quarta-feira, 25 de agosto de 2010

PARA ENTENDER A MÍDIA GOLPISTA DE HOJE E DE ONTEM



As questões da grande mídia, ligadas a interesses econômicos do empresariado, continuam os mesmos, já que se tratam de interesses de lucro e de dominação social.

Por isso mudam os personagens mas as artimanhas da mídia golpista são as mesmas no passado e hoje em dia. Apenas alguns detalhes mudam conforme o entrelaçado das circunstâncias.

É muito famoso, entre os blogueiros de esquerda do Brasil, o livro de Venício Artur de Lima, Liberdade de Expressão X Liberdade de Imprensa, que analisam as questões da grande mídia atual. É uma coletânea de textos que esclarece o próprio mito de "liberdade de imprensa" difundido ao grande público, muitas vezes em confusão com as ideias de "liberdade de expressão" e seu derivado direto, a "liberdade de opinião".

São confusões que, mesmo independente das discussões em torno do poderio da grande mídia, iludem muita gente e fazem com que, na boa fé, pessoas com pontos de vista muitas vezes sensatos errem em defender a dispensa do diploma de jornalista, achando que isso irá ampliar a liberdade de opinião em nosso país. Certamente, não vai. Opinar é uma coisa, exercer o jornalismo é coisa completamente diferente.

Mas o professor Venício A. de Lima apresenta também as questões do poder da grande mídia, cujo controle social põe vários veículos de imprensa em situações constrangedoras. Como a Folha de São Paulo, Veja e O Globo, na mídia impressa, e os jornalísticos da Rede Gllbo (sobretudo Jornal Nacional), na mídia audiovisual. Para defender suas claras posições ideológicas, esses veículos não raro sucumbem ao mais rasteiro tendenciosismo, onde a simples oposição política ao governo Lula se transforma numa doença, numa paranóia, é uma oposição que não é manifesta dentro dos limites institucionais do jornalismo profissional, mas numa verdadeira campanha de ataque puro e simples.

A grande imprensa também é famosa por condenar os movimentos sociais como se eles fossem criminosos. É irônico, porque é a mesma grande imprensa que tenta "discriminalizar" os criminosos passionais, vários deles assassinos cruéis, mas que chegam até a ser entrevistados, com estranhíssimo alarde na grande imprensa, e tratados sutilmente como coitadinhos tentando reconstruir suas vidas pessoais. Até porque um dos criminosos passionais mais famosos do país é, ele mesmo, um figurão da grande imprensa mais reacionária. E, tão reacionário, tentou resolver um problema amoroso com tiros de revólver.

A crise da grande imprensa se reflete até mesmo nas atitudes malcriadas de Veja, um periódico que há muito é conhecido pelo seu reacionarismo mais neurótico. Tanto que até mesmo a peça Colapso, da Hamilton Vaz Pereira - dramaturgo oriundo do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone - , fez uma menção do poder destrutivo de Veja.

O reacionarismo de Veja - periódico que, mais do que os outros, é o que mais condena os movimentos sociais, atacando até mesmo as populações indígenas - é tanto que a revista é alvo de inúmeros processos judiciais, e vários deles na pessoa de seus articulistas, como o bravateiro Diogo Mainardi que, como uma espécie de Olavo de Carvalho mais pop, teve que deixar definitivamente o país diante para fugir dos recentes processos judiciais. Diogo já morava no exterior, mas ainda passava uns dias no Brasil. Hoje, nem mais isso. O próprio Olavo também vive no exterior, pelo mesmo motivo de reacionarismo apátrida.

Se Venício A. de Lima descreve as questões da grande imprensa de hoje, para entender as manobras da Veja, Globo (TV e jornal) e Folha, ou da existência de "espécimes" como Pimenta Neves e Diogo Mainardi, Aloysio Castello de Carvalho descreve as questões da grande imprensa na Era Jango (cujo projeto político era parecido e até mais ousado do que o do governo Lula de hoje), através do livro A Rede da Democracia.

A Rede da Democracia foi uma cadeia de rádio, TV e jornais que, numa resposta à Rede da Legalidade de Leonel Brizola lançada em 1961, que garantiu a posse de Jango, defendia já em 1963 a derrubada do gaúcho. A cadeia foi organizada pelas Organizações Globo (O Globo e Rádio Globo), pelos Diários Associados (TV Tupi, Rádio Tupi, O Cruzeiro e os jornais associados como O Estado de Minas e Correio Braziliense), Jornal do Brasil e Tribuna da Imprensa.

Naquela época havia toda uma frente ampla revoltada com o projeto audacioso de João Goulart, formada por vários grupos direitistas, como a Campanha da Mulher pela Democracia (CAMDE), o Grupo de Ação Patriótica (GAP), o Comando de Caça aos Comunistas, os grupos direitistas que articulavam estudantes e operários reacionários, e a temível dupla de "institutos" IPES/IBAD (dos quais sobrou o IPES, diante de uma CPI que derrubou o IBAD em fins de 1963).

Além dos notáveis Roberto Marinho, Antônio Carlos Magalhães e Assis Chateaubriand - com o apoio de Victor Civita, da Abril, e Otávio Frias de Oliveira, da Folha, figuras então apenas de âmbito regional paulista, menos famosos que os Mesquita do Grupo Estadão - , os inúmeros manifestantes anti-Jango incluiam até mesmo o então empresário Paulo Maluf, o general Jurandir de Bizarria Mamede (que, nos funerais do general Canrobert da Costa, questionou a vitória eleitoral de Juscelino Kubitschek em discurso furioso em 1955) e o casal Arnon de Mello e Leda Collor, pais de um Fernando Collor adolescente que assistiria feliz à queda de Jango, sem cogitar na época qualquer chance de se filiar um dia ao PTB.

Todos se reuniram na colaboração com o IPES, com o apoio de grupos religiosos conservadores, que financiaram a vinda até mesmo do padre de sobrenome engraçado, Patrick Peyton, do movimento católico Cruzada do Rosário, para a grande Marcha da Família com Deus pela Liberdade no Vale do Anhangabaú, São Paulo, quase uma semana depois de Jango fazer um comício na Central do Brasil, Rio de Janeiro, prometendo a realização plena das prometidas reformas de base.

A Rede da Democracia fazia a pregação com base nesse grande movimento (CAMDE, CCC, GAP, IPES, Marchas, Rosários etc), sempre em textos "opinativos", "palestras" e "análises científicas" falando da necessidade de um golpe militar que (supostamente) disciplinasse o país. Era um braço midiático da campanha já feita pelo IPES com toda a sua roupagem "intelectual".

O livro de Aloysio Castello mostra todo o histórico dessa rede, além da reprodução de artigos nas páginas do livro e na relação de todo o acervo relacionado no CD-Rom que acompanha a publicação.

Dessa maneira, Aloysio Castello e Venício Lima trazem valiosas contribuições para estudarmos e analisarmos o poderio da grande mídia, e entendermos melhor como um grupo de empresários se empenha em transformar a opinião pública num bem privado desse empresariado.

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