segunda-feira, 27 de setembro de 2010

ARMADILHAS DA MÍDIA



A opinião pública, no Brasil, ainda está caminhando. A mídia progressista existe, mas ainda começa a se formar um público para ela, porque até agora muita gente ainda mantém os preconceitos e pontos de vista mais próximos de uma mídia conservadora menos badalada, como Isto É e Bandeirantes ou mesmo quando a Folha de São Paulo era considerada "mídia boazinha", lá pelos anos 90.

Na busca de uma mídia mais democrática, mas aliado ao desejo de pragmatismo e de visibilidade, muitos procuravam vestígios de esquerdismo nos porões da mídia conservadora, em veículos que exerciam rivalidade com aqueles claramente reacionários. Durante a ditadura militar, a mídia claramente reacionária, por incrível que pareça, eram tão somente as Organizações Globo e o Estadão.

Os grupos Folha e Abril também faziam das suas, mas contratavam jornalistas de esquerda em seus quadros e Veja surgiu como um periódico tão "inocente" quanto Isto É até algum tempo atrás (e olha que a Isto É, apesar de ter absorvido a histórica revista Senhor, não herdou o charme e o vigor jornalístico deste lendário periódico).

Nesse caminho esburacado, a opinião pública encontrou em seu caminho várias armadilhas da mídia, armadilhas que não correspondem necessariamente àquelas feitas pela mídia claramente conservadora e reacionária. Pelo contrário, elas partem justamente da mídia concorrente, sobretudo pelos valores que essa mídia difunde, que na ocasião são superestimados por um público incauto, ávido por ver florescer no Brasil uma modernidade que não existe.

Nos anos 90, a própria Folha de São Paulo tinha sua reputação elevadíssima sobre o público de classe média. Não era raro ver brasileiros comprando, com sorriso orgulhoso, um exemplar da Folha, ou recebê-la do porteiro, se caso foi assinante, para lê-lo com uma vaidade ímpar, até caprichando no cruzamento de pernas durante o desjejum.

Mas também vários personagens de outrora, como o ex-guerrilheiro e jornalista Fernando Gabeira, os humoristas do Casseta & Planeta, o cineasta Arnaldo Jabor, o poeta Ferreira Gullar, a atriz Patrícia Pillar (ultrasedutora com aquele penteado do estilo da Madonna de Like a Virgin), hoje fazem parte de um elenco de pessoas duramente contestadas e com a reputação em xeque. Até mesmo José Serra, entre 1979 e 1984, era um insuspeito ex-líder estudantil e bastante querido pelos universitários.

MÍDIA FOFA

O que se destaca nesse caminho todo é o fenômeno da "mídia boazinha", ou "mídia fofa", como comparação à ação perversa da chamada "mídia gorda". É uma facção da grande mídia, igualmente conservadora, mas que atua de forma mais sutil, com um certo profissionalismo, com uma certa postura que, embora mantenha posições claramente conservadoras, é capaz de falar ou escrever sobre Ernesto Che Guevara sem fazer uma xingação ou desaforo contra o guerrilheiro e político latino-americano.

A "mídia fofa" geralmente é concorrente da "mídia gorda", daí preferir não agir com a crueldade explícita desta. Situada numa posição semi-marginal de mercado, se comparado à suas concorrentes em domínio, a "mídia fofa" tenta até mesmo encampar, de forma sutilmente tendenciosa, causas "cidadãs" mais como um meio de passar uma rasteira no veículo dominante do que em defender uma comunicação eminentemente democrática.

Nós não falamos de certos profissionais humanistas que estão nesses veículos da "mídia fofa". A atuação deles é individual, e são exceção até mesmo diante do conjunto geral da "mídia fofa", que é cordialmente tendenciosa na sua corrida ao topo da corrida midiática.

Isso pega muita gente desprevenida. Superestimando as ações da "mídia fofa", muitos leitores, ouvintes e telespectadores são surpreendidos depois por um surto reacionário da "mídia boazinha" que passaram a admirar a ponto de exagerar seu papel aparentemente democrático.

Desse modo, muitos se sentiram traídos quando a Folha de São Paulo, a partir de cerca de dez anos atrás, passou a adotar uma postura claramente reacionária, contradizendo com a postura supostamente moderna que o jornal assumiu em 1984. A postura colocou o jornal dos Frias numa posição reacionária tal que até o ultraconservador concorrente, O Estado de São Paulo, pelo menos conduz de forma mais elegante sua postura retrógrada. Sem falar que o conservadorismo dos Mesquita têm mais história e façanhas do que o conservadorismo dos Frias.

Na Bahia, há que destacar o caso da Rádio Metrópole, do cafajeste político Mário Kertész, espécie de sósia cafona do Allen Ginsberg idoso, mas que se equipara a um genérico mais provinciano e boêmio de Bóris Casoy. Superestimada como um veículo "moderno" da mídia baiana, mais ou menos como a Folha de São Paulo dos anos 90, com um "canto de sereia" que deixou boquiabertos até certos jornalistas de esquerda (mesmo os fundadores do Jornal da Bahia, destruído por Kertész quando tornou-se seu interventor), a Rádio Metrópole era endeusada como uma suposta rival da Rede Bahia, paradigma da mídia abertamente conservadora no Estado.

Com campanhas tendenciosas supostamente defensoras da cidadania, a Metrópole, com seu (sub) jornalismo que, na pessoa de seu astro-rei, faz da emissora uma espécie de "CBN de porre", seduziu a esquerda baiana para depois apunhalá-la pelas costas. A dupla Emiliano José e Oldack Miranda, em seus blogs, chegaram a elogiar Kertèsz, mas foram espinafrados por ele no ar, na própria Metrópole, cuja postura direitista tornou-se clara nos últimos anos, quando o veículo-irmão da rádio, o jornal (ex-revista) Metrópole, baixou a lenha em tudo quanto é esquerda, do PT ao PSTU, podendo sobrar farpas até para o PCO (mantenha-se alerta, Antônio Eduardo).

Era como se, numa comparação, Altamiro Borges e Emir Sader fossem apoiar Paulo Maluf. Mas os dois eminentes jornalistas têm lucidez suficiente para não caírem em dadas armadilhas, sobretudo quando, nos últimos cinco anos, o direitista convicto de São Paulo passou a adotar uma postura estranhamente "pró-esquerda" e uma falsa pose de vítima que transforma o antigo colaborador do IPES e ex-rival de Tancredo Neves nas eleições indiretas para a Presidência da República num "Waldick Soriano da política brasileira".

Mas Emiliano, colaborador de Carta Capital, e Oldack, responsável pelo blog Bahia de Fato, perderam a boa chance de projeção nacional diante do apoio a Mário Kertész (conhecido figurão da direita baiana desde os tempos da ditadura, quando o então engenheiro lançou-se na política sob as bênçãos da ARENA e de Antônio Carlos Magalhães), desnecessário mas adotado pelo desespero em obter visibilidade num Estado em falência, preso a um provincianismo autista que contribui para a estagnação social na capital baiana e em cidades do interior que parecem ainda viver no século XIX. Dessa forma, Bahia de Fato passou a figurar, de forma apagada e tímida, na blogosfera de esquerda, mal podendo representar regionalmente a mentalidade esquerdista regional.

Mas, no âmbito nacional, há também que se destacar o caso da revista Isto É, cujo papel de oposicionista à Veja - cuja rabugice editorial é mais do que explícita - foi também superestimado, até episódios como o apoio a Fernando Collor na sua campanha para o Senado, em 2006, e a momentânea conversão para o demotucanato, pouco tempo atrás, dissolveu nossas ilusões.

ENTRETENIMENTO

Mas o âmbito do entretenimento também mostra muitas ilusões que são depois desfeitas. É o caso da ideologia brega-popularesca que, apesar de apostar numa evidente domesticação do povo pobre, logo no declinar da Era FHC passou a promover uma falsa imagem de "cultura genuinamente popular", num discurso claramente etnocêntrico proveniente da burocracia intelectual acadêmica, mas que tornou-se verossímil, convencendo a todos pelo aspecto emocional de evocar a "expressão do povo das comunidades pobres".

Essa ilusão se deu sobretudo pelo discurso relacionado ao "funk carioca" e ao tecnobrega, meros fenômenos comerciais artisticamente tão tolos quanto o twist e até artisticamente bastante inferiores e superficiais, mas que foram promovidos sobre a falsíssima imagem de "ativismo sócio-cultural", favorecendo mais o lobby político-empresarial que estava por trás. O discurso era verossímil, mas não tardou de mostrar suas contradições, como por exemplo seu acesso fácil à grande mídia, mesmo quando seu discurso insistia no contrário.

A queda desse discurso, cujos efeitos ainda serão sentidos de forma mais evidente em breve, se expressa pela contradição entre um discurso rico e sofisticado e uma práxis restrita unicamente ao consumo e à repetição de valores difundidos pela grande mídia. Afinal, como creditar a uma suposta rebelião popular a produção de meros "sucessos do povão" dentro das regras do mercado, numa clara referência ao neoliberalismo aplicado à música, e seu público se limita apenas a consumi-los nos cenários lúdicos como o mercado de camelôs e as casas noturnas de subúrbio?

As armadilhas, nos últimos anos, foram grandes. Rádios de hit-parade que, sob o rótulo de "rádios rock", se fantasiavam de "rádios alternativas" numa postura estranhamente alienada, acomodada, superficial e até burra. Atores, cartunistas e escritores que eram ligados a movimentos culturais modernos e pós-modernos que passavam a adotar posturas direitistas retrógradas. Fórmulas antes relacionadas à televisão de vanguarda - como misturar jornalismo e besteirol - transformadas na mais banal das banalidades anti-vanguardistas.

A recente armadilha envolve o cinema e ainda pega muita gente de surpresa. O sistema TeleCine, de canais da TV paga dedicados a exibir filmes, fez uma pegadinha nas gerações mais recentes, transformando um canal de filmes antigos, TeleCine Classic, no pretensioso nome de TeleCine Cult.

Claro, as gerações mais recentes, com menos de 35 anos de idade, e que mal conseguem discernir a soul music dos anos 60 da disco music e que acha que música cubana instrumental também é "jazz clássico" (por razões óbvias, ela seria, no máximo, jazz fusion), não acompanhou as polêmicas raivosas que, na década de 50, existia na intelectualidade em torno do cinema norte-americano.

Naquela época, a intelectualidade contestava energicamente a fábrica de ilusões do cinema dos EUA. Nem os filmes de bangue-bangue, hoje "cultuados" mais pelo intermédio das produções italianas dos anos 60, escaparam. Mas quem assistiu aos desenhos do Pica Pau sabe que até Walter Lantz achava faroeste uma subcultura, vide uma alusão em um episódio, quando a mesmice da televisão era sempre associada a uma cena com caubóis correndo e dando tiros de revólver, cena repetida a cada mudança de canal.

As críticas, existentes desde o pós-guerra, resultaram no desenvolvimento de uma mentalidade cinematográfica que reagiu à ilusão da fase áurea de Hollywood. Foi aí que movimentos como o neo-realismo italiano, a nouvelle vague francesa ou os filmes de Akira Kurosawa, além do nosso Cinema Novo, surgiram. Daí que, a uma análise mais aprofundada, chamar o cinema de Hollywood, por mais bem feito que fosse, de "cult" ou "alternativo", é tratar o cinéfilo como se fosse um retardado, um idiota desinformado.

Só que a garotada pós-1978 chegava a fazer desculpas hoje para essa malandragem do TeleCine Cult, achando que, por causa da queda de qualidade do cinema de hoje, a denominação de "alternativo" para o cinema comercial norte-americano tem validade. Isso é contraditório, porque, primeiro, muitas comédias românticas atuais são apenas formas atualizadas dos filmes de 50 a 65 anos atrás. E, segundo, porque barbaridades como Robocop e filmes com o hoje roliço Steven Seagal passaram no TeleCine Cult.

OS MAIS VELHOS TÊM OS PÉS NO CHÃO

Nota-se que a experiência faz o sábio, e enquanto pessoas mais jovens são vulneráveis às ilusões aprontadas pela mídia, os jornalistas veteranos não se iludem em relação às armadilhas feitas até mesmo pela mais "boazinha" da grande mídia.

É só perceber a ingenuidade dos mais novos, que chegam até mesmo a creditar a revista Isto É como "imprensa de esquerda" ou se iludir com o Grupo Bandeirantes de Comunicação, ou mesmo com a Folha de São Paulo, por causa da atuação dessas duas corporações de mídia na campanha pela volta das eleições diretas feita em 1984.

Por isso, blogueiros como Altamiro Borges e Emir Sader, mais experientes, mantém-se os pés no chão e não confundem "mídia boazinha" com mídia de esquerda. Uma coisa é ocasionalmente haver um cruzamento de interesses entre a "mídia fofa" e a mídia esquerdista, mas outra é dizer que aquela e esta são a mesma coisa.

Os mais experientes já vivenciaram ou conhecem, através do relato de seus mestres, os caminhos e descaminhos da imprensa. E sabem que a "mídia fofa" dos anos 50/60, por exemplo, era constituída de Diário Carioca, Gazeta de Notícias, Correio da Manhã e que mesmo os Diários Associados e o Sistema JB, hoje alinhados com a "mídia boa", adotaram posturas golpistas no apogeu da crise institucional durante o governo João Goulart, já em 1963.

Da mesma forma, nenhum veterano se iludiria com a farsa da "cultura popular" do brega-popularesco, que aposta numa visão domesticada do povo pobre. José Arbex Jr. não se ilude, por exemplo, com o "funk carioca", como Lúcio Flávio Pinto não se ilude com o tecnobrega. E até o pessoal do Pasquim, independente do rumo político que seus jornalistas tomaram, à direita ou à esquerda, está careca de saber sobre o conservadorismo direitista de Waldick Soriano.

Um exemplo é quando os mais novos analistas da mídia comemoram quando o grupo empresarial O Dia entra em conflito com a cúpula da ANJ ou quando a Isto É rompe com o apoio a José Serra. Com a animação maior do que a festa, eles não imaginam que são situações ocasionais de diferença, e acham que a "mídia boazinha" representada por esses grupos empresariais está do lado da esquerda. Os mais experientes analistas, todavia, adotam uma postura bastante cautelosa.

Não haveria também ilusões sobre os próprios rumos que a intelectualidade pós-moderna adotaria depois. Preferem tomar cautela do que festejar diante de falsos aliados, diante de modernices sem sentido. Preferem se comportar como a Cassandra de Tróia, quando avisou que dentro do lindo cavalo de madeira, havia soldados que iriam render e capturar o povo.

Só a experiência para comprovar os sucessivos avisos de Cassandra e seus semelhantes ao longo dos séculos.

2 comentários:

Lucas Rocha disse...

Porque a mídia não dá a mínima bola para as antigas misses dos anos 50 e 60 como Marta Rocha, Terezinha Morango, Adalgisa Colombo, Vera Regina Ribeiro, Maria Olívia Rebouças, Ieda Maria Vargas e Martha Vasconcellos? Não adianta responder "porque o tempo delas já passou"...

Marcelo Delfino disse...

Voltando ao assunto Telecine Cult:

Os filmes de RoboCop têm uma temática cyberpunk: a grande vilã é a megacorporação OCP, para quem a Prefeitura de Detroit terceirizou a polícia já no primeiro filme. Daí o executivo Bob Morton (da Divisão de Segurança da OCP) ter chefiado a equipe que criou o RoboCop, aproveitando os restos mortais do falecido policial Alex Murphy. No segundo filme a OCP conspira pela falência da Prefeitura, que acaba sendo totalmente privatizada para a própria OCP no fim do filme, e no terceiro filme a OCP chega a ser vendida para a empresa japonesa Kanemitsu, satirizando a venda de empresas americanas (como a gravadora CBS e a Columbia Pictures) para japoneses.

Mas nada disso faz os filmes de RoboCop serem cult. São tão comerciais quanto o restante do cinema hollywoodiano.

Por motivos semelhantes, a trilogia Matrix também é cyberpunk e comercial, e não cult. Mas hoje mesmo há quem considere Matrix uma franquia cult.

Os japoneses supostamente saíram da OCP na série canadense Prime Directives, produzida em 2000.