segunda-feira, 16 de agosto de 2010

EU CONHEÇO A PERIFERIA DE PERTO


JÁ FUI VÁRIAS VEZES AO BAIRRO DO URUGUAI, EM SALVADOR (BA).

Sou natural de Florianópolis, Santa Catarina, onde nasci há 39 anos, em 21 de março de 1971. Tenho distante ascendência britânica, por parte de mãe, mas tenho sangue baiano por parte de pai.

Sendo de classe média, eu no entanto posso dizer que conheço a periferia, porque morei em bairros de classe média baixa perto de comunidades populares ou mesmo favelas, e passeei por várias vezes nos subúrbios.

Escrevo isso porque existe o sério problema dos intelectuais que defendem a "cultura" brega-popularesca, entre antropólogos, sociólogos, historiadores, jornalistas, artistas e celebridades, que tanto se gabam em "entender" a periferia, mas só conheciam as comunidades pobres pela televisão ou pelas suas teses de gabinete, ou então em visitas rápidas a certos locais de subúrbio, quase que como verdadeiros turistas estrangeiros. Suas "ciências sociais" de gabinete só convencem quem é realmente incauto para ouvir esses pregadores da cafonice dominante.

Ou seja, esse pessoal que possui a visão que oficialmente se tem do povo da periferia simplesmente não sabe o que são as comunidades pobres, e veem tudo de maneira estereotipada, paternalista, embora eles mesmos, na cara-de-pau, jurem que não veem o povo de forma estereotipada nem o tratam de forma paternalista. Falar é fácil.

Mesmo quando fui criado em Niterói, onde morei por duas temporadas (1973-1977 e 1981-1990) e onde voltei a morar atualmente, ia muito ao município vizinho, São Gonçalo, que praticamente é quase todo um subúrbio. Passando pelo Rodo e indo até Alcântara, dá para perceber o caráter suburbano da cidade fluminense, sobretudo no seu notável comércio popular e nas casas antigas.

Do Rio de Janeiro, conheço boa parte da Zona Norte, seja Méier, Bonsucesso, Inhaúma, Jacaré, Tijuca, e uma vez fui até Cascadura (passando, por conseguinte, em Madureira). Também conheço a Baixada Fluminense, pelo lado de São João do Meriti, Nilópolis, Mesquita e Nova Iguaçu, porque vou muito à casa de meus tios em Mesquita, gente muito, muito boa, tal como meus primos. E sempre me senti bem na casa deles.

Em Salvador, Bahia, onde morei entre 1990 e 2008, passeei por tudo quanto é bairro pobre, ainda que de ônibus. Fui muito à península de Itapagipe, seja Ribeira, Bonfim, Caminho de Areia e Uruguai. Passeei por Cajazeiras, fui para alguns bairros da região devido a compromissos pessoais, mas a maior parte das vezes passeei por linhas circulares dos ônibus que partiam da Estação Pirajá. Também fui duas vezes para o bairro do Marechal Rondon e passei por Pirajá. E também conheço o subúrbio ferroviário (Paripe, Plataforma).

Já fui com meu pai por dentro de uma grande favela na Boca do Rio, perto do Centro de Convenções de Salvador. Já fui de ônibus para Tancredo Neves e Mata Escura, já passei por Pernambués, pelo Garcia, pela Av. Vasco da Gama, cheia de favelas no seu entorno. Já fui para o Calabar, quando fui falar com meu então professor Fernando Conceição. Já passeei muito pela Estrada Velha do Aeroporto, de ônibus, por onde passa por várias áreas populares.

Em vários lugares de Salvador existem casas e lojas típicos de comunidades suburbanas. Eu fui também para Lauro de Freitas e Camaçari, além de conhecer Simões Filho uma vez, uma cidade puramente interiorana.

Falando em interior, eu conheço Feira de Santana e também as cidades de Seabra, Itaberaba e fui uma vez para Lençois, lugar turístico. Conheci Amélia Rodrigues, ainda uma roça dentro da Bahia. E, através do ônibus Rio X Salvador (via Minas Gerais), conheço também cidades como Caratinga e Leopoldina. Ou seja, o interior brasileiro não é segredo para mim.

Recentemente, morei no bairro niteroiense do Viradouro - há quatro meses, moro na parte de Santa Rosa mais próxima do Jardim Icaraí. Minha mudança de residência ocorreu sem problemas, mas foi num período em que a cidade sofria as consequências da tragédia do Morro do Bumba (localizado em Viçoso Jardim, área também que conheci e que visitei muito, quando a comadre de minha mãe morava lá). Mas no próprio Viradouro pude ver a área do Beltrão, do Vital Brazil e, quando pegava o 39 para Piratininga, passar pela área suburbana da Estrada Gen. Castro Guimarães (antiga Estrada da Garganta).

Esse relato é para provar que minha compreensão do povo pobre não é pedante nem paternalista. E para considerar injusta essa exploração caricata que a grande mídia e seus adeptos (muitos deles enrustidos) fazem do povo pobre que, sofrido, não pode se transformar numa massa condenada a parecer pateticamente feliz enquanto sofre o sofrimento que nossos cientistas sociais do brega-popularesco não conseguem enxergar.

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