sábado, 18 de setembro de 2010

18 DE SETEMBRO: O VERDADEIRO DIA DO ROCK



COMENTÁRIO DESTE BLOG: O dia do falecimento de Jimi Hendrix, pelo que ele significou para a História do Rock, deveria ser considerado Dia do Rock, e não aquela data onde muita gente que nada tinha a ver com rock se apresentou num evento jovem filantrópico de 1985. Pois 18 de setembro de 1970 é que nos faz refletir e pensar sobre o legado do rock clássico através do magistral guitarrista.

Eu escrevi este texto em 2001, para a seção "Pelos Porões do Rock" que eu tinha no portal Rocknet, comandado por Luiz Antônio Mello.

18 de setembro: O verdadeiro dia do rock

Alexandre Figueiredo - Pelos Porões do Rock - Rocknet - 18.09.2001

Oficialmente, a mídia instituiu o dia 13 de julho de 1985 como o "Dia Mundial do Rock". Nele, um evento de grande repercussão e incluindo um grande número de artistas foi realizado: o Live Aid, promovido pela MTV Americana em associação com o músico inglês Bob Geldof e os responsáveis pelo projeto USA for Africa.

Somente nos últimos seis anos a mídia brasileira e suas emissoras de rádio comerciais passaram a divulgar a data, havendo toda uma badalação em torno da mesma. Falava-se num "gigantesco evento filantrópico, capaz de unir a longevidade do rock à sua função de transformação social". No entanto, alguns detalhes mostram que o Live Aid esteve muito longe de ser "o evento do rock", sendo apenas mais um daqueles pretextos para a confusão entre pop e rock.

Em primeiro lugar, o evento teve de tudo. Desde bandas de heavy metal até mega-astros do pop, passando por aqueles "farofeiros" que pensam fazer rock, alguns fazendo até dance music. Madonna e George Michael participaram do Live Aid e só os ignorantes, para os quais toda música "jovem e moderna" é considerada "rock", podem classificá-los como "roqueiros". E olha que o Brasil começa a entrar nessa era confusa em relação aos nomes nacionais, vide alguns oportunistas que fazem funk ou forró e se acham os "maiores ícones do rock brazuca".

Segundo, há dúvidas se o dinheiro arrecadado pelo Live Aid de fato chegou aos míseros etíopes, alvo da ação filantrópica. Mesmo que não tenha havido extravio por parte de sócios menos confiáveis do megaprojeto, é sabido que muitos alimentos, roupas e até dinheiro que chegam nos países africanos em guerra - a Etiópia não é exceção à regra - são confiscados pelos soldados que dominam a área.

Discussões à parte, o evento de 13 de julho, que no Brasil coincide com o "dia oficial da música sertaneja" (e aqui não se sabe se é à autêntica música sertaneja ou ao breganejo de asfalto que se dirige tal efeméride) pouco tem a ver com a real importância do rock. Foi mais um pretexto sensacionalista para promover o gênero como um filão a enriquecer a indústria. O rock, sendo tratado pelos executivos através da exacerbação dos estereótipos (valores deturpados) e clichês (valores autênticos, porém banalizados), favorece o lucro das empresas e o fortalecimento do mesmo capitalismo que o rock autêntico, na sua condição de movimento underground, luta para combater.

Na verdade, histeria semelhante ao 13 de julho o Brasil viveu a partir do dia 13 de maio de 1888. Lembrando que o rock surgiu a partir do blues negro, a comparação faz muito sentido. Naquele 13 de maio, a história registra a assinatura da Lei Áurea, que acabava com o sistema de escravidão dos negros. O documento foi assinado pela filha do imperador Dom Pedro II, a Princesa Isabel. Anunciado como um ato humanitário, tempos depois se soube que a Princesa assinou o decreto por pressões da Inglaterra, que, longe de ser um país humanitário na época e considerada potência do capitalismo cerca de 40 anos antes da ascensão dos EUA, julgava o sistema escravista como um empecilho para a modernização capitalista. Vale lembrar que, nos primeiros estágios da Revolução Industrial, a situação não era muito diferente da escravidão, com pessoas ganhando baixos salários, sendo mal-tratadas pelos patrões, não tendo sequer assistência à saúde e mesmo mulheres e crianças eram sujeitos ao trabalho cruel, com as mesmas vicissitudes dos operários em geral, incluindo mortes, feridas e mutilação de membros nos acidentes de trabalho.

O movimento negro brasileiro, nos últimos anos, declarou o não reconhecimento do 13 de maio como dia da luta pela libertação dos negros, porque, a partir desta data, os negros foram simplesmente soltos dos engenhos, mas raros foram aqueles que conseguiram uma vida próxima da dignidade. Tanto que o 13 de maio de 1888 pode ter sido o "marco zero" da favelização do país, uma vez que os negros, sem trabalho nem moradia, invadiram morros ou terrenos ociosos para construir residências rudimentares, grosseiras, já que a miséria e a baixa escolaridade não permitiam construir uma casa melhor.

Como alternativa à data, o movimento negro escolheu o dia 20 de novembro de 1797 como data para lembrar a luta social dos negros. Nesse dia, o líder dos escravos, Zumbi dos Palmares, foi morto. Sua importância na luta dos negros foi enorme, uma vez que, mesmo diante das limitações impostas pelos senhores de engenho aos escravos, Zumbi, que era rei de uma tribo na África, criou uma das maiores comunidades de escravos no Brasil, o Quilombo dos Palmares, com organização social e política admiráveis. Vale lembrar que era manobra dos traficantes de escravos separar negros de uma mesma tribo e juntar negros de tribos diferentes para dificultar a comunicação e a articulação social. Mas em Palmares, Zumbi estabeleceu o entrosamento de seu povo e por pouco não abalou as estruturas escravistas.

18 DE SETEMBRO DEVERIA SER O DIA DO ROCK
Com base no raciocínio apresentado, propomos o dia 18 de setembro de 1970 como o "Dia Mundial do Rock", uma vez que o acontecimento trágico dessa data nos faz refletir a respeito do rock como música. A escolha da data despreza qualquer critério de gosto musical pessoal e aponta para um artista que contribuiu decididamente para a evolução musical do rock.

Poderiam ser escolhidos Bob Dylan, Beatles, The Who etc., nomes que revolucionaram o rock à sua forma, mas Jimi Hendrix, sem desmerecer os demais, levou a ousadia às últimas consequências. Seu talento de tocar guitarra foi tal que obrigou os fabricantes de guitarra a fazer modificações técnicas no instrumento, tal a rara performance de Jimi, até hoje inigualada. Hendrix, tal como os demais clássicos do rock, fez o gênero se sobressair como cultura, comportamento e filosofia, muito acima da suposta "atitude rock" que faz deslumbrar (ou será que faz rir?) os conservadores e oportunistas.

Por que Jimi Hendrix foi tão relevante para o rock? O que faz sua contribuição artística ser tão importante para o gênero?

Simples. Despindo Hendrix daqueles mitos preconceituosos, nota-se que ele foi um músico superior, autocrítico, criativo e exigente. Um músico sóbrio, que não consumiu drogas pesadas, apenas alucinógenos, como muitos músicos consumiam, e os costumeiros cigarros e bebidas alcoólicas. Mas isso não intervinha negativamente na arte e no talento do músico.

Hendrix surpreendeu o mundo porque, de um discreto e silencioso músico de estúdio de artistas da música negra, se tornou um dos mais completos e complexos músicos de rock de todos os tempos. Dono de uma agilidade guitarrística comum, capaz de transitar com veloz desenvoltura da guitarra-base à guitarra-solo, capaz de tocar uma guitarra ora como se fosse um violão, ora dando solos que nenhum outro guitarrista conseguiu imitar com maestria, Hendrix também era ótimo cantor e excelente compositor, e tinha humildade e autocrítica, tanto que, se vivo estivesse, ele teria estado mais próximo do progressivo e do jazz rock.

A música de Jimi Hendrix era uma síntese entre soul, folk rock, acid rock, blues, jazz e rhythm & blues, além de ter sido um prenúncio para o heavy metal. Negro, Hendrix esteve acima da música negra e deu vitalidade ao rock britânico uma vez que, convidado pelo empresário Chaz Chandler, já um ex-baixista dos Animals em 1966, iniciou seu trabalho de líder de banda com o Jimi Hendrix Experience. Este ano Hendrix completaria 40 anos de carreira profissional (começou em 1961, com apenas 18 anos), e 34 anos de carreira autônoma que transformou radicalmente o rock e a técnica de tocar guitarra.

Hendrix foi um dos pioneiros a direcionar a microfonia, um efeito incômodo de agudo, a um recurso artístico. Sua técnica guitarrística, além do fato do músico norte-americano ter utilizado vários tipos de guitarra ao longo da vida. Nas gravações de estúdio, Hendrix gravava várias guitarras, dando a cada uma delas uma riqueza melódica e uma agilidade incomparáveis. Jimi chegou até a ser baixista em algumas gravações de estúdo, quando Noel Redding rompeu relações com ele e o J. H. Experience acabou sendo desfeito.

Jimi tinha até vergonha de cometer atos como aquele que ficou marcado em sua vida, o de incendiar a guitarra uma vez. A verdade dos fatos era que o ato tido como "piromaníaco" foi cometido apenas uma vez, em 1967, e por decisão de Chandler, que queria forjar um mito "selvagem" para o guitarrista que queria apenas fazer sua música. Tanto que, antes do ato, Hendrix estava apreensivo e hesitante, por ele não haveria aquele espetáculo todo que só pôs lenha na fogueira dos moralistas.

Enfim, a curta trajetória de Hendrix, de 1961 a 1970, se tornou relevante para o rock, porque contribuiu decisivamente para sua afirmação como música, como cultura. Enquanto muitos pensam no rock mediante outros critérios que não a música, o que é extremamente fácil e banal, o correto seria pensar o rock como música e substância, aliando a forma de fazer canção com a honestidade e espontaneidade que os melhores roqueiros, a partir de Hendrix, devem ter e manter. Porque o que mantém o rock vivo não são escândalos nem sensacionalismo, não são plumas nem paetês, e nem mesmo a "modernidade" a todo preço que sucumbem a um ecletismo vazio e dispersivo.

O que mantém o rock vivo é a música que Chuck Berry, Little Richard e Bill Haley esboçaram, que Bob Dylan e Beatles desenvolveram e que Jimi Hendrix fez ampliar os horizontes. Daí o dia 18 de setembro de 1970 ser o verdadeiro dia do rock, o dia que nos leva a pensar nos rumos do rock antes e depois de Hendrix.

Nenhum comentário: