segunda-feira, 2 de agosto de 2010

CUIDADO COM OS DIREITISTAS "ARREPENDIDOS"



O projeto Ficha Limpa, no Brasil, não serve apenas para nos alertarmos para o passado moral de determinado político. Ele incentiva que tenhamos uma mentalidade preventiva, de sabermos o passado ideológico de determinadas personalidades, antes que tomemos como "progressistas" os antigos reacionários de outrora.

Sabemos que a direita ortodoxa, explícita, a direitona, sempre ameaça a democracia. É prepotente, rancorosa, reacionária, seu mau-humor contagia até mesmo comediantes que fazem palestra nos eventos do Instituto Millenium sem mostrar um só senso de humor.

Mas existe aquela direita "come quieto", que finge estar "arrependida" ou então, na maior cara-de-pau, se infiltra nas instituições de esquerda como um ladrão que vê a porta de casa aberta. É uma direita que os críticos da mídia e do jogo político dominante não se previnem, mas é uma direita perigosa, que mostra que a cobra é venenosa por causa do veneno e não por causa da picada que foi dada.

Essa direitinha é o ovo da serpente, de antigos "injustiçados" querendo bancar os "modernos". Uns antiquados, outros apenas conservadores, eles se camuflam nas instituições esquerdistas sem convicção. Não dizem por que nem para quê. Apenas estão lá, pegando carona num prestígio progressista que a esquerda possui.

Desprevenidos quanto ao passado de dadas personalidades, os críticos menos atentos da grande mídia e dos jogos de poder dominantes acabam por cortejar ou mesmo admirar personalidades que, décadas atrás, estavam comprometidas com o retrocesso tipicamente direitista, ou com as correntes claramente vinculadas ao ideário direitista mais explícito.

Vemos os exemplos dos últimos anos, que nem de longe podem sugerir a conversão de certos direitistas para a esquerda, antes um momentâneo surto oportunista de certas figuras conservadoras que tentam defender os valores neoliberais mais sutis, porém pouco conhecidos da avaliação crítica da ideologia de direita.

O engenheiro Jaime Lerner, originalmente vinculado à ARENA (Aliança Renovadora Nacional), o partidão da ditadura, foi até prefeito biônico (nomeado pelo regime militar) e estabeleceu um modelo de transporte coletivo que se baseia explicitamente na política castelista (ou seja, lançado pelo general Humberto de Alencar Castelo Branco no começo do regime militar): controle político rígido do Estado e economia concentrada na iniciativa privada. Não por acaso, a estética visual dos ônibus de Curitiba se assemelha muito bem com o design adotado pelos ônibus das Forças Armadas.

Mas Jaime Lerner, nas últimas décadas, se camuflou em legendas esquerdistas, se aproveitando de alianças e conchavos que se ocorreram nos últimos anos. Ficou com medo de ser visto como neoliberal. Tenta vender sua busologia de gabinete para outras capitais como se ela não fosse um projeto neoliberal, quando os aspectos neoliberais estão muito, muito claros. Só cego não vê.

O ex-prefeito de Salvador, Mário Kertèsz, também é outro lançado pela ARENA e que também foi "biônico". Engenheiro, como prefeito tentou se passar por "arrojado" com um projeto de reformulação urbana da capital baiana que foi propositalmente paralisado, porque Kertèsz e um comparsa (que recentemente andou envolvido no mensalão de Marcos Valério) criaram uma empresa "fantasma" para desviar verbas públicas e fortalecer a fortuna pessoal de cada um.

Mas Kertèsz torrou parte do dinheiro comprando ações de emissora de TV e três emissoras de rádio. O esquema foi denunciado em 1990 e custou a carreira política dele. Mas Kertèsz, feito raposa velha, que já havia ludibriado a esquerda baiana quando, na segunda gestão como prefeito, era vinculado ao PMDB, teve que largar a vida política mas não a politicagem. Virou dublê de radiojornalista, com apetite de ser um barão regional da mídia baiana, algo que o espanhol Pedro Irujo tentou mas esbarrou nas estranhas denúncias de O Globo contra o Sistema Nordeste de Comunicações (estranho um jornal carioca fazer tantas denúncias contra um complexo midiático da Bahia).

Mas pouca gente percebeu. Kertèsz conseguiu enganar as instituições federais, a esquerda baiana, a sociedade baiana, com seu pseudo-jornalismo cheio de clichês e altamente tendencioso. Não o tendenciosismo de defender "coronéis" ou "barões", mas um tendenciosismo das campanhas pseudo-cidadãs, do falso progressismo, dos espaços apenas tendenciosamente reservados à diversidade de opiniões, e ao jeito esquizofrênico do próprio ex-prefeito, convertido em empresário e astro-rei da Rádio Metrópole FM, que tentava mexer no ponto fraco emocional dos baianos.

Dessa forma, o ex-prefeito passou a ser visto como o oposto ao que realmente é. Machista, passou a ser cortejado pelas feministas baianas só porque sua rádio contava com locução feminina na maior parte da programação. Retrógrado, foi visto como o "moderno" homem de mídia de Salvador. Sem habilitação jornalística, foi tido como "grande homem de imprensa". Grotesco, era visto como "classudo". Direitista e conservador, era visto como "progressista de esquerda". E a própria Rádio Metrópole, apesar do nome, mais parece rádio de província.

E tudo isso numa performance caricata e incompetente, de um pseudo-jornalista que apenas imitava momentaneamente os âncoras jornalísticos, feito papagaio de residência. Não conhecia os limites entre uma redação de jornal e uma mesa de botequim, dava cantadas nas locutoras, bajulava entrevistados e fazia comentários jocosos muito grosseiros. Mas obteve um poder de mídia que deixava até a esquerda baiana aplaudindo o demagogo "radiojornalista" que nem foca de circo, o que gerou até um incidente constrangedor.

A Rádio Metrópole virou um circo da visibilidade baiana, enganando e seduzindo muitos. Como rival da Rede Bahia (a direita oficial baiana), a rádio e seu veículo filhote, a revista (e depois jornal) Metrópole, distribuído de graça, tentou cooptar para si todas as vozes oposicionistas da Bahia, e criou uma armadilha que vitimou os veteranos jornalistas de esquerda Oldack Miranda e Emiliano José.

Os dois faziam altos elogios a Kertèsz, a ponto de usarem o mesmo argumento de que a "rádio (Metrópole) dava espaço para a diversidade de opiniões" que li num texto do blog do Ricardo Noblat (direitista). Autores de um livro sobre Carlos Lamarca (ironicamente, em 1971, Kertèsz estava, ideologicamente, do lado dos assassinos de Lamarca), Oldack e Emiliano, ao fazerem apenas críticas construtivas à (então) revista Metrópole, foram espinafrados por um Kertèsz irritado, no ar, em toda a Bahia. Era a época em que Kertèsz rompeu com o namoro (arranjado) com a esquerda, e o (já) jornal Metrópole passou a elogiar o finado Antônio Carlos Magalhães e ser uma metralhadora giratória contra a esquerda (do PT ao PSTU), de deixar a Veja babando. Kertèsz voltou às origens, para desespero de quem não o via como um figurão da direita baiana.

Há também outros casos da vida política. Os tradicionalmente conservadores Paulo Maluf e Fernando Collor contam com um passado que envolvia até mesmo a militância no IPES (o "Instituto Millenium" dos anos 60), instituição empenhada em derrubar João Goulart e instaurar a ditadura militar. Maluf e os pais de Collor militaram no IPES (que teve o apoio de nomes como Antônio Carlos Magalhães, Roberto Marinho, Victor Civita e Assis Chateaubriand).

Mas eis que, nos últimos anos, os dois políticos passaram a cortejar Lula e a posarem de "políticos com alma centro-esquerdista". E, fora quem estivesse atento com o passado deles, nem tão remoto assim, houve quem acreditasse neles como "figuras injustiçadas" de nossa política, direitistas pragmáticos que de repente eram (ingenuamente) reconhecidos como "progressistas", sob o pretexto de que Maluf urbanizou (?) São Paulo e Collor abriu o mercado brasileiro (um pretexto neoliberal, mas defendido por pseudo-esquerdistas).

PAÇOCA NEOLIBERAL - A "bola da vez", na seção do entretenimento, é o crítico musical Pedro Alexandre Sanches. Líder da terceira onda de campanha em defesa do brega-popularesco - quem não se lembra da "Central da Periferia" de Hermano Vianna, cinco anos atrás, e do livro Eu Não Sou Cachorro Não de Paulo César Araújo ainda uns anos antes? - , Pedro Sanches usa como escudo o fato de de escrito em periódicos brasileiros de esquerda. Atualmente ele é colunista da seção "Paçoca", de Caros Amigos.

O grande problema é que Pedro Alexandre Sanches começou sua carreira na temível Folha de São Paulo, sua formação é justamente a perspectiva neoliberal de enxergar a cultura popular, dentro da tradição "alhos com bugalhos" que fez a fama de Caetano Veloso quando este passou a comandar o mainstream musical brasileiro.

Foi a maior pegadinha dos últimos meses. Pedro Alexandre Sanches, sem que as pessoas desconfiassem, analisava a Música Popular Brasileira sob o ponto de vista explicitamente neoliberal, mesmo nas páginas da imprensa esquerdista. E, como um Fukuyama tropicalista, anunciava o "fim da História" da MPB, como se a tradição dos grandes mestres dos morros e sertões, ou mesmo dos universitários pós-CPC dos anos 60/70, acabou, e a antiga música brasileira deu lugar ao atual espetáculo brega-popularesco que domina rádios e TVs.

Isso gerava um violento contraste entre a abordagem política arrojada da imprensa de esquerda e a frouxa e duvidosa abordagem cultural. De um lado, o mundo explosivo e conflituoso das tensões políticas, de outro, a periferia feliz que consome os ritmos do momento, claramente empurrados por rádios e TVs, mas descritos pelo crítico de plantão como se fosse a "verdadeira cultura popular", com alegações claramente paternalistas e etnocêntricas. Uma verdadeira visão de paulista Zona Sul a respeito da cultura da periferia.

CONCLUSÃO - É verdade que antigos esquerdistas, como José Serra, Arnaldo Jabor, Marcelo Madureira ou mesmo o histórico Carlos Lacerda, passem para a ideologia direitista da qual se tornam defensores ferrenhos. Mas é muito difícil haver o caminho inverso, porque antigos direitistas convictos não iriam aderir à esquerda assim de graça.

Eventuais circunstâncias podem até fazê-los se envolver com grupos esquerdistas, mas eles não iriam aderir à causa esquerdista, muitas vezes fazendo silenciosamente o trabalho da direita, como Jaime Lerner e Pedro Alexandre Sanches, sem que qualquer alarme seja soado (a não ser deste humilde blog).

Mas nada impede que esses usurpadores da causa esquerdista, estas vozes dóceis da pseudo-cidadania, possam voltar triunfantes ao olimpo direitista. Nada impede que um Mário Kertèsz da vida tire sua máscara do carnaval progressista e despeje violentos comentários contra a esquerda. Ou que Pedro Alexandre Sanches, tal como um capataz, volte para a imprensa de direita e decida perder o seu medo de visitar o Instituto Millenium.

Temos que tomar cuidado com a direitinha, a verdadeira direita enrustida. Filhote de serpente não é minhoca. O ovo da serpente mostrará uma cobra bem mais venenosa ainda. O problema é que até quando as pessoas vão esperar a picada da cobra para reconhecer seu veneno.

Um comentário:

Marcelo Delfino disse...

Sei não, Alexandre. Maluf e Collor não aderiram à esquerda. Foi Lula e o seu Governo que aderiram à direita. Daí aceitarem de bom grado o trabalho sujo de Maluf, Collor, Sarney, Renan, Barbalho, Cabral Filho (o homem que quer privatizar o Galeão), Dornelles e outros direitões clássicos.

Depois ainda há otários acreditando que Dilma Rousseff seja alguma alternativa de esquerda. Até aquela cavalgadura bolivariana acredita nisso. Será que Hugo Chávez já sabe as críticas que o duque do Maranhão fez a ele no Senado?