sexta-feira, 27 de agosto de 2010

BRASIL É REFÉM DA MEDIOCRIDADE


HÁ 50 ANOS, BRASILEIROS PREFERIRAM O ESPETÁCULO DA MEDIOCRIDADE POLÍTICA EM VEZ DE CONTINUAR O DESENVOLVIMENTISMO.

Parece até filme de Luís Buñuel sobre transporte coletivo. Uma empresa de ônibus da Baixada Fluminense é conhecida pelo seu péssimo serviço, pela sua má administração e sua frota tão velha que representa risco para a vida de passageiros e rodoviários.

Enquanto todos reclamavam da empresa pelas costas, tudo reinava na santa paz. Mas, quando alguém, no caso eu, passou a reivindicar uma solução drástica para encerrar os anos de muito sofrimento de passageiros e rodoviários, surgem pessoas defendendo a empresa, usando desculpas insólitas e até arriscadas, quando a questão não passa além das questões vividas pelos passageiros.

De repente, os passageiros passaram a ser apenas um mero detalhe insignificante, enquanto até fictícias questões de disputas empresariais, ou mesmo a alusão da antiga história dessa empresa de ônibus, são citadas. Criou-se um mal estar pior do que qualquer indignação contra as irregularidades da empresa, que é a Turismo Trans1000 (ou Transmil), de Mesquita (RJ), irregularidades essas que nunca foram inventadas de minha mente, mas colhidas de veículos da imprensa carioca que relatavam também as apreensões dos ônibus da empresa pelo DETRO, órgão fiscalizador de ônibus intermunicipais.

Este é o exemplo do que é a ditadura da mediocridade no nosso país. De repente lutar pela qualidade de vida virou crime, enquanto somos forçados a esperar que medidas irregulares se "aperfeiçoem" não se sabe quando, e eu colho informações da imprensa especializada - a verdadeira "culpada" pela campanha contra a Transmil - e sou culpado. Como passageiro, me sinto humilhado por rodar em ônibus inseguros, com pneus carecas, e de repente tornei-me vilão da busologia por causa disso.

Me lembra um caso que eu tive relacionado ao radialismo rock. Houve uma rádio no Grande Rio que explorava o segmento rock da forma mais incompetente e arrogante, a Rádio Cidade. Eu escrevia textos, em alguns sites meus sobre rádio, baseados nos conceitos de rádio de rock de Luiz Antônio Mello, José Roberto Mahr, Kid Vinil, Fernando Naporano e Leopoldo Rey, e fui espinafrado pela suposta "nação roqueira" da Rádio Cidade e sua congênere paulista, a 89 FM, gente que parecia ter saído dos quartos sombrios do Comando de Caça aos Comunistas, tal o seu reacionarismo.

Eram pessoas que, em fóruns diversos da Internet, se diziam "roqueiros rebeldes" só porque falavam palavram e xingavam impropérios. Mas quando falavam em política, pediam o fechamento do Congresso Nacional, uma solução bem golpista. Condenavam a leitura de livros, e de cinema só aceitavam os filmes de pancadaria e terror, aceitando apenas aqueles com temática relacionada ao rock, por uma simples formalidade.

Hoje o pessoal da Rádio Cidade e 89, com o colapso da cultura rock no Brasil, migrou para o "funk carioca" e o "sertanejo", respectivamente. Desfilam seu reacionarismo sob as bênçãos da mídia golpista, através da Beat 98 (Organizações Globo) e Nativa FM paulista (dos mesmos donos da 89, cujo pai foi filiado da ARENA).

São dois exemplos de como a mediocridade faz do Brasil seu refém. Mas não são os mais típicos. Há o machismo que, por diversas vias, empurra a mediocridade social dos executivos e profissionais liberais sisudos, ótimos profissionais mas chatíssimos no lazer e no convívio familiar; o machismo sanguinário dos criminosos passionais, medíocres no trato e na tentativa de (re)conquistar uma mulher; no machismo das boazudas, com seus corpos exagerados, mulheres medíocres sem personalidade, por vezes brutas, por outras tolas, mas sempre burras e vulgares.

Há a mediocridade política, em que todos parecem defender igualmente a cidadania e o bem-estar social, mas ninguém faz por onde. Há a mediocridade educacional, dos analfabetos funcionais. Há a mediocridade cultural, do brega-popularesco. Há a mediocridade que faz as pessoas abandonarem seus ideais, seus princípios e sua ética em prol de vantagens fáceis e imediatas.

Há a mediocridade de pessoas burras e estúpidas que se dizem "inteligentes" por razão nenhuma. E mesmo assim se acham donos da verdade e, quando são criticados, partem para a ofensiva, com palavras jocosas, violentas, chantagistas, irônicas, como que numa prática de bullying verbal, ou numa espécie de versões textuais do Comando de Caça aos Comunistas, um dos maiores símbolos de reacionarismo juvenil da história recente de nosso país.

O Brasil tornou-se refém da mediocridade e o pior é que, em pleno século XXI, há quem nos aconselhe a ficar calados e há quem deseje e se empenhe em ver o Brasil se modernizar dentro das estruturas podres do atraso.

Há sempre aquele papo, "não é aquela maravilha, mas é melhor que nada", "sei que isso está uma m..., mas deixe estar, vamos esperar que isso vai acabar", "não é 100%, mas é cem por cento". Em todo caso, todos têm medo de lutar pela qualidade de vida e, se alguém luta por elas, é espinafrado. "Ah, você quer ver as coisas perfeitinhas, né?", "Você é um banana quando luta por coisas assim" ("coisas assim" é o que esses reacionários chamam de melhorias de verdade).

É através dessas mediocridades que figuras sórdidas do meio político, por exemplo, sempre estão em vantagens plenas. Fernando Collor, José Sarney, ou mesmo Paulo Maluf, apesar das punições recentes da Justiça. Ou a mediocridade do futebol brasileiro, mais próximo do futebol de várzea, tido como a "única alegria do povo". Argumentação esta tipicamente medíocre, pois o medíocre é que vem com esse papo de "única alegria", sua baixa auto-estima é justificada por mil desculpas, a incapacidade de buscar outras alegrias, de buscar coisas melhores.

Aliás, a busca de coisas boas e melhores, de valores edificantes, de qualidade de vida, é condenada pelos arautos da mediocridade, urubus fantasiados de canários, falando mansinho quando as circunstâncias permitem. Quando são contrariados, partem para xingações, desaforos, ou mesmo mensagens de e-mail que, falsamente amistosas, escondem um perigoso vírus de computador. São tão reacionários que, por mais que usem mil disfarces (que variam do visual de surfista aos bótons com a imagem de Che Guevara), não podem nem conseguem desmentir seu reacionário digno dos direitistas da Universidade Mackenzie naquele sangrento conflito da Rua Maria Antônia, em Sampa, 1968. Bóris Casoy que o diga.

Você chega a ser obrigado a abrir mão até do prazer e do direito de escolha. Se você é homem e a moça que está a fim de você é sósia de Tati Quebra-Barraco e você não a quer, as pessoas lhe ridicularizam, lhe chamando de "preconceituoso". Você não gosta, mas tem que aderir, em nome da "inclusão social", da "superação (?!) das diferenças" ou mesmo da "magia do amor". Se o homem não gosta de mulheres assim, ou nem mesmo de uma Priscila Pires, porque não se afina a elas, para os outros isso não importa, o cara tem que aceitar de qualquer maneira, senão a humilhação é certa.

E se você é mulher e o homem que lhe assediou é rico mas cometeu um crime passional antes, você é obrigada a aceitar pela pressão interesseira da sociedade. Se a mulher não aceita, ela viverá em pleno risco ou, na melhor das hipóteses, será vista como idiota pelas amigas.

Para os defensores da mediocridade reinante, temos que perder o preconceito de tudo, menos do nosso próprio prazer. Nosso pecado acaba sendo o do desejo e do direito de escolha. Temos que esperar que algo ruim seja apenas "um pouco menos" ruim do que agora, mesmo que estejamos à sorte de eventuais malefícios ou restrições. E mesmo que essa espera seja por tempo indeterminado.

São fantasmas de 1964 rondando o país. Gente que não quer lutar pela qualidade de vida. Gente que, demagogicamente, diz "o país está perdido mesmo, vamos nos agarrar a uma causa ou um fenômeno (medíocre), que é a única coisa que devemos fazer". Gente metida a humanista, a pragmática, a todo pretexto supostamente elevado, mas sempre desejando o pior para o país e seus indivíduos. Ou, pelo menos, o "menos pior" (sic).

É gente que não quer melhorias, quer apenas que o circo das desigualdades sociais seja tolerado com alguns paliativos. Gente que quer remendar os problemas, e não resolvê-los. Gente que se ofende quando outro pede soluções melhores, mas que não são esperadas pelo status quo da mediocridade. Gente que se irrita quando os totens da mediocridade cultural são criticados, mesmo de forma construtiva, como é o caso de cantores de sambrega e breganejo cujos defensores ganharam o apelido de talifãs tal a sua fúria intolerante e reacionária.

Fico triste com isso. Parece que há miniaturas de AI-5 (ou AÊ-5, conforme o colóquio da "galera"?) em vários setores da sociedade. Os fantasmas de 1964 renascem neles que, quando são jovens, se passam por "progressistas" mesmo com ideias reacionárias. Afinal, o filhote não nasce longe do ninho: as forças que defenderam o golpe militar de 1964 e a ditadura militar falavam em "democracia" e "liberdade", ideias que na prática combateram até com certa energia e crueldade.

Mas jutando isso a um lamentável passado histórico de nosso país, dominado por latifundiários desde o período colonial, pouco depois do país ter nascido como um "depósito de lixo" de Portugal (que despejava degredados - como se chamavam bandidos, arruaceiros e loucos naqueles tempos pós-medievais - no novo continente), uma trajetória de sub-desenvolvimento social por conta da hegemonia capitalista primeiro do Reino Unido e depois dos EUA, e que num passado recente, há 50 anos, fez o povo brasileiro jogar fora todo um processo de desenvolvimento sócio-econômico promovido por Juscelino Kubitschek, só porque seu candidato à sucessão era um marechal aparentemente sisudo e sem carisma, que foi o nacionalista Henrique Lott.

O povo preferiu escolher Jânio Quadros, que mais parecia um primo pobre de Groucho Marx com trejeitos dos Três Patetas. Jânio tinha um projeto político esquizofrênico, que misturava uma política interna de direita com política de relações exteriores de esquerda. Fez uma política de arrocho salarial violenta, mas condecorou Ernesto Che Guevara (o mesmo bajulado pela juventude reaça enrustida de hoje).

Resultado: o país perdeu a cabeça e as forças reacionárias que se deslumbraram feito crianças mimadas com a visita de Franklin Roosevelt ao Brasil - raiz de toda uma mentalidade neoliberal que ainda hoje tenta fazer barulho no país - , em 1941, e que lutaram contra as conquistas nacionalistas de nosso país, aproveitaram para pedir o golpe já em 1961, conseguindo o feito em 1964 e, de forma ainda mais cruel, em 1968.

Para piorar, essas forças reacionárias se fragmentaram. Tentam se camuflar numa falsa diversidade de versões, com algumas abordagens inseridas equivocadamente nos espaços de expressão esquerdista, como é o fato da defesa da música brega-popularesca (historicamente associada às velhas oligarquias).

Afinal, a defesa da mediocridade tenta assumir um verniz "progressista", mas é a mesma mania de querer que o Brasil sempre progrida sob as bases apodrecidas do atraso, que nos obrigarão a aceitar ônibus caindo aos pedaços, músicos sem talento verdadeiro, mulheres-frutas, pseudo-radiojornalistas baianos, políticos corruptos "arrependidos", machistas sanguinários posando de coitadinhos, rádios pseudo-roqueiras, jovens reacionários pseudo-rebeldes, programas de TV imbecis, e por aí vai.

Como dizem os mais velhos, é por isso que o Brasil não vai para a frente. Porque sempre tem alguém puxando para trás. Em todos os setores da sociedade.

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