domingo, 1 de agosto de 2010

INTELECTUAIS PRÓ-BREGA TÊM MEDO



Os intelectuais que falam bem da música brega-popularesca não sentem o medo diferente de Regina Duarte (que também é o mesmo medo sentido por José Serra). É o mesmo medo elitista, aplicado à música brasileira.

Medo de que surja um novo Ataulfo Alves, um novo Donga ou um novo Cartola no lugar dos cantores sambregas que se limitam a diluir a música de Lionel Richie e similares e a de Luiz Miguel e similares em batidas fajutas de pandeiro e cavaquinho mal tocado.

Medo de que surja um novo Cornélio Pires contar causos e reviver a verdadeira música da roça, no lugar de cantores breganejos que se limitam a diluir a música de Bee Gees em arranjos orquestrais piegas ou, pelo menos, em violas e violões mal tocados.

Medo de que surjam ritmos populares em que a música está acima do marketing e cujos músicos não se comportam de forma ingênua, tola e resignada. Medo que nos morros e sertões voltem a soar fortes os sons das melodias genuínas e expressivas, das letras intuitivamente inteligentes e com dignidade, em vez do espetáculo gratuito do mau gosto de hoje.

Esse medo já falamos. Mas é um medo que se dilui em sonho, em "centrais da periferia" e "paçocas" que mostram uma periferia domesticada, ingênua, patética, numa ignorância convertida no laissez-faire da cafonice reinante, que não tarda a aparecer no Domingão do Faustão depois de tentar ludibriar os leitores da imprensa de esquerda. Por isso temos que falar desse medo novamente.

É o medo que se esconde no sonho da cafonice triunfante. Sonho que já se realizou, mas seus defensores fingem crer que não. Já chegam a acreditar, tão tolamente, que o brega-popularesco está fora da mídia. Coitados, talvez não prestem atenção mesmo às armadilhas da grande mídia. Talvez não saibam da existência do Domingão do Faustão, que a Rede Globo dá de presente aos Pedro Alexandre Sanches que tentam nos convencer de que o brega-popularesco é "a nova MPB".

Ou talvez seja o medo. Medo. Medo. Medo. O medo da realidade da periferia sofredora. O medo de que seus preconceitos de elite venham à tona. O medo deles decepcionarem suas próprias empregadas domésticas.

É o medo desses intelectuais de que a revolta popular volte a soar alto sobre seus ouvidos, mostrando não o povo dócil, inocente e domesticado dos tecnobregas, "funks", bregas de "raiz", axés, forrós-calcinhas ou os grandes ídolos neo-bregas que visitam o Faustão todo domingo. Mas mostrando, isso sim, o povo de cabeça erguida, de voz firme, de real sabedoria de povo pobre, não a pseudo-sabedoria do espetáculo brega-popularesco, mas a sabedoria da fome, da injustiça, da miséria, da carência, a sabedoria do sofrimento que desperta em vez de resignar.

Pois o medo é este, de que venham à tona os problemas do povo pobre, sem retoques nem maquiagens. Medo de ver um povo que não brinca de Madonna, Michael Jackson, de Bat Masterson, que não é o "Frank Sinatra do Agreste", "Beyoncé do Pará", "Lady Gaga dos Pampas".

Medo de ver um povo que, por outro lado, leva a cidadania a sério.

Esse medo muita gente não percebe, porque está escondido num véu de sonho. Mas é o medo desses intelectuais que os faz cozinhar as "paçocas" culturais que Ana Maria Braga servirá semanas depois. A mesma Ana Maria Braga que estava de mãos dadas com Regina Duarte e - tcharam! - Ivete Sangalo nas passeatas do Cansei, movimento que preparou o país para a grande instituição do medo chamada Instituto Millenium.

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