domingo, 22 de agosto de 2010

A PEDAGOGIA DA MÍDIA REACIONÁRIA



"Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil quanto ela mesma". Esta frase, dita pelo jornalista norte-americano Joseph Pulitzer (1847-1911), fala sobre a pedagogia da mídia reacionária, que no Brasil influi pessimamente por certas perspectivas sócio-culturais de setores da opinião pública que, autoproclamados progressistas, no entanto seguem ideias conservadoras, reacionárias, dissolvidas num discurso confuso que apela para clichês esquerdistas frouxos.

É o caso de quem defende a ideologia brega-popularesca pensando que ela é a "revolta popular das periferias". Historicamente, a ideologia brega-popularesca, baseada na domesticação das massas e na condenação do povo a papéis subalternos na nossa sociedade, como o subemprego, o alcoolismo, a prostituição e o comércio clandestino, se fundamentava em contextos políticos, sociais e midiáticos conservadores. O brega surgiu do poder latifundiário das regiões que lançaram seus ídolos.

Mas de repente vemos um discurso delirante, com clichês intelectuais, costurado de alegações esquerdistas, que apenas dissimula a coisa, que mascara, que disfarça. De repente as mesmas tendências de sucesso nas rádios controladas por oligarquias, nas grandes redes de televisão e suas afiliadas, são tidas como "autêntica expressão do povo pobre". Que autêntica? Mesmo certos intérpretes que surgem por conta própria seguem essa pedagogia brega que os faz submissos até quando decidem por conta própria.

A ideologia brega levou a ideologia coronelista para as grandes cidades, pelo menos nos subúrbios, e de repente a classe média desprevenida, há décadas educada por Rede Globo, por Folha de São Paulo, por SBT, pela revista Contigo, passou a julgar o povo como suas visões de classe média.

Afinal, para os ideólogos do brega-popularesco - pode ser Eugênio Raggi (que não se declara esquerdista, mas esconde-se na esquerda feito um moleque covarde), pode ser Sakamoto, pode ser Pedro Alexandre Sanches, ou qualquer outro - , o povo não é aquele visto na vida concreta da periferia. O povo, para eles, é o calouro rejeitado do Chacrinha, o calouro que leva uma buzinada e um abacaxi. O pior é que eles querem falar de uma "pureza paradisíaca" das periferias, quando a coisa é braba nos subúrbios, sertões e roças.

O desastre do Morro do Bumba não aparece no "funk carioca". Os conflitos de terra não aparecem no tecnobrega. Não se fala de música ou de letras de música, mas dos próprios fenômenos sócio-midiáticos que estão por volta, que falam de uma periferia adocicada, de um paraíso da pobreza, de um povo pobre supostamente autosuficiente, supostamente feliz, "perfeito" na sua imperfeição.

Como é que uma visão que a gente via na Central da Periferia da Rede Globo, na Ilustrada da Folha de São Paulo, é exportada, assim de graça, para a mídia esquerdista, por conta de uma meia-dúzia de ideólogos que, por mais que se digam "sinceramente esquerdistas", julgam o povo como se fossem assessores de imprensa do PSDB? Como eles podem ser "esquerdistas", se mais parecem antropólogos ou sociólogos demotucanos?

Como é que existem pessoas que se gabam tanto de exercer (em tese) o pensamento intelectual de esquerda,

Claro, de repente esquecemos as pesquisas de Mário de Andrade que mostraram a cultura verdadeiramente (mesmo!) popular. Esquecemos os debates realizados pelos Centros Populares de Cultura da UNE. Mas há quem fale em "duplas sertanejas" (breganejo) que estão "fora da mídia". Que fora da mídia?

Como também que fora da mídia é Waldick Soriano, se seu documentário foi dirigido e produzido por uma atriz da Rede Globo? O Globo.Com teve que tirar às pressas a entrevista com Waldick no TV Mulher, em que ele apresentou ideias conservadoras defendeu a ditadura militar, porque vai contra a visão oficial (mas falsa) de que o cantor era um subversivo artista de protesto. Uma visão mítica trabalhada pelo traiçoeiro Paulo César Araújo, que também vai contra uma entrevista que Waldick deu ao Pasquim e que mostrou-se também machista e conservador.

Temos uma mídia de esquerda, mas ainda não temos um grande público de mídia de esquerda. Essa é a verdade. Carta Capital tem o público dissidente da Isto É. Caros Amigos tem o da Folha de São Paulo, sobretudo a claque yuppie de Ilustrada. E esse público está exportando seus preconceitos sociais para o contexto esquerdista, em seus blogs, artigos acadêmicos, opiniões na rua, jornais universitários etc.

É um público que recebeu as ideias da ARENA na mamadeira, e durante muito tempo se identificava com os ideais do PSDB/PFL de forma tranquila e confortável e aí, quando o governo Lula apresentou seus êxitos na economia - gostando ou não dele, há que reconhecer que esses êxitos existem - , eles pularam para a esquerda envergonhados de sua situação original de raiz.

Tornaram-se a "esquerda festiva", no fundo direitistas enrustidos, classe que, por enquanto, é tolerada no convívio circunstancial com os esquerdistas autênticos. Enquanto o debate é concentrado tão somente ao âmbito político, sem considerar que cultura também faz parte da política, todos se consentem quando alguém tenta creditar o tecnobrega como uma "rebelião popular", num discurso confuso misturando clichês esquerdo-intelectuais, mas usando alegações tipicamente neoliberais, tratando a juventude da periferia indo aos clubes suburbanos como um bando de criancinhas indo à Disneylândia para ver o Mickey.

Num país que, no momento, vive um processo de esquizofrenia social, onde as forças do atraso, em vários setores da sociedade, reivindicam sua participação privilegiada no bolo da modernidade e do progresso brasileiros, o Brasil insiste em progredir mantendo a estrutura orgânica mais retrógrada.

Assim, por exemplo, machistas querem se envolver com mulheres emancipadas, mulheres-objeto (as mulheres "atraentes" do imaginário machista) tentam assediar homens intelectualizados, neoliberais enrustidos querem se infiltrar na esquerda, jovens reacionários se dizem rebeldes, e o brega-popularesco cobiça o panteão da MPB. A corrupção quer usurpar a cidadania, o crime quer usurpar a legalidade, o egoísmo quer usurpar a generosidade.

Tristes sinas de um país que surgiu como um "depósito" de degredados portugueses, que quer construir o edifício da modernidade com os andaimes do retrocesso e da mediocridade. A grande mídia golpista já fez sua pedagogia, desde os tempos da ditadura militar, que fez a formação analítica e ideológica de muitos leitores que constituem parte do grande público da imprensa esquerdista.

São leitores que ficam trocando as bolas e entortam o raciocínio. Pois analisam a política mundial com os olhos esquerdistas mas insistem em ver a cultura popular com os olhos filtrados pelo neoliberalismo, do qual o brega-popularesco é parte integrante no Brasil. Queiram ou não queiram os caros amigos.

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