terça-feira, 31 de agosto de 2010

DEFESA DO BREGA-POPULARESCO ADOTA DISCURSO CONFUSO


OSWALD DE ANDRADE - Público de brega-popularesco nunca ouviu falar do escritor modernista, mas ideólogos mesmo assim o associam a seu universo.

O discurso que os intelectuais que defendem a música brega-popularesca é confuso. Desprovido da visão objetiva e analítica necessária à abordagem da cultura brasileira, todos os discursos apologéticos em prol de estilos como axé-music, "funk carioca", tecnobrega, brega dos anos 70 e outros, apelam para um engodo teórico claramente publicitário, mesmo sob a roupagem ou mesmo a condição formal de teses de pós-graduação e artigos acadêmicos.

Seria alongar demais mostrar uma por uma as provas desse discurso confuso, mas as fontes indicadas, quando lidas com muita atenção, sempre apontam para uma retórica confusa, em que o discurso faz verdadeiros malabarismos para se tornar mais convincente do que coerente. O que mostra o quanto nossa intelectualidade está em crise, porque a elite docente da pós-graduação brasileira, salvo exceções, é tão cheia de frescuras em vetar anteprojetos sérios porque "não são muito científicos", mas aceita publicar textos que não passam de verborragia publicitária.

Mas podemos dizer os textos, para nossos leitores pesquisarem. Tem o texto "Esses Pagodes Impertinentes..." do baiano Milton Moura, na revista Textos de Cultura e Comunicação, de 1996. Tem o texto de Bia Abramo, "O funk e a juventude pobre carioca". Tem o texto de divulgação do programa "Central da Periferia", de Hermano Vianna, disponível na Internet. Tem o texto de Pedro Alexandre Sanches sobre o tecnobrega, "A índia negra branca do Pará". Tem o livro História Sexual da MPB, de Rodrigo Faour, no capítulo sobre "funk carioca". Tem o livro Eu Não Sou Cachorro, Não, de Paulo César Araújo.

Algumas dessas fontes podem ser obtidas nas bibliotecas (inclusive as universitárias, como no caso do texto de Milton Moura, na da UFBA) e livrarias. Mas, é bom tomar muito cuidado: esses textos seduzem o leitor do começo ao fim.

Afinal, apesar da roupagem formalmente intelectual, esses textos NÃO SÃO textos científicos. São verdadeiras mensagens publicitárias. As argumentações neles contidas são desprovidas de sentido real e coerente. Afinal, como atribuir ao tecnobrega uma suposta antropofagia, como escreve delirantemente Pedro Alexandre Sanches no referido texto? O público do tecnobrega não conhece Oswald de Andrade, o pensador da antropofagia cultural. Seria preciso uma minissérie de verão da Rede Globo, para dar uma vaga noção do poeta modernista para o grande público que consome popularesco. Vaga, porque o pessoal, no fim de um dia de Big Brother Brasil, estará com muito sono para acompanhar a hipotética biografia de Oswald na Globo.

As abordagens em prol do brega-popularesco seguem um discurso apelativo. Em primeiro lugar, justificam o sucesso dos estilos brega-popularescos com a alegação de que é "a verdadeira cultura popular", tentando trabalhar a abordagem do hit-parade brasileiro como se fosse um "novo folclore", quando sabemos ser isso impossível, diante de inúmeros mecanismos de mercado que seria cansativo mencionar aqui, mas que já escrevi numa e noutra ocasião (como o texto sobre os donos da música brega-popularesca).

Em segundo lugar, há o recurso etnocêntrico que visa associar os ritmos popularescos (na prática produtos da grande mídia regional, depois difundidos pela mídia nacional de uma forma ou de outra) às tendências folclóricas similares, tal qual se associa um doce enlatado com sabor artificial à fruta que resultou desse produto. Como por exemplo creditar o porno-pagode baiano ao samba-de-roda do Recôncavo Baiano, no texto de Milton Moura, supra citado.

Em terceiro lugar, há o recurso do marketing da exclusão, usando e abusando da ideia de "vítimas de preconceito", e a abordagem discursiva, em todas as fontes indicadas, é defendida da forma mais subjetivista possível, por vezes panfletária (como no livro de Paulo César Araújo), por vezes ofensiva, como na acusação jocosa e esnobe de Milton Moura, que atribuiu o rótulo de "elitista" a quem rejeita o porno-pagode baiano puxado pelo É O Tchan. Mas em uma passagem ou outra, seja no texto de Hermano Vianna, seja no de Bia Abramo, sempre tem uma choradeira contra o dito "preconceito" aos estilos popularescos, e nota-se facilmente um tom de irritação em certas passagens.

Em quarto lugar, é a vez de pincelar o discurso com alegações surreais. Como o tratamento "diferenciado" dado ao "funk carioca", que em várias de suas abordagens apologéticas, não só a de Bia Abramo como a de qualquer outro a falar bem do ritmo brega-popularesco carioca, foi tratado como se fosse uma mistura de Semana de Arte Moderna, Revolta de Canudos, movimento punk/new wave e Tropicalismo. As comparações podem não ser explícitas, mas no decorrer do discurso, são sutilmente trabalhadas, o que torna o discurso surreal, na medida em que a gente, quando toca um CD de "funk carioca", não vê um pingo sequer dessas referências tão ricas supostamente atribuídas ao dito "movimento".

Com essas quatro etapas, trabalhadas não necessariamente nessa ordem - elas dependem do sabor da abordagem feita por cada autor - , resta também certas mentiras, como creditar os estilos brega-popularescos como "discriminados pela grande mídia", quando eles ganham acesso na grande mídia até com extrema facilidade, com as portas escancaradas e tapete vermelho incluídos. É o caso do "funk carioca" e do tecnobrega, trabalhados retoricamente como se fossem "fenômenos sem-mídia", mas que tão rapidamente foram adotados pelas Organizações Globo como seus filhos adotivos tão queridos.

Infelizmente, a frase de Chacrinha - "vim para confundir, e não para explicar" - se aplica a esses defensores da Música de Cabresto Brasileira, na forma mais nociva. São retóricas que não esclarecem, apenas servem para persuadir a opinião pública. O que mostra o quanto muitos de nós se tornam indefesos diante de abordagens tão confusas, onde os argumentos não servem para buscar a verdade nem para resolver contradições. Antes essas retóricas reforçam as contradições, em vez de resolvê-las. As retóricas mais parecem discursos publicitários disfarçados de teses científicas, de reportagens ou manifestos culturais. Só servem para "vender o peixe com mais categoria".

Esses "cientistas sociais" e jornalistas que defendem o brega-popularesco podem ser ruins de fazer teses com honesta objetividade. Mas pelo menos já passaram do teste para, quem sabe, fazer um novo comercial de sabão.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

Será que esses malditos defensores da "música" brega-popularesca fazem a mesma coisa com o "Big Brother Brasil"?