segunda-feira, 30 de agosto de 2010

MÍDIA GOLPISTA CONDICIONOU GOSTO MUSICAL DO POVO POBRE


DANIEL, com Guilherme & Santiago em Barreiros - A "música popular brasileira", na visão dos barões da grande mídia e das oligarquias associadas.

A música brega-popularesca atingiu uma projeção dominante no gosto popular que muitos de nós nos acostumamos a isso. Sem se darem conta da realidade que está por trás, intelectuais com visão claramente etnocêntrica (embora não admitam isso) acham que essa categoria musical é a "verdadeira cultura popular", pelo simples motivo que seus ídolos lotam plateias.

Com claro ódio em relação aos artistas da MPB autêntica dos anos 60 e 70, essa intelectualidade vendida ao jabaculê popularesco - se você acha que também falo de Pedro Alexandre Sanches, acertou - , talvez por algum impulso populista ou visando algum lugar ao sol na grande mídia, exalta a Música de Cabresto Brasileira com todo artifício retórico a que se acham de direito.

Mas por trás disso tudo estão interesses do empresariado do entretenimento, que envolvem de donos de bordéis até mesmo empresários de redes de atacado e varejo, do latifúndio, dos políticos conservadores, dos barões da grande mídia, em promover uma "cultura popular" estereotipada, domesticada e claramente voltada para os interesses neoliberais que acabam por destruir identidades regionais e tentar "recomeçar" a cultura popular do "ponto zero" da música brega de Waldick Soriano e companhia.

Neste blog, questionamos, em primeiríssima mão, todas as alegações falsamente militantes, falsamente modernistas, falsamente antropológicas e falsamente sociológicas dos ideólogos da música brega-popularesca, que nem podem se achar no direito de dizer que ela é desprovida de espaço na grande mídia. Mas acham. Só que os ídolos popularescos aparecem em rede nacional no palco do Domingão do Faustão, e, não fosse a omissão dessa intelectualidade etnocêntrica, esta ficaria num clima de saia justa com a opinião pública. Aí, preferem mudar de assunto, e ficar na sua opinião ranheta que é, isso sim, desprovida de sentido real e coerente.

A mídia golpista inventou a ideologia brega. Até a professora Carmen Lúcia José sabe disso. Segundo ela, a indústria cultural adaptou elementos manjados da cultura popular e referenciais difusos que o povo absorveu da mídia, adaptando para os padrões de mercado. E podemos inferir que, a partir daí, as oligarquias e os barões da grande mídia investiram no crescimento da música brega e na criação de seus derivados, em todo o país, uns mais grosseiros, outros falsamente sofisticados, como plano de domesticar o povo pobre de todo o Brasil através da estereotipação, da diluição e da descaraterização da cultura popular.

Essa realidade é algo que nenhuma alegação intelectualóide ou pseudo-engajada - que chega a se apropriar da imprópria alusão à antropofagia de Oswald de Andrade - consegue desmentir. A mídia golpista estabeleceu as condições para que se desenvolvesse e efetivasse, no gosto musical das classes populares, os estilos estereotipados, apátridas e mercantilistas da música brega-popularesca, do brega original ao "funk", da axé-music ao tecnobrega.

Historicamente, a música brega-popularesca sempre esteve associada a uma visão das elites sobre o que é "cultura popular". Isso é batata. Note a disparidade que temos entre os artistas surgidos nas classes pobres e que se tornaram conhecidos nos anos 40 e 50, gente humilde que fazia música de excelente qualidade, com os ídolos brega-popularescos associados às classes pobres (mas uns originários de classe média), com sua mediocridade artística gritante, de hoje. A música popular autêntica não tinha padrinhos, já a música brega-popularesca de hoje sempre contou com padrinhos ligados às mais ricas famílias que controlam há tempos o poderio político, econômico e midiático em toda parte do Brasil.

É ouvindo os discos, um hábito que poucas pessoas possuem de fato - o pessoal só "escuta" os CDs se distraindo com outras coisas, sem prestar atenção ao que é tocado - , que se conhece a qualidade de uma música. Não adianta cantar junto, porque a voz do ouvinte sufoca o som que é ouvido. Chega desse negócio de dizer que a funqueira tal foi lavadeira, o cantor de sambrega passou fome, a dupla breganeja plantou milho no cafezal mineiro de Goiânia etc, porque se eles fazem música ruim, isso nada justifica.

Ninguém se empenha em investigar quem patrocinou ou patrocina os ídolos popularescos. Se investigasse, se assustaria com o envolvimento das oligarquias regionais, dos barões da grande mídia, dos grandes empresários do varejo e atacado, o que derrubaria de vez a tese de que é "a verdadeira música popular".

Mas a omissão e a ignorância desse aspecto faz com que, por outro lado, intelectuais preguem, da forma mais delirante possível, uma série de lorotas em torno da música brega-popularesca. Fulano lota plateias, está nas TVs e rádios FM de maior audiência, enriquece, aparece até nas colunas sociais, mas o intelectual tal diz que fulano está fora da mídia.

Pior de tudo é que o circo de mentiras bem elaboradas num discurso intelectualóide já começa a apostar em absurdos como falar em duplas "sertanejas" sem espaço na grande mídia. Os caras mal lançam seu primeiro CD em um rincão de Goiás e, só porque eles não apareceram no Domingão do Faustão, não significa que eles sejam discriminados pela grande mídia. E, mesmo que nunca venham a visitar o Faustão, a filosofia de trabalho desses intérpretes é sempre de acordo com os padrões da grande mídia. Se a grande mídia não lhe oferece divulgação, mesmo assim lhe oferece a ideologia, a filosofia de pensamento.

O marco histórico da ampliação da música brega-popularesca para os níveis dominantes que deixam os incautos e os intelectualóides desprevenidos é a farra de concessões de rádios promovida pelo então presidente da República, José Sarney, e por seu ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães.

Não é preciso dizer que Sarney e ACM chefiaram poderosas oligarquias regionais, tendo fortalecido seus poderes durante a ditadura militar e cuja supremacia política foi trabalhada também no desenvolvimento da grande mídia regional.

Além disso, a farra de concessões de rádio promovida pelos dois, entre 1985 e 1987, fez impulsionar, em todo o país, rádios ditas "populares", cujo repertório musical é justamente essa música que intelectuais etnocêntricos como Pedro Alexandre Sanches e Hermano Vianna creditam como "a verdadeira música popular".

Foi o crescimento dessas rádios que fez a "música popular" de hoje ser o que é: domesticada, estereotipada, apátrida, artisticamente medíocre, sem qualquer identidade real para o povo. Quando muito, só existem meros "sabores" regionais: axé-music, oxente-music, tchê-music, "funk carioca", tecnobrega, breganejo, etc. Mas são apenas variações de uma grande mesmice, a música brega-popularesca, ou Música de Cabresto Brasileira, que não significam produção de conhecimento nem de valores sociais, portanto não podem ser consideradas cultura popular de verdade.

Trata-se tão somente de "música popular de mercado", que os barões da grande mídia tanto investiram dentro do projeto ideológico de transformar as classes populares numa massa submissa, patética e domesticada, para assim estabelecer o controle social que garante o sossego das elites, com a redução das tensões sociais que ameaçariam o cenário de privilégios de poder político e econômico das elites dominantes em toda parte do Brasil.

2 comentários:

Lucas Rocha disse...

Se, um dia, os funkeiros invadissem de assalto as vaquejadas do interior de Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Paraná, o que a grande mídia pensava disso?

M.V "Shogun" disse...

Sinceramente dá um enorme desgosto ver o quanto o "gosto" musical do povo piorou.

Dá mais desgosto ainda leio em seu blog que revistas como a Caros Amigos dá espaço a isso.

Não consigo imaginar que forças ocultas ($$$$) sejam capazes de fazer com que algum jornalista ou até um pseudo-intelectual se prestar a elogiar "isso".

E no final, eu que sou visto como um alien ou mal-humorado quando me recuso a permitir que toquem axé ou funk em meu casamento.

Sou obrigado a achar legal, senhores e senhoras dançando o rebolation.

Deprime.