quarta-feira, 18 de agosto de 2010

BREGA-POPULARESCO SEMPRE ESTEVE DO LADO DA MÍDIA GOLPISTA



Enquanto a mídia esquerdista monopoliza as questões do jogo político, um veneno tenta se espalhar pelo âmbito da cultura popular, que se torna escrava de uma abordagem tão reacionária e conservadora quanto a abordagem da política direitista.

É preocupante que abordagens caraterísticas da ideologia neoliberal, a respeito da cultura popular, invadam a mídia de esquerda pela porta dos fundos, dissimulada num discurso dotado de clichês intelectualóides. É o veneno que tenta matar a verdadeira cultura popular, que, do contrário que muitos pensam, nada tem a ver com essa "verdadeira cultura popular" dos lotadores de plateias de vaquejadas, micaretas, "bailes funk", "aparelhagens" e programas de auditório.

A música brega-popularesca, desde os primeiros ídolos cafonas até as tendências "modernas" como o tecnobrega, passando pelos medalhões do breganejo, sambrega e axé-music que aparecem facilmente na Rede Globo e na revista Caras, sempre esteve apoiada na mídia mais conservadora, hoje também conhecida como mídia golpista. E fala-se na grande mídia nacional como também na regional, afinal existe grande mídia local, sim, mas certos "caros amigos" se esquecem disso.

"DITABRANDA" DO ETNOCENTRISMO PAULISTA

O problema é que a campanha de defesa da música brega-popularesca, acionada nos últimos anos da Era FHC diante do natural desgaste de seus ídolos, agora tenta se desvincular da grande mídia e dos conchavos político-midiáticos que a sustentam, tentando remendar clichês da retórica esquerdista num discurso claramente neoliberal.

Daí ser estranho ver que o atual símbolo dessa campanha, na sua atual fase envergonhada - envergonhada de ter sido ajudada pela grande mídia e pela política conservadora (lembram da concessão de FMs de Sarney e ACM, que fez crescer as rádios popularescas que hoje dominam o mercado?) - , Pedro Alexandre Sanches, ter migrado tão de repente da Folha de São Paulo (sua verdadeira "escola" jornalística) para a imprensa de esquerda, praticamente sem aviso prévio, sem consulta popular, sem coisa alguma. Assim como é estranho Pedro Sanches defender as mesmas tendências musicais que não tardam de aparecer na Rede Globo e na Folha de São Paulo.

Aliás, as Organizações Globo, o Grupo Folha e o Grupo Abril são responsáveis diretos do crescimento da música brega-popularesca entre o público de classe média. Não fossem os irmãos Marinho e Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches estaria escrevendo para as cestas de lixo e Hermano Vianna não passaria do "hermano" do paralama Herbert.

Não dá para argumentar que a música brega-popularesca é "apolítica" porque os mesmos defensores que usam essa argumentação, dependendo do sabor das circunstâncias, tentam creditar a mesma música brega-popularesca como "ativismo social" (que é um ato político). Vide o caso do "funk carioca". É um discurso de "politização" que, confuso, tem o real intuito de despolitizar e esvaziar o debate sobre a cultura popular.

É uma visão etnocêntrica que, num processo demagógico avassalador, seduz muita gente e cria uma visão oficial de "cultura popular" que não é a visão do povo, mas uma visão paternal e dominante de intelectuais, publicitários, executivos de mídia, políticos, empresários da indústria fonográfica e de redes de varejo e atacado, uma visão etnocêntrica cujo quartel-general são os escritórios paulistas.

Será que ninguém percebe a gravidade de ver a cultura de nossos sertões, roças e favelas ser agora controlada por uma visão etnocêntrica sediada nos escritórios da Avenida Paulista e nos condomínios dos Jardins? Uma visão etnocêntrica que acaba se contagiando até em muitos internautas, jovens que mal acabaram de curtir o horrendo "pop-rock" dos anos 90 para curtir ritmos brega-popularescos e acharem que "entendem" de cultura popular.

ANALOGIAS COM O DISCURSO NEOLIBERAL

Vamos bater na tecla, até todos entenderem. Embora esse discurso esteja em trânsito entre pessoas tidas como esquerdistas, é um discurso neoliberal, mesmo que nele estejam camufladas alegações "esquerdistas" como "expressão do povo das periferias", "discriminação (?) pela grande mídia" etc.

Vamos mostrar, mais uma vez, as alegações dos defensores da música brega-popularesca e fazer a analogia com as várias expressões do discurso neoliberal:

1) ALEGAM QUE A MÚSICA (BREGA-POPULARESCA) É INTEGRANTE DA DIVERSIDADE CULTURAL DE NOSSO PAÍS

Essa analogia é rigorosamente, literalmente e explicitamente igual ao da ideia de "democracia" trabalhada pelo discurso direitista. O paralelismo entre as ideia neoliberal de "democracia" e a ideia midiática de "diversidade cultural" são de uma similaridade surpreendente.

2) OS TEMPOS DA ANTIGA (SIC) MÚSICA POPULAR FEITA NOS ANOS 40 E 50 ACABARAM. AGORA SÃO OS SUCESSOS POPULARES DO RÁDIO E DA TV QUE CORRESPONDEM A NOVA EXPRESSÃO DA CULTURA POPULAR

A analogia dessa visão é exatamente a da ideia de Francis Fukuyama, historiador norte-americano, quando difundiu o conceito de "fim da história". A frase em questão significa que os tempos dos grandes artistas populares, como João do Vale, Riachão, Jackson do Pandeiro, Tião Carreiro, Marinês, Cartola e Pixinguinha, cuja música falava por si só devido à sua excelente qualidade, acabou. É o "fim da história" de Fukuyama aplicado ao âmbito da MPB.

E, assim como o "fim da história" de Fukuyama deu lugar a uma era de "prosperidade" neoliberal, onde não precisamos lutar por cidadania nem por valores sociais dignos, mas tão somente consumir os benefícios do mercado globalizado, o "fim da história" da música brasileira é tão somente o consumo das tendências brega-popularescas, sem mais nos preocuparmos com valores éticos nem estéticos e nem mesmo com a identidade cultural de nosso país.

3) A MÚSICA (BREGA-POPULARESCA) É UNIVERSAL, ESSA DISCUSSÃO EM TORNO DA IDENTIDADE REGIONAL É PROBLEMA SUPERADO, ATÉ PORQUE DE UMA FORMA OU DE OUTRA ELA CONTINUA EXISTINDO (SIC)

Esse negócio de dizer que essa suposta "cultura popular" é "universal" e "conectada com o mundo", na tentativa de esvaziar qualquer debate sobre as identidades culturais, é uma manobra discursiva que coincide perfeitamente com o discurso que os neoliberais fazem em prol da globalização. O discurso neoliberal também fala na "ruptura de fronteiras", na sociedade "conectada com o mundo", e na "simples transformação" das identidades sócio-culturais. Portanto, estilos como a axé-music e tecnobrega têm claríssimas caraterísticas neoliberais, como aliás ocorre em toda a música brega-populaesca de uma forma ou de outra.

4) NÃO VÁ PEDIR QUE VOLTE AQUELA MÚSICA DE ATAULFO ALVES, TIÃO CARREIRO, JACKSON DO PANDEIRO!! NÃO, POR FAVOR!! VOCÊ ESTÁ LOUCO!! VOCÊ É UM SAUDOSISTA DE TRADIÇÕES CULTURAIS QUE NÃO (SIC) FAZEM MAIS SENTIDO!! A MÚSICA POPULAR DE HOJE É POP, ESTÁ LIGADO?

Qualquer semelhança desse discurso com o discurso do "medo" que Regina Duarte lançou em outras campanhas eleitorais NÃO é mera coincidência. É o medo de que a cultura popular das comunidades pobres volte a brilhar pela música em si e não pelo espetáculo e pelo marketing, e certamente a volta da autêntica cultura popular de outrora aterroriza os defensores da música brega-popularesca, porque traz de volta as roças, sertões e subúrbios que essa intelectualidade burguesa têm horror de ver. Afinal, a periferia que eles veem é tão somente a periferia adocicada pelos programas da Rede Globo e suas concorrentes.

5) É UM ESPETÁCULO LINDO VER A JUVENTUDE POBRE INDO PARA OS BAILES DO SUBÚRBIO ONDE ROLAM SUCESSOS DO "FUNK", DO FORRÓ-BREGA, DO TECNOBREGA E SIMILARES. VERDADEIRA EXPRESSÃO DA PERIFERIA, ONDE O POVO OUVE SUA PRÓPRIA MÚSICA.

Mal comparando, é como se fizesse uma tradução para a música brasileira da seguinte ideia: "Felizes, as crianças percorrem a Disneylândia num mundo de sonho e fantasia, com a chance de ver Mickey, Minnie e Donald de perto, numa verdadeira expressão da infância perfeita, onde as crianças se sentem à vontade neste paraíso encantado". Evidentemente, a idealização da periferia transforma as classes pobres numa multidão domesticada e os subúrbios, em pretensos paraísos de sonhos e fantasias.

6) O POVO JUNTA REFERENCIAIS DIVERSOS OBTIDOS DO RÁDIO E CRIA UMA FANTÁSTICA (SIC) LEITURA POP COM SOTAQUE REGIONAL, QUE RESULTA NOS RITMOS POPULARES QUE CONTAGIAM A PERIFERIA.

Discurso lindo, né? Mas é um discurso neoliberal. Quem leu a revista Veja já viu abordagens assim, semelhantes, a respeito do mercado de trabalho. O discurso vejista sempre falava do aspecto positivo das classes trabalhadoras perderem o emprego, porque podem se reciclar e, colhendo um pouco de cada lição, pode assim desenvolver um novo trabalho, ou reingressar no mercado de trabalho com novas habilidades. Como se fosse fácil perder o emprego e arranjar outro, como se fosse fácil arrumar dinheiro para cursos sobre novas habilidades profissionais!...

O discurso oculta a eliminação de identidades regionais pelo poder maciço do rádio e TV (dominadas pelas elites regionais). É um discurso eufemístico, que na verdade quer dizer: "O povo perdeu sua identidade cultural. Agora o povo só tem que ouvir o rádio, colher os restos de cultura que vê pela frente e desenvolver qualquer coisa que venha a se tornar o próximo modismo musical de temporada".

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