terça-feira, 24 de agosto de 2010

PEDRO ALEXANDRE SANCHES, FUKUYAMA E A MPB DE "OUTRORA"



Na edição de Caros Amigos deste mês, Pedro Alexandre Sanches, no artigo intitulado O clamor do voto nos festivais de música, analisa o documentário Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, tendo entrevistado os dois cineastas, que resgataram o Festival da Canção da TV Record, de 21 de outubro de 1967, que teve Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Elis Regina, até Sérgio Ricardo jogando o violão contra a plateia vaiante.

Como todo ideólogo do brega-popularesco, Pedro Sanches elogia o documentário, a época da MPB e mesmo a qualidade da música brasileira. Da mesma forma que os historiadores Francis Fukuyama e Paul Johnson elogiam as revoluções liberais de nossa história, ou mesmo as manifestações humanistas ocorridas em nossa História.

Nota-se, no entanto, que o artigo-reportagem de Sanches, estranhamente, reconhece como único grande legado do festival de 1967 o voto dado às músicas, e em dada passagem o colunista tenta associar a MPB ao impensável reduto da TV Fama e da revista Caras. Isso além de lançar uma pérola verdadeiramente fukuyamiana, definindo a MPB daquela época como "algo que não tivemos mais (ou nunca tivemos, no caso das gerações mais recentes)", numa claríssima influência do "fim da História" defendida por Fukuyama na abordagem da música brasileira.

Antes que alguém veja minhas críticas ao jornalista como vazias de sentido, reproduzimos as palavras do próprio Pedro Sanches, para confirmar a tese deste blog. Primeiro, a hilária ideia de que a MPB agora aparece em Caras, TV Fama e similares:

"O abismo que nos separa de 1967 foi cavado em grande medida pela indústria cultural que ali ia se constituindo da maneira como nos acostumamos a conhecê-la - e que hoje dá sinais evidentes de putrefação. Com exceção do 'rei' Roberto, os artistas da dita MPB não são mais funcionários assalariados das TVs e não cumprem tabela sorridente como cumpriam então - ou cumprem, mas em veículos de "celebridades" como TV Fama e/ou a revista Caras.

Como assim? O que se vê na TV Fama e na revista Caras não são os artistas da MPB dos anos 60 (e 70, como herdeiros da Era dos Festivais, seja Djavan, Ivan Lins, Ednardo, Fagner, Diana Pequeno, Gonzaguinha), mas os ídolos neo-bregas que hoje representam a pseudo-MPB das grandes gravadoras: ídolos da dita "música sertaneja", "pagode mauricinho" e axé-music que aparecem todo domingo no programa do Fausto Silva.

Alguém viu Marília Medalha mostrando sua cobertura em Caras? A TV Fama fez reportagem relembrando Sílvia Telles? Alguém viu Edu Lobo entrevistado por Sônia Abrão? Leão Lobo publicou alguma nova fofoca sobre João Donato? A Hola Brasil vai botar o Carlinhos Lyra na capa da próxima edição? A Isto É Gente vai de Ednardo na reportagem principal? Nada disso!

Quando muito, o que vemos é Gilberto Gil em casa com sua esposa Flora ou com qualquer de seus filhos (sobretudo Preta Gil, que por sinal irmana em causa com Pedro Alexandre Sanches). Ou Belchior, em mais um suposto desaparecimento. Ou Chico Buarque, na companhia de uma amiga ou tomando água de coco em Ipanema ou Leblon.

Outro trecho do artigo-reportagem mostra de forma contundente o Francis Fukuyama que está dentro de Pedro Alexandre Sanches:

Se o prumo saudosista persiste, mudemos de rumo. A espontaneidade das cenas de bastidores de 1967 é útil para não trazer nostalgias do que já não temos mais (ou nunca tivemos, no caso das gerações mais recentes). Se admiradas com inteligência, tais imagens fornecem farto material para a invenção dos novos modelos que imploram por nascer, mas que ainda não conseguiram palpar, nós que somos consumidores, jornalistas, artistas ou isso tudo ao mesmo tempo.

O grande problema é que Pedro não diz que "novos modelos" são esses. O que será? Será a tal "cultura de massa" que hoje busca um domínio totalitário no nosso país? Será que o Brasil, tão metido a socialista, no entanto deve ter uma postura acrítica em relação à indústria cultural, enquanto a maior meca do capitalismo neoliberal, os Estados Unidos da América, já possui uma tradição crítica da análise da indústria cultural há mais de 80 anos, reforçada ainda pelos professores europeus, sobretudo da Escola de Frankfurt, que foram viver nos EUA devido aos movimentos fascistas e à invasão de tropas nazistas em vários países europeus?

Mesmo na admirável soul music, vários filmes a respeito mostravam os mecanismos de jabaculê e de star system que muitas vezes tentavam corromper os artistas envolvidos. Mas na lamentável música brega-popularesca, temos que acreditar, neste Brasil varonil, que tudo reina na santa paz, no mais paradisíaco cenário, e temos que creditar que até os chamados "grupos com dono" (ou seja, literalmente comandados pelos seus empresários), como é o caso de muitos grupos de forró-brega, tecnobrega, "pagodão" baiano, axé-music e "funk carioca" (e nesse elenco todo incluímos É O Tchan, Parangolé, Gaiola das Popozudas, Cheiro de Amor e Calcinha Preta), como "legítima e espontânea expressão do povo pobre das periferias". Tenha dó!!!!!!

Certamente, Pedro Alexandre Sanches, acomodado no seu apê em São Paulo, quer julgar a cultura popular pelo olhar etnocêntrico que ele faz das periferias brasileiras, vistas pela distância, com os binóculos pedantes do jornalista. Ele aparentemente acha lindo a Era de Ouro da MPB, como Francis Fukuyama declara amores por vários episódios da história da humanidade. Em ambos os casos, porém, um e outro declaram que esses tempos de ouro acabaram, e que agora só resta à humanidade consumir o que está aí no mercado, os valores do circo neoliberal globalizado que, no entretenimento brasileiro, é representado de forma bem explícita pela música brega-popularesca, a suposta música popular que rola nas rádios e TVs mais influentes de nosso país.

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