sexta-feira, 13 de agosto de 2010

MÚSICA BREGA: PREVALECE VISÃO "OFICIAL" E FANTASIOSA


A VISIBILIDADE ACIMA DA VERDADE: Tese conspiratória que aponta "subversão" da música brega prevalece na maioria das abordagens.

Na busca pelo Google por assuntos relacionados à historiografia da música brega, infelizmente pude constatar que a tese conspiratória de Paulo César Araújo prevaleceu, por aspectos que em nenhum momento apontam para a veracidade nem para a visão objetiva de sua história.

Em tempos de "marketing da exclusão", em que "o bom é ser ruim", que fez a mediocridade cultural brasileira prevalecer por mais anos mesmo com seu claro desgaste, Paulo César Araújo conseguiu o que queria, convencer a massa de incautos quanto às suas teses fantasiosas sobre a música brega. Eu vi a palestra dele no Centro Cultural Banco do Brasil e ele nem escondeu que escreveu o livro Eu Não Sou Cachorro, Não na condição de fã, por pura tietagem.

De cara, Paulo César Araújo é um sujeito sinistro. Não desperta a menor confiabilidade. Seu semblante, ao mesmo tempo cansado e misterioso, se reforça pelo seu jeito canastrão de escrever sobre a música brega. Ele é mais um aventureiro da historiografia, conforme muitos historiadores do Segundo Império, que desapareceram de nossa memória, mas que eram badalados em seu tempo, na exaltação de supostos heróis da pátria. Mas os estragos eles fizeram, por mais esquecidos que hoje estejam, pois o "heroísmo" que eles exaltavam era tão somente dizimar um país-irmão próspero (o Paraguai), exterminar índios e manter em suas fazendas um regime escravocrata cruel.

Se observarmos bem, Paulo César Araújo é um sujeito conservador. Nem é um escritor brilhante, embora fosse esperto o suficiente para escrever um discurso convincente. Li seu famigerado livro sobre a música brega e achei muito panfletário. Ele chega a usar muitas páginas só para tentar nos convencer de que a canção de Waldick Soriano que deu nome ao livro é uma "canção de protesto". Na cara-de-pau, PC Araújo chega mesmo a comparar essa música com "Opinião" de Zé Kéti.

Mantendo sua cara-de-pau, Paulo César disse, numa entrevista, que não entendia que o historiador da música brasileira, José Ramos Tinhorão, era indiferente à música brega.

Ora, é elementar, caro leitor deste blog: Tinhorão tem uma abordagem que defende a música brasileira de raiz, num enfoque claramente nacionalista (Tinhorão reprova até a Bossa Nova), ele não iria mesmo aprovar a música brega, que não passa de uma junção caricata e diluída de "restos" de tendências fora de moda, como boleros, country, musak e música romântica italiana e francesa, ou então uma versão mofada da Jovem Guarda feita após o seu fim.

Mas mesmo assim prevalece a visão fantasiosa, sonhadora e confortável da historiografia da música brega, conforme pude verificar quando cliquei as palavras-chave "Waldick Soriano" e "ditadura", com o sinal de soma como diz a norma de busca pela Internet.

Paulo César Araújo convenceu muita gente não porque disse a verdade. Mas porque teve visibilidade para lançar sua tese. E que convenceu porque tocou no ponto emocional da classe média alta, pequeno-burguesa, carente de uma forma de tratar o povo pobre de forma paternal e domesticadora.

PC Araújo, por mais que diga que não teve apoio algum, seja das autoridades acadêmicas, seja da mídia etc, pelo menos teve o apoio entusiasmado dos barões da grande mídia, sim. A grande mídia viu no livro de PC Araújo uma mina de ouro, para eternizar e reciclar o sucesso dos ídolos da música brega-popularesca.

Além disso, a analogia entre os primeiros ídolos cafonas e os ídolos do sambrega, breganejo e axé-music que aparecem no Domingão do Faustão e estão entre os líderes do milionário mercado da suposta "música popular" atual, é explícita. Também é notável a analogia entre o discurso de "vítimas de preconceito" atribuído aos primeiros ídolos cafonas e o discurso que se faz a respeito do "funk carioca", apesar de vários ideólogos não creditarem o "funk" (FAVELA BASS) como derivado da música brega.

Só isso faz com que Paulo César Araújo seja agraciado pelo Partido da Imprensa Golpista, que só faltava lhe conceder uma medalha similar ao da Ordem ao Mérito. Mas isso pegaria mal, até porque a visibilidade de PC Araújo depende também de um falso desvínculo à grande mídia, afinal se trata de um marketing da exclusão, quando se fala de cantores e conjuntos supostamente discriminados, mesmo os que fazem sucesso no topo da grande mídia.

É para manter as aparências. Paulo César Araújo fala de ídolos que estão há muito tempo no establishment da grande mídia, ainda que seja uma grande mídia regional. E fala de tendências que movimentam um mercado milionário, que enriquece donos de lojas de varejo e atacado, de redes de supermercados, de latifúndios, de emissoras de rádio e televisão. Mas esse mercado precisa se sustentar tentando negar essa realidade indiscutível. Quem é incauto cai fácil, feito patinho. Porque põe a razão abaixo da emoção.

Por isso, Paulo César Araújo lançou a versão "oficial" da historiografia da música brega brasileira. Beneficiado pela visibilidade sua na mídia e pela habilidade de convencer os incautos. Tanto que essa versão "oficial" ainda vende a ideia, bastante falsa, de que ainda não é a visão oficial nem dominante.

Na ideologia brega, se existe alguma "arte", é sempre a de reclamar sempre de barriga cheia.

Um comentário:

Marcelo Pereira disse...

O "funk" carioca não é considerado brega porque as influêncvias estrangeiras são muito explícitas, bem mais do que no mariachi/country do breganejo, sempre mascarado (no sentido "LoneRanger" do termo) como "moda de viola".

Mas prestando muita atenção, a breguice do "funk" carioca, se não é explícita, é clara, pela tosqueira evidente que não consegue ser escondida pelos seus expositores.