terça-feira, 17 de agosto de 2010

O MACHISMO DE MAITÊ NÃO É MENOS MACHISTA QUE O DAS POPOZUDAS


MAITÊ PROENÇA - SERÁ QUE ELA VAI DANÇAR O "CRÉU" OU O "REBOLATION"?

Recentemente, Maitê Proença, que perdeu a mãe por conta de uma moral machista vingativa que havia contagiado o pai da atriz (já falecido), no entanto apelou para o próprio machismo para reprovar a possível vitória da presidenciável Dilma Rousseff.

Tudo bem, Maitê acabou se tornando machista. Mas a "esquerda festiva" (no fundo tão neoliberal quanto os globalitários deslumbrados do toyotism dos anos 90) vai imaginar que a Valesca Popozuda é que é feminista, não é? ERRADO!!

Que feminismo é esse, tão oco e tão tolo? Um feminismo que se afirma tão vagamente pela aversão aos homens - muitas vezes consequência da frescura das mulheres jecas - ou pela solteirice forçada das mesmas, a irem e virem para os clubes de subúrbio sem a companhia masculina (quanto muito, só com o irmãozinho bem mais novo, ou o afilhado ou sobrinho), ou porque vive sozinha cuidando do filho?

Me lembro da estarrecedora declaração de Roberto Albergaria sobre as moças da periferia, dentro daquela linha paternalista que cria uma visão estereotipada e domesticada do povo pobre. Sei que estou perto da hora do almoço, e a declaração do antropólogo e professor da Universidade Federal da Bahia é de uma infelicidade sem limites que embrulha o estômago. Mas eu sou jornalista e tenho que ter estômago de aço. Portanto, vamos reproduzir a frase infeliz do antropobundólogo:

"As mulheres militantes, em nome do feminismo, sacaneiam as "miseravonas", as meninas da periferia que querem rebolar. O funk, na Bahia, é um grande espantalho das mulheres cabeça: elas imaginam que aquilo é desrespeito à mulher, que é uma ode à alienação, quando, no fundo, é a forma de viver das mulheres da periferia, que não vão esperar entrar na universidade para se libertarem. Elas se independentizam pelo corpo, pela esculhambação, pela putaria. É uma forma de afirmação como outra qualquer".

Calma, Sérgio Porto!! Calma, Luiz Buñuel!! Sérgio, não se levante do túmulo, sei que você seria um velho de 87 anos e daria umas duras no febeapá militante do professor Albergaria. E, Buñuel, você renasceria das cinzas como um fênix, já que há muito você quer processar o Brasil por plagiar os absurdos do seu cinema.

Como é que um antropólogo pode falar assim com tamanha arrogância, exibindo claro estrelismo? Albergaria é daqueles caras que se preocupam mais em provocar polêmica, se vangloriar disso, e nenhum compromisso tem com a função social de sua profissão.

Num texto que eu tenho sobre ele - coleciono alguns textos pró-popularesco, tenho o "manifesto" da Central da Periferia, o texto do Pedro Alexandre Sanches sobre o tecnobrega na revista Fórum, o texto do Milton Moura sobre o "pagodão" baiano e o texto de Bia Abramo sobre o "funk"; um dia escreverei livro sobre eles, já comprei o óleo para a fritura - , Albergaria ainda falava das "miseravonas" (um nome jocoso) que eram feministas porque iam e vinham dos clubes suburbanos sem a companhia dos homens.

Essa intelectualidade pensa assim sobre o povo pobre. Para eles, o povo não precisa de escola porque "é sábio". É aquela visão que até o economista John Kenneth Galbraith condenava, que é de julgar o povo pobre, que na verdade sofre muito, como se fosse "autosuficiente". E chamar as moças da periferia de "feministas" porque não tem companhia de homens é o mesmo que dizer que um mendigo é rico porque não precisa usar cartão de crédito.

Em vez de classificar o povo como "autosuficiente", os intelectuais de bosta deveriam repensar seus conceitos, que defendem com tanta arrogância, trancados nas quatro paredes de suas repartições. É um absurdo que tenhamos que creditar todo esse circo popularesco como se fosse um movimento "libertário", e achar que as tchutchucas, as "cachorras", as tietes do "pagodão" e as marias-coitadas são "feministas" porque não têm namorado e saem pela madrugada sem companhia masculina.

A população pobre tem problemas, e o machismo que está por trás dos valores brega-popularescos - o professor Albergaria certamente deve ser surdo, por não ouvir os "tapas na cara", "pancadinhas" e "madeiradas" que o "bondoso pagodão baiano", que recentemente voltou ao sucesso nacional pelo "rebolation" - é muito evidente, e as moças da periferia são educadas dentro desses valores machistas, mesmo. Culpa minha, culpa de você? Não.

A culpa é da grande mídia, que veicula desde 1964 esses valores popularescos no Brasil, que transformam o povo pobre numa caricatura de si mesmo, tratado com falsos benefícios que apenas fantasiam os miseráveis com roupas "modernas" de marcas ruins e péssimo acabamento. É como dar apito para os índios, ou presenteá-los com espelhos.

No âmbito das popozudas, símbolo desse pseudo-feminismo que os ideólogos do brega-popularesco, seja Roberto Albergaria, seja Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches ou outros, pregam, os valores machistas saltam tanto aos olhos que quase todas as popozudas têm que ser condenadas ao celibato absoluto, pior do que as noviças católicas (que, pelo menos, são solteiras por conta de um sistema de valores religiosos e por compromissos filantrópicos).

O machismo de Maitê Proença não é menos machista que o machismo de Valesca Popozuda, de Priscila Pires, de Tati Quebra-Barraco. As popozudas, que a mídia empurra como referência de "sucesso feminino" para as moças da periferia, na verdade são expressão de um machismo lúdico, que tenta ludibriar a opinião pública creditando como "feministas" mulheres que mal sabem o que elas realmente são na vida.

E, cá para nós, não dá para ser considerado feminismo as mulheres-objetos nem as jovens moças empurradas para ser o público da música brega-popularesca, como as que gritam alucinadamente em apresentações ao vivo de ídolos do sambrega, do breganejo e do "pagodão", ou aquelas que vão rebolar em "bailes funk".

Afinal, a música brega-popularesca é dotada de valores puramente conservadores, mesmo travestidos do mais caricato populismo.

Um comentário:

Bruna disse...

Falou e disse.

Não há nada pior do que desvirtuar o sentido de feminismo ao conceituá-lo da forma mais avessa e contraditória possível: julgando mulheres-objeto como feministas!!!Isso é o fim!!!

Uma coisa muito comum hoje em dia é dizer que posar nua é uma forma de liberação sexual feminina. Só não entendo como se promover pelo corpo, se resumir a um par de peito (plastificados, o que é ainda pior), servir unicamente como objeto de uso e desuso sexual dos homens e, ainda por cima, reforçar um padrão de beleza que escraviza a mulher em sua condição de objeto consumível que deve a todo custo ser passível de aceitação do "gosto" masculino, pode ser liberação sexual.