sexta-feira, 6 de agosto de 2010

ROLANDO BOLDRIN, GUARDIÃO DA MÚSICA CAIPIRA


COMENTÁRIO DESTE BLOG: Infelizmente os guardiões da música caipira são idosos: Inezita Barroso, José Hamilton Ribeiro e Rolando Boldrin. Gente veterana, que sabe distinguir a verdadeira música caipira do breganejo. Enquanto muita gente acredita, ingenuamente, que o breganejo irá salvar a música caipira apenas gravando covers do cancioneiro rural original, eles lutam para nos chamar a atenção da verdadeira música rural brasileira, que corre o risco de desaparecer no nosso país.

Afinal, queiram ou não queiram os "caros amigos da paçoca", a questão da música caipira e do breganejo revela um conflito entre essas duas forças que equivale, exatamente, ao conflito entre os agricultores sem-terra e os latifundiários. Assim como os "coronéis" do latifúndio agora se autoproclamam "ruralistas", seus equivalentes musicais, o breganejo (incluindo o "agronegócio" musical dos "universitários"), se autoproclamam "música sertaneja". E não tem essa lorota de haver breganejo sem mídia, porque em suas violas eletrificadas rola o toque do plim-plim.

Guardião da música caipira

Entrevista // Cantor Rolando Boldrin defende a sonoridade da viola caipira e diz que estranha as duplas que acham chique dizer que cantam country

Por José Carlos Vieira e Severino Francisco - Diário de Pernambuco - 04.07.2010

A música sertaneja está em extinção?

Música sertaneja, pra mim, é a música feita no Sertão do Nordeste. Agora existe uma nomenclatura de "música sertaneja" que é a de alto consumo, gravada por duplas com canções românticas. Esse tipo de música é rotulado de sertaneja, mas o termo sertanejo é para música nordestina.

E a música comercialmente rotulada como sertaneja, a das duplas atuais?

Essa não está em extinção, mas deveria estar.

A invasão da cultura de massa, das novelas, dos valores urbanos, como o uso de um tênis de marca, não está matando a cultura do interior do país?

A novela é uma coisa de modismo, de folhetim, eu mesmo fiz 35 novelas. As novelas globais têm muita força para impor moda... Mas o importante é mexer o corpo e trabalhar em prol da verdadeira cultura brasileira. Se existe um tênis norte-americano que vende muito, o brasileiro deveria fazer um tênis melhor. A cultura brasileira, essa que eu defendo, é muito prejudicada porque existe muita conivência do grande público com produtos que são oferecidos a ele. O público aceita tudo.

E com relação ao sotaque, ao linguajar do povo do interior?

O brasileiro, nesse ponto, tem um jeito muito próprio de se comunicar, apesar da influência da mídia, da televisão. Mas o modismo é sempre passageiro. O brasileiro é muito forte nesse sentido. O interior do país ainda conserva muita coisa boa, pura. Viajo muito e vejo essa pureza de costumes.

Por que as atuais duplas caipiras ou "sertanejas" se denominam como pop. A dupla Chitãozinho e Xororó, por exemplo, não se considera mais caipira e sim pop. É uma estratégia de mercado?

Honestamente, eu não sei o que é pop. Não uso palavreado de fora. Pop me parece que é uma coisa norte-americana, eu não sei o que quer dizer (risos). Eles falam que são pop, porque é chique falar "pop", é chique falar que cantam Beatles, é chique falar que veste roupa do Texas, é chique falar que canta country. Parecem que são mais modernos. O termo caipira fica parecendo que é uma ofensa, quando não é verdade.

Há pesquisadores, como o violeiro Roberto Corrêa, que lutam para preservar o som que vem do campo, um exemplo foi a "descoberta" do gênio Badia Medeiros, de Formosa.

Você acha que o estado deveria ter uma política mais honesta voltada ao resgate da nossa tradição musical?

Hoje em dia, nós temos muitos músicos maravilhosos. Antigamente, a tendência era ser violonista, da escola de Baden Powell, por exemplo, assim também como das escolas de Canhoto, de Dilermando Reis... Hoje, o segmento de viola está na moda. Existem muitos violeiros clássicos que são estudiosos. Também acho que o estado deveria sim ter uma ação mais concreta em relação à cultura tradicional. O meu programa, o Sr. Brasil (TV Cultura), - como nos tempos do Som Brasil - foi criado por mim para isso, para a gente valorizar o que é nosso.

E o que você acha da moda do "sertanejo universitário"?

Não consigo nem saber o que é "sertanejo universitário" (risos). Nunca fui numa universidade para ver o que eles fazem com a música caipira. Se estudam, se pesquisam. Não conheço nenhum artista desse segmento musical. Me parece que esse rótulo vem em cima do sertanejo comum: música romântica, que fala de vaqueiro, de peão de boiadeiro... mas que não rende nada. Universitário deveria estar preocupado com seu estudo, com a música de raiz brasileira. O que eles fazem não é música brasileira, não tem nada a ver com a nossa cultura.

Defina, por favor, o que significa música caipira?

É aquela tradicional cantada em duetos simples, sem muita sofisticação, violão e viola e um raríssimo instrumento a mais, que pode ser uma sanfoninha, uma gaitinha, um violino. Os ritmos têm que ser brasileiros, como moda de viola, cateretê, cururu, batida, enfim, esses tipos. Passou disso aí para rasqueado paraguaio, corrido mexicano e batida de country norte-americano... saiu da nossa cultura.

Você saiu do circuito das grandes gravadoras, do showbusiness... Qual foi o preço que o senhor pagou?

Eu não paguei nada, só ganhei. Eu tenho um grande arquivo de músicas que até hoje vende bem. Nunca fui refém de gravadora. Sempre gravei o que quis, quando quis e a gravadora tinha que aceitar isso. E tudo que gravei está aí no mercado, está vendendo. Ainda encontro disco de 1985 sendo oferecido nas lojas. Qualquer loja muito boa que você for, você encontrará cinco a seis CDs meus.

Os jovens acompanham sua carreira?

Têm muitos jovens que gostam do meu trabalho. A minha plateia é misturada, de ancião de 90 anos a criança de 15, 16 anos. Estudantes também gostam muito do meu trabalho desde o tempo da Globo.

Viola caipira e guitarra podem conviver juntas?

De jeito nenhum! A sonoridade da viola caipira é uma coisa intimista, de porta de casa, de sala de visita, não é uma coisa pra você tocar para cinco mil pessoas.

Como você analisa o futuro do Brasil caipira?

Sou otimista. Trabalho para preservar o futuro da nossa música. Devagarinho, a gente vai se impondo. Temos grandes compositores, grandesintérpretes. As músicas de alto consumo se renovam de artista para artista, mas são passageiras. Quem gosta de música bem brasileira torce para que esse gênero canse o público.

Você foi ator de novela, participou da primeira exibição da novela O bem amado, de Dias Gomes, e também das Pupilas do senhor reitor. Como foi essa experiência?

Sou ator até hoje. Se aparecer uma grande oportunidade de fazer um personagem numa novela ou num filme - já fiz dois filmes (Doramundo, de 1978, foi o principal, o outro foi Tronco, de 1999) - estou pronto. O que eu faço hoje é um trabalho de ator também. Fiz 35 novelas, 15 peças de teatro. Me satisfaz ser ator, é prazeroso subir no palco. Também gosto muito de contar histórias de tipos humanos brasileiros. É isso que faço desde garoto.

Você ainda aprecia uma cachacinha?

Muito de leve. Tudo tem seu tempo. Curto um golinho de cachaça, mas quando era mais jovem eu bebia muito. Essa coisa bem interiorana de boteco. Porém o tempo vai passando, a idade vai chegando e você vai modelando a comida, vai comendo melhor e menos, vai bebendo menos também. Hoje, bebo uma cervejinha, um bom vinho. Mas não sou mais um caboclo ligado a bebida alcoólica não. Larguei de fumar faz 30 anos e foi a melhor coisa que fiz na minha vida. Com 45 anos, eu era um velho de tanto fumar e, hoje, com 73, me sinto um jovem de 45.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

Será que algum sambista sabe a diferença BÁSICA entre o verdadeiro samba e o sambanojo? Acho o Almir Sater muito amigo dos "índios" Chitãozilma & Xororó...