes, por Caras), com um entusiasmo que não dá para desmentir.

Além do mais, a defesa intelectualóide ao brega-popularesco, seja a música, sejam os valores associados, como se fosse um substituto brasileiro dos movimentos sociais, acaba sendo uma cruel repressão à verdadeira iniciativa das classes pobres, na medida em que a verdadeira revolta popular incomoda não somente os editores de Veja, Folha de São Paulo, O Globo e similares, mas também os adeptos da cafonice dominante que se escondem em blogs pseudo-progressistas ou nas páginas de Caros Amigos e outros veículos da mídia esquerdista.

Porque o terror de Gilberto Dimenstein, de André Petry, de William Waack, de Marcelo Madureira, de que venham novos Pixinguinhas, novos Jacksons do Pandeiro, novos Sinhô, novos Cornélio Pires, novas Marinês, novos Gonzagões, é o mesmo terror de Pedro Alexandre Sanches, Sakamoto, Patolino, Paulo César Araújo, Eugênio Raggi e outros.

A formação burguesa não mente, e deixa-se vazar mesmo na mais neurótica pretensão esquerdista. O medo de ver os verdadeiros movimentos sociais florescerem de verdade no Brasil os faz atribuir como "movimentos sociais" a mera expressão subordinada de uma pseudo-cultura estereotipada, apátrida, medíocre e caricata. Povo domesticado é bom para a suposta "paz social" que garante os privilégios dos donos do poder.

Por isso essa intelectualidade pró-brega é bem suspeita, porque suas pretensões "socialistas" não os impedem de expor seus preconceitos que definem o povo como uma massa ingênua, subordinada e domesticada, os mesmos preconceitos defendidos pelos barões da mídia golpista.

Para esses intelectuais, é bom deixar que os movimentos sociais ocorram bem longe daqui, lá pelos arredores de Caracas, Cuba e Tel-Aviv, e deixar o povo brasileiro à mediocridade patética do "rebolation", do "funk", do tecnobrega, axé-music e outras cafonalhas.

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