terça-feira, 24 de agosto de 2010

MEGAZINE CHAMOU MICHAEL JACKSON DE "ROQUEIRO"



Eterna criancice da mídia confundir pop com rock. Eterno cacoete de chamar Michael Jackson de "roqueiro", por conta de duas musiquinhas parecidas com rock que ele gravou, que na verdade eram canções de funk autêntico com alguns segundos de solo de guitarra, "Beat it" (tão funk quanto "Superfreak" de Rick James) e "Black or White" (tão funk pós-80 quanto Full Force e DeBarge, por exemplo).

O único sucesso de Michael Jackson mais próximo do rock, todavia, é "Rockin' Robin", do seu grupo Jackson Five. Mas nada que possa inseri-lo numa rádio de rock, afinal rock não é brincadeira de criança. Ou então rolaria até Zezé Di Camargo & Luciano e Dominó nas rádios rock. Há gente que quer ouvir Lady Gaga em rádios de rock, mesmo ela não adotando guitarra alguma! Vá entender...

Chico Buarque gravou mais sambas do que Michael Jackson gravou rock (isto é, coisa parecida com rock) e mesmo assim o compositor de "A Banda" e "Paratodos" não é considerado sambista. "Beat it" é um funk autêntico com solo de guitarra. "Vai Passar" é um legítimo samba-enredo.

Mas esse vício, importado de setores pedantes e desinformados da (decadente) grande imprensa dos EUA, não vê o rock como música, acha que ser rock está ligado tão somente a visual, a moda, a marketing, a fofocas, ou a um comportamento supostamente agressivo. O som nada importa,

Há os burros que pensam que ser rock é fazer música jovem e ser malcriado. Há os pedantes querendo encontrar a tal "atitude rock" onde não tem, como quem procura cabelo em ovo.

Dos primeiros, atribui-se nomes como Britney Spears, Madonna, Michael Jackson e Backstreet Boys como "roqueiros". Ou mesmo bobagens como Double You. Dos segundos, credita-se 50 Cent, Black Eyed Peas, Prodigy e, hoje em dia, Lady Gaga, como "roqueiros". Em um e outro caso, a incoerência é grande.

Quando eu cito que Pet Shop Boys tem mais atitude rock do que Bon Jovi (uma grande palhaçada!), é porque a dupla inglesa na verdade faz parte de um cenário musical que inclui o New Order, é claramente influenciada pelo Kraftwerk (um dos poucos nomes eletrônicos vinculados musicalmente com o rock) e teve um disco com a participação do guitarrista Johnny Marr, um dos maiores do mundo.

Mas fazer como o Megazine (suplemento teen de O Globo), que disse que Michael Jackson é "um nome fundamental para o rock", é um grande exagero. Lembra um idiota do Orkut que disse que "o rock tem dívidas a prestar com Michael Jackson". Michael Jackson não é rock coisa alguma, e ainda por cima os roqueiros têm que pagar alguma dívida a ele?

Houve também outro idiota que disse que Michael Jackson fazia fusão de rock com blues. Deve ter bebido muito e errou o artista negro. Quem fez, de fato, essa visão, foi o grande guitarrista Jimi Hendrix.

Não, nada disso. Chega de pretensão. Michael Jackson foi apenas um notável ídolo de funk autêntico, que nada tem a ver com rock. Foi até um artista promissor, mas nos últimos discos ele andava menos inspirado e mais apegado a escândalos e esquisitices.

Afinal, Michael foi uma vítima do show business e sua obsessão em ser branco e eternamente infantil se deu por conta de uma infância desajustada e das pressões do mundo do estrelato, que, insensível e bruto, faz suas vítimas para depois transformá-las em totens.

A vida de Michael Jackson não foi uma vida rock'n'roll. De jeito nenhum. Foi apenas a vida de uma celebridade com seus acertos, seus erros, pressões, dramas e tragédias.

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