terça-feira, 10 de agosto de 2010

A "MÚSICA POPULAR" DAS RÁDIOS NÃO É REBELIÃO DO POVO POBRE


NÃO HÁ UM ESTILO BREGA-POPULARESCO COM O ATIVISMO SOCIAL DE MOVIMENTOS COMO OS DOS SEM-TERRA.

Rola por vários blogs e pelo Twitter uma tese delirante que credita essa suposta "música popular" que rola nas rádios como se fosse a "rebelião do povo da periferia". Vinda de defensores do brega-popularesco que tentam impressionar a opinião pública tentando dissociar essa categoria musical dos mecanismos da grande mídia e da política que a sustentam e promovem.

Essa lorota encheu de milhões de reais os bolsos dos empresários do "funk carioca", e agora enriquece também os empresários do tecnobrega, que reproduziu o discurso funqueiro na medida em que o ritmo carioca, com sua clara superexposição nos veículos das Organizações Globo, se desgastava por não convencer que sua qualidade artística duvidosa e sofrível representava a "genuína expressão do povo pobre".

Pois esse pessoal tenta convencer que toda a música brega-popularesca é a "verdadeira expressão das periferias", desprezando estética, qualidade artística ou mesmo ignorando outros aspectos, que é a tutela empresarial ferrenha e o fato dessa categoria musical sempre mostrar uma visão estereotipada e domesticada do povo pobre.

Neste blog eu apresento vários aspectos deste problema, seria cansativo repeti-los aqui. Mas dá para perceber o quanto é delirante o raciocínio de Sakamotos, Patolinos e outros, que parece sentirem medo quando alguém questiona o império mercadológico de breganejos, sambregas, forró-calcinhas, funqueiros, etc, etc, etc.

E aí eles apelam para teses que, embora insistam em nos convencer que não está relacionada com a grande mídia nem com a política conservadora, se encaixam muito bem no raciocínio neoliberal de nomes como Francis Fukuyama.

Quando dizem que a era de grandiosos músicos vindos dos morros, roças e sertões (como Ataulfo Alves, João do Vale, Marinês, Luís Gonzaga e outros) acabou, eles estão aplicando os mesmos conceitos de "fim da história" de Francis Fukuyama para a música brasileira.

Quando eles dizem que a música brega-popularesca - eles preferem chamá-la de "cultura das periferias" - representa a "verdadeira diversidade cultural", eles aplicam o mesmo conceito neoliberal de "democracia" (a "diversidade" sócio-política, segundo a direita) tão conhecido entre nós.

E o fim das identidades regionais, como o fato do povo pobre não ser capaz de fazer um baião autêntico, mas um engodo que mistura disco music, ritmos caribenhos, country e sanfona gaúcha (que é o que se define como forró-calcinha, forró-brega ou oxente-music)? Defendê-lo, sob o pretexto de que "não existem mais fronteiras regionais como as de outrora", não é adotar o discurso que a direita faz sobre "globalização"?

Então, por que é que esse pessoal quer ser sempre inclinado ao pensamento político de esquerda, se no âmbito cultural se mostram ser estupidamente neoliberais?

Será que eles não percebem o que está por trás dos ídolos do brega-popularescos? Eles tão ingenuamente definem ora como pessoas inocentes e doces, ora como rebeldes indomáveis, numa clara esquizofrenia teórica.

Será que eles não percebem que mesmo os ritmos "mais excluídos" do brega-popularesco foram beneficiados com o patrocínio das elites conservadoras, sejam as ligadas ao poderio político dominante, sejam as ligadas à grande mídia golpista?

Francamente, eles tentam dissociar a gema do ovo, preferindo procurar neste alguns cabelos. Eles fazem um discurso sentimentalóide em prol dos ídolos popularescos, pensando que estão sendo bonzinhos com o povo. Não estão. O que eles fazem é promover uma visão elitista e paternalista da cultura popular, fazendo o possível para que o povo permaneça sempre culturalmente subordinado - "é o que o povo gosta", "é o que o povo sabe fazer" - e se comporte sempre como uma massa domesticada, com seus sorrisos patéticos e com sua ignorância nunca resolvida.

O povo apenas consome os sucessos do rádio, e cria sucessos e estilos popularescos de acordo com o previamente determinado pelo mercado, e os defensores do brega-popularesco metidos a "esquerdistas" querem nos convencer de que isso é a "natural expressão criativa do povo da periferia". Vão mentir noutra freguesia!

Em resumo, eles querem apenas o seguinte: que a cultura do povo seja de má qualidade e nós é que finjamos crer que essa má qualidade é boa.

Mal sabem eles que, dessa forma, eles combatem duramente os movimentos sociais. Apunhalando-os pelas costas.

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