segunda-feira, 9 de agosto de 2010

PARA DILMA E SERRA LEREM


Estão rindo de quê? Governar o Brasil não é tarefa fácil.

COMENTÁRIO DESTE BLOG: Este recado é de autoria do experiente Hélio Fernandes, que vivenciou os dois governos de Getúlio Vargas e a ditadura militar, entre outros cenários republicanos marcados por tensões políticas e controvérsias diversas. É um texto ponderado sobre o que é mesmo ser presidente da República, uma tarefa que, sabemos, está a mercê das mais diversas e violentas pressões sociais, políticas e econômicas.

Para Dilma e Serra lerem. ENTENDERÃO? A dilacerante, angustiante e asfixiante missão de um governante. Seja como presidente, imperador, ditador, todos esses títulos se entrelaçam e se confundem.

Por Hélio Fernandes - Blog Tribuna da Imprensa

Governar não é fácil. Governar nunca foi fácil. Governar também não é tão difícil. Em tempos de crise, (quase sempre), é praticamente impossível governar qualquer país, em qualquer época, em qualquer lugar. E os tempos de agora são tempos de crises, e pior: de crises acumuladas pelo desperdício dos recursos do cidadão-contribuinte-eleitor. E essas crises dão a impressão de terem vindo para ficar, somar ou multiplicar.

Em todos os países, em todos os continentes, a todas as horas, assistimos presidentes fazendo discursos, declarações, entrevistas, doutrinando como se soubessem de todas as coisas. Como se fossem autênticos donos da verdade, porta-vozes dominadores das mais diversas soluções.

Está faltando humildade aos governantes. E todos ou quase todos, sempre sozinhos, arrogantes mas isolados, tristes, praticamente desligados de tudo. Não vão a lugar algum, a um cinema, teatro, não andam nas ruas. (Com exceção para Serra, Dilma e outros, quando estão “em campanha”).

Abandonam seus palácios deslumbrantes, suas casas oficiais, dão fugazes passeios, por ruas que antigamente frequentaram.

Uma vez escrevi sobre o já então presidente Vargas, em 1951, quando voltou ao Catete: “Está tentando praticar o exercício solitário do Poder”. Não conseguiu, não sabia governar, a não ser ditatorialmente.

Agora, revendo ou relembrando minhas conclusões e comparando-as com afirmações presidenciais que inundam órgãos de Comunicação do mundo inteiro, voltam as dúvidas, meu pavor se acentua, sinto a necessidade ou a obrigação de reafirmar toda a incredulidade expressa nas análises que já fiz. De todas as falas dos mais diversos (e medíocres) presidentes, reis e rainhas, primeiros-ministros, ditadores, aprendizes de governantes.

Esses governantes insistem na teoria, se encharcam dela em doses cada vez mais embriagadoras mas inúteis, não parecem sequer perceber que é tempo de realizar, de aplacar, de decidir, de transferir (recursos). Tempo de curar feridas de todos os tipos, provocadas pela omissão deles mesmos, todos eles.

Não olham para a frente e sim para trás, não têm a menor ideia do que precisam construir ou reconstruir sobre os escombros que restaram, para que também não se transformem em escombros as raras coisas sólidas que restaram, E isso não se faz com teoria, com boas intenções, com promessas vagas e que não serão cumpridas, o que é a rotina de todas as sucessões de todos os países.

(Nestes tempos de Hiroshima e Nagazaki, quando as vítimas de um homenzinho chamado Truman, dizem que “perdoam mas não esquecem”, e quando a “indústria” mais produtiva e mais lucrativa é a da guerra, lembremos de Einstein: “Se houver a terceira guerra mundial, a quarta será travada com paus e pedras, é tudo que sobrará”. Apesar da credibilidade e da razão de Einstein, continuam se aproximando do limite).

O que é que os governantes esperam? Que o tempo passe mais devagar, para que possam realizar o milagre da fusão de uma utopia puramente literária com a realidade cada vez mais ultrajante para metade da população do mundo? (Mais de 3 bilhões de mendigos, miseráveis, desassistidos e abandonados, que não têm o direito do protesto ou da revolta?)

Quais são ou serão os verdadeiros propósitos dos governantes? Dar a impressão de que vieram para fazer, para multiplicar, para construir ou reconstruir de verdade com o dinheiro do próprio cidadão? Os presidentes (ou que títulos tenham) estão preparados para provocar mais essa ilusão no povo?

Ou pretendem sempre e cada vez mais contrariar o que recomendava Chesterton (saberão quem é? Onde Dilma e Serra, no caso brasileiro, teriam ouvido falar nele?), que ensinava sempre: “Jamais derrube uma cerca enquanto não souber a razão pela qual ela foi colocada ali”.

Todos os governantes, sem exceção, parece que só fazem cavar sem colocar nada no lugar em que cavaram. Sem substituir as cercas que removeram sem explicação e sem motivo. Me apontem um só lugar do mundo onde governar não seja o exercício do medo, da solidão, do isolamento de si mesmo, dominados pela angústia do silêncio.

No mundo de hoje, haverá alguém mais angustiado e assustado do que um chefe de Estado, tenha ele o nome que tiver, exerça as funções que exercer?

***

PS – Hoje, apenas um PS e vai para John Kennedy, pela importância da confissão, e pelo fato de representar exatamente a realidade dos governantes, dos governados e do que a Comunicação transmite para o mundo.

Conversando com seu grande amigo, o historiador Arthur Schlesinger, afirmou quase com lágrimas nos olhos: “Eu quis tanto ser presidente dos EUA. E agora descubro que sou simplesmente um teleguiado dos serviços de Informação e dos órgãos de Comunicação. Só sei o que eles querem que eu saiba. E só vou onde eles querem que eu vá”. Parou, disse o que era mais elucidativo, explicativo e definitivo: “E o mais grave, o mundo inteiro está convencido que eu mando de verdade”.

Pergunta que não pode deixar de ser feita, colocada, quem quiser que responda: existe alguma outra coisa mais DEVORADORA, DESTRUIDORA, ATERRORIZADORA?

Continuando: “Depois de assumir, tenho que garantir com a maior autenticidade. Não dormia de maneira alguma, pois sabia que tudo era da minha responsabilidade, e se acontecesse enquanto dormia?”

É possível que termine amanhã, mas desde já deixo a confissão: em matéria reflexão, ainda nem cheguei à fase da ANARQUIA, a mais pura das ideologias. E da qual tanto têm falado aqui.

A maior e mais intransponível barreira a ser ultrapassada pela ideologia chamada ANARQUIA: já que defendem o NÃO GOVERNO, como irão governar? E hoje, praticamente sem protesto, a IDEOLOGIA PURA, virou sinônimo de baderna, de desordem. O mais comum é as pessoas dizerem: “Isso virou anarquia”. Só que no sentido depreciativo.

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