terça-feira, 3 de agosto de 2010

LEITORES DE CAROS AMIGOS FORAM EDUCADOS PELA FOLHA DE SÃO PAULO



QUANDO O ASSUNTO É CULTURA POPULAR, LEITORES DE CAROS AMIGOS EXPRESSAM SEUS PRECONCEITOS SOCIAIS.

"Não adianta lutar contra o brega-popularesco, a maioria do povo gosta". "Não se deve condenar a cultura popular (sic) de hoje, é o que o povo sabe fazer".

São frases muito conhecidas a respeito dos defensores da música brega-popularesca, a suposta "música popular" que domina nas rádios FM e nas emissoras de TV aberta do país. O que é pior, há pessoas que, no plano político, tendem a assumir uma postura ideológica de esquerda, que se estende até mesmo ao tema midiático, mas esbarra quando o assunto é cultura popular. Aí entra o festival de incoerências.

Defender a música brega-popularesca, principalmente as tendências mais grotescas, sejam as do passado (Waldick Soriano, Odair José, Gretchen), seja as do presente (Mr. Catra, Calcinha Preta, Banda Calypso, Parangolé, Gaby Amarantos), e não reconhecer que ela é um produto de mídia, tornou-se lugar comum, e mostra o absurdo de sua visão.

Afinal, a música brega e seus derivados estão na mídia há mais de 45 anos, foi sustentada pela mesma mídia e pelo mesmo empresariado que apoiou a ditadura militar, que também apoiaram governos conservadores como o dos Fernandos, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.

Mas hoje os defensores da música brega-popularesca (o "bolo" que a música brega gerou, com seus inúmeros derivados), totalmente desinformados, fazem beicinho e imploram de pés juntos que a gente acredite que a música brega-popularesca nunca atingiu o mainstream e não há sombra dela nos veículos da grande mídia. Como é que é? Nenhuma sombra dela na grande mídia?

A manobra chega a envolver até mesmo nomes que estamos cansados de ver nas telas da Rede Globo, como Mr. Catra e Banda Calypso. Mas mesmo Waldick Soriano teve uma boa ajuda de uma atriz global, que fez um documentário todo sobre ele e mostrou ao próprio cantor, no final de vida deste.

O desconhecimento desses defensores do brega-popularesco chega ao ponto de ter a cara-de-pau de falar ainda em "mídia alternativa" ou comparar os cafonas em geral (seja o vovô Waldick, seja a netinha Gaby brincando de Beyoncé, seja o titio Bell Marques brincando de ser tropicalista - ou tropicarlista?) com o movimento punk, com a Semana de Arte Moderna, com a Revolta de Canudos. Falam até de "gravadoras independentes" do cenário tecnobrega do Pará. E até o YouTube é transformado em "mídia alternativa". Valha-me, Deus!!

Primeiro, a música brega-populareca representa uma visão estereotipada da cultura popular trabalhada a partir dos interesses das elites dominantes. Pelo seu aspecto confuso, esquizofrênico, domesticado, caricato e apátrida de sua música, de seus valores (que envolvem o culto às boazudas, o comércio clandestino, alcoolismo, religiosidade exagerada, etc), é claro que o brega-popularesco não corresponde à verdadeira cultura popular. Mas dizem que é "a verdadeira cultura popular" só porque lotam plateias, tocam nos camelôs e boates de subúrbio ou vendem muitos discos.

Dá para perceber, na cara do povo pobre, o que essa ideologia brega é capaz de fazer. Pobres com sorrisos frouxos, submissos, conformados, com um jeito patético de falar, emburrecidos, mal-remunerados, sub-alfabetizados. Está na cara que o povo pobre, através desta conduta, está sendo dominado por um esquema de mídia do entretenimento. Será que ninguém percebe?

Segundo, a música brega-popularesca sempre esteve ligada a cenários políticos conservadores. Mas como não estamos em 1964 - quando toda a direita, mesmo heterogênea, poderia se unir contra o trabalhismo de Jango, seja direitona ou direitinha - , a direita se fragmentou, sendo a parte "fraca" (a direita nos seus segundos escalões de liderança e supremacia) obrigada a apoiar de alguma forma o cenário político-midiático de esquerda. Por isso é que andam dizendo agora que a música brega-popularesca é de esquerda. Não é, nunca foi e nunca será. Alguém por acaso conhece o perfil ideológico de Waldick Soriano? Se conhecer, vão decepcionar-se ao ver no cantor um figurão ultra-conservador de direita.

Terceiro, a música brega-popularesca se propagou a partir de uma estrutura de mídia conservadora. A música brega original foi impulsionada por rádios ligadas a grupos oligárquicos regionais. Além disso, desde 1985, quando a música brega-popularesca representou uma ameaça real à MPB e à difusão da cultura popular autêntica, atingindo nos anos 90 uma hegemonia que engana muita gente, isso se deu porque Antônio Carlos Magalhães e José Sarney, ambos barões oligárquicos do Nordeste, distribuíram rádios FM para aliados. Só que agora esses "aliados" desapareceram, não é mais o baronato midiático do Maranhão, nem da Bahia, nem de Alagoas, nem de lugar algum. De repente a mídia politiqueira "desapareceu". E, o que é pior: os caros amigos endossam essa tese absurda.

Chamo a música brega-popularesca de Música de Cabresto Brasileira porque ela foi difundida pelas rádios FM e pelas emissoras de TV aberta, das redes às afiliadas, todas comandadas por grupos oligárquicos. Digam quem é que domina o cenário político e econômico de tal localidade do interior do país. Verão que nem as rádios escapam ao seu controle. A mídia é o sustentáculo de poder das oligarquias. E o entretenimento é o meio das oligarquias controlarem as tensões sociais da população dominada.

Daí a "cultura de cabresto" que representa a música brega-popularesca, a imprensa populista, os programas de TV policialescos, o culto das mulheres-objetos com seus glúteos exagerados, da transformação do povo pobre em uma massa patética e subordinada, condenada ao desemprego, ao alcoolismo, à prostituição, à perda da identidade social que os caros amigos se recusam a ver.

Goteiras aumentam na Casa Amarela, sobre uma eletricidade mal-arrumada que faz os caros amigos perderem a sintonia das tensões sócio-culturais do nosso país.

A "ALFABETIZAÇÃO" CULTURAL DA ILUSTRADA DA FOLHA

A vida não dá saltos. A consolidação da imprensa escrita de esquerda no mercado tem pouco mais de dez anos. A própria formatação ideológica é recente, até porque até algum tempo atrás, a imprensa esquerdista seguia praticamente a mesma linha da revista Isto É só que voltada à esquerda e tentando compreender mais profundamente os movimentos sociais.

Isso se fala em relação aos jornalistas. A situação dos leitores, do público, fica muito mais complicada. Pois o leitor de esquerda é muito raro, e hoje mesmo o público de Caros Amigos, Carta Capital e Fórum ainda é superficial no seu senso crítico. Os veículos ainda não atingiram uma reputação que a edição brasileira de Le Monde Diplomatique (jornal francês de esquerda - não confundir com o conservador Le Monde) e com o jornal Nova Democracia (este, sim, cobre os movimentos culturais sem sucumbir ao popularesco), existente há mais tempo.

Pois um detalhe delicado deve ser levado em conta. O leitor padrão de Caros Amigos foi educado pela Folha de São Paulo, sobretudo pelo caderno Ilustrada e também pelo extinto caderno Mais!. Da mesma forma que o leitor de Carta Capital é o leitor dissidente do antigo público da revista Isto É.

A Ilustrada foi, durante muitos anos, o mais badalado caderno cultural do país. E era o olimpo ideológico do espírito burguês paulista, era a vitrine da arrogância e vaidade de uma classe média alta paulistana, que se achava juíza maior da cultura do nosso país, numa torta interpretação do fato de que foi em São Paulo que ocorreram a Semana de Arte Moderna e o movimento tropicalista (apesar da liderança baiana, ele se projetou em São Paulo).

Foi pela Ilustrada que passaram ideólogos que hoje defendem o brega-popularesco, como Bia Abramo e Pedro Alexandre Sanches. Além disso, a Ilustrada também foi um dos primeiros veículos a difundir o livro Eu Não Sou Cachorro Não, de Paulo César Araújo, primeiro recurso emergencial para evitar o natural desgaste da música brega-popularesca através de um relato panfletário e apologético da música brega "de raiz" e sua comparação com as tendências derivadas de hoje.

A própria Ilustrada se dizia "de esquerda". Como durante algum tempo o próprio PSDB, então marginalizado no contexto político de 1989-1992, se disse "de esquerda". Isso se deu a certo ponto que um jornalista dissidente da Folha, o gaúcho Juremir Machado da Silva, autor do excelente livro A Miséria do Jornalismo Brasileiro, definiu o leitor-padrão da Folha de São Paulo (e, sobretudo, de Ilustrada) de "esquerda ilustrada". E hoje a "esquerda ilustrada" passou a ler Caros Amigos, carregando seu ídolo Pedro Alexandre Sanches pelas mãos ao alto.

OS PRECONCEITOS SOCIAIS DA "ESQUERDA ILUSTRADA"

Daí a formação burguesa que impede essas pessoas de que haja uma compreensão exata da cultura popular, e das tensões sociais que não escapam ao âmbito cultural de nosso país.

Como várias pessoas abastadas e esnobes, elas gostam de ver bagunça e confusão na casa dos outros, mas odeiam ver a bagunça na sua casa. Aplaudem a indignação geral em torno dos conflitos sociais, políticos e éticos no Oriente Médio, mas se incomodam quando falamos das tensões da indústria brega-popularesca brasileira, que envolve poder latifundiário, poder da grande mídia nacional e também poder da grande mídia regional. Afinal, grande mídia não é aquela que tem escritório na Avenida Paulista, mas aquela que exerce, independente de ter escritório ou não em Sampa, sua expressiva parcela de poder e domínio sobre uma população.

Não adianta polarizar o brega-popularesco, jogando para a direita os medalhões do brega romântico "de luxo" (Michael Sullivan, Fábio Jr.), do breganejo, sambrega e axé-music e sua música arrumadinha que aparece todo domingo no Domingão do Faustão, e jogando para a esquerda o "mau gosto" gratuito dos ritmos claramente grotescos, como o "funk carioca", o tecnobrega, o arrocha e o forró-brega, porque tudo isso é brega-popularesco da mesma forma, e mesmo os supostos "excluídos" têm potencial para aparecer na Globo (como muitos já apareceram) ou, se não aparecem, mesmo assim compartilham dos mesmos valores ideológicos difundidos pelo baronato da grande mídia, seja esta nacional ou regional.

Os preconceitos sociais acabam se tornando gritantes. Pedro Alexandre Sanches é hoje acionado, como Hermano Vianna foi acionado há cinco anos atrás, para pregar o ideal da "periferia feliz", num método bem sutil de dominação social das classes pobres, sempre transformando-a numa massa patética, subordinada e domesticada, limitada apenas a "recriar" o que a mídia transmite nas suas regiões.

É preocupante que esses ideólogos que defendem o brega-popularesco falem tanto em "rupturas de preconceitos", quando os preconceituosos são justamente eles. Eles é que querem manter o ideal da classe pobre domesticada, atribuindo a ela uma falsa felicidade, vinda do nada, de pessoas com sorrisos patéticos, conformadas com sua inferioridade social.

OS "CAROS AMIGOS" CONDENAM OS MOVIMENTOS SÓCIO-CULTURAIS

Daí que esse preconceito tipicamente burguês, motivado provavelmente por um medo, por essa intelectualidade "ilustrada", da reação de fúria das classes populares se voltar contra a classe média alta, que faz com que eles apelem para a permanência e prevalência dessa visão domesticada das classes pobres, a ponto dessa intelectualidade pedir para que deixemos o povo "em paz com sua cafonice".

Essa manobra cria sérias contradições, já que a abordagem da cultura popular da coluna "Paçoca", de Caros Amigos, por exemplo, é exatamente igual à abordagem que a Rede Globo fez através da Central da Periferia. Sem tirar nem pôr.

Mas isso seria desmascarar demais o desejo das elites "ilustradas" - com seu preconceito de dondoca chique travestido de "ativismo social" - de ver o povo culturalmente subordinado e domesticado, quase transformado em animais domésticos. Por isso o pessoal faz vista grossa, e, quando solta o alarme, gritam desesperadamente contra nós: "É o que a maioria gosta", "é o que o povo sabe fazer", "não precisa gostar, mas aceitar é de lei".

Como é que, no Brasil em que, noutros tempos, os morros e sertões produziam música de excelente qualidade, hoje temos que defender ou aceitar uma cafonice sem identidade cultural real, sem produção de conhecimento nem de valores sociais relevantes, porque "é o que a maioria gosta" e "é o que o povo sabe fazer"?

Se não devêssemos criticar tudo isso, então por que é possível criticar o poderio da Folha de São Paulo e Rede Globo, que em aspectos quantitativos são "tão populares" quanto a música brega-popularesca e seus valores éticos e estéticos derivados? A "maioria" também "gosta" da Rede Globo, também "gosta" da Folha. A Veja vende horrores e muitos combatem ela. Por que não lutar contra a música brega-popularesca que emburrece gerações de multidões pobres?

Dizer que é impossível lutar contra isso é bobagem. Se não, teriamos que baixar a cabeça e aceitar a Rede Globo ao ponto de submeter a cultura alternativa ao domínio do Multishow, Quem Acontece e Ego (canal pago, revista e portal de Internet das Organizações Globo).

E quem garante que a maioria realmente gosta disso tudo? Essa música brega-popularesca não é veiculada pelas principais rádios de suas regiões? E essas rádios não são controladas por grupos oligárquicos? O povo "gosta disso" por vício, porque foi empurrado a consumir isso que a grande mídia regional determina. A cafonice não é coisa inerente ao povo da periferia. Em 1960, as empregadas domésticas gostavam até de jazz, que havia atingido um surpreendente estágio de sofisticação musical na época.

Negar a luta é negar os movimentos sociais. Aí os leitores de Caros Amigos mostram sua verdadeira formação folhista, condenando os movimentos sociais quando feitos aqui. Querem eles que Caros Amigos se comporte que nem o Jornal Nacional (da Rede Globo) durante a ditadura militar, contrastando as tensões políticas de fora com a pseudo-prosperidade sócio-cultural daqui.

Por isso eles se assustam quando questionamos a "periferia feliz" dos jovens que, feito gado, vão para os eventos que incluem música brega-popularesca, quando questionamos a imbecilização cultural da imprensa populista, quando questionamos o sangue frio dos policialescos da TV, quando questionamos os glúteos enormes das boazudas de plantão (e seu estranhíssimo celibato acobertando um passado amoroso com homens truculentos e até criminosos).

É o preconceito burguês que soa o alarme, com medo de que novas revoltas populares ameacem o sossego dos condomínios onde essa intelectualidade "ilustrada" vive. É o mesmo medo da Regina Duarte na campanha tucana, o mesmo medo de um novo Ataulfo Alves, de uma nova Marinês, de um novo Cornélio Pires, um novo Jackson do Pandeiro, um novo Luiz Gonzaga, um novo Sinhô, botarem ordem na cultura de nosso país.

Como a burguesia "ilustrada" não pode combatê-los, já que eles hoje gozam de uma reputação póstuma inabalável, pregadores da mediocridade musical como Pedro Alexandre Sanches tomam emprestado o discurso de Francis Fukuyama e pedem o "fim da História" para nossa MPB.

Assim como Fukuyama não pode lutar contra Jean-Jacques Rousseau, Karl Marx, Lênin, Rosa Luxemburgo, Emiliano Zapata, Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Abbie Hoffman, Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, ele têm que "reconhecer" seus méritos como entes passados. Da mesma forma, Pedro Sanches, como Hermano Vianna, Bia Abramo, Rodrigo Faour e outros tantos, não podem combater Chiquinha Gonzaga, Donga, Ataulfo, Gonzagão, Cornélio e outros, sendo obrigados a "reconhecer" seus méritos, desde que historicamente isolados no passado.

E, da mesma forma que Francis Fukuyama anuncia o circo feliz do neoliberalismo globalizado, a "esquerda ilustrada", enquanto ainda não apunhala os verdadeiros caros amigos da esquerda pelas costas, pede para que até nós aceitemos o circo feliz da "cultura" brega-popularesca, para o necessário "equilíbro social" que as elites do neoliberalismo à brasileira tanto reivindicam para o sucesso do "sistema". E esse mesmo "equilíbrio social" era defendido com gosto pelos generais da ditadura.

Até quando vai reinar a "ditabranda" do mau gosto, não se sabe. A não ser que tenhamos mesmo a coragem de lutar contra isso.

Nenhum comentário: