quarta-feira, 7 de julho de 2010

TEXTO DE BIA ABRAMO VAI CONTRA OS MOVIMENTOS SOCIAIS


BIA ABRAMO ENTRA EM CONTRADIÇÃO COM A MISSÃO ESQUERDISTA DE DEFENDER AS LUTAS SOCIAIS

É muita incoerência que o discurso político da mídia esquerdista se desencontre com o discurso cultural. Este, mais alinhado para o pensamento de direita no que diz ao julgamento do povo pobre, aposta na defesa de tendências do grotesco, com forte apelo popularesco, que apesar de supostamente anunciadas como "movimentos sem apoio da mídia" ganham o apoio imediato, até automático, da própria mídia conservadora combatida pela mídia esquerdista.

Bia Abramo, no famoso artigo "O funk e a juventude pobre carioca", dotado de uma visão claramente etnocêntrica em relação ao povo do Rio de Janeiro, faz argumentações discutíveis em todo o texto. No conjunto da obra, o texto entra em contradição com a missão esquerdista de seu pai, Perseu Abramo, e de seu tio, Cláudio Abramo, ambos figuras combativas e corajosas da imprensa de esquerda, que defenderam o autêntico jornalismo em pleno regime militar.

Não vamos aqui fazer a análise de todo o texto, mas de duas contradições fortíssimas que complicam a situação da jornalista, tomada daquela mentalidade yuppie de Ilustrada que revelou tanto picaretas como Pepe Escobar quanto fez escola para gente como a própria Bia e Pedro Alexandre Sanches, entre outros que atuaram e ainda atuam no periódico do empresário e dublê de jornalista-intelectual Otávio Frias Filho.

A primeira contradição aparece logo na frase que anuncia o texto:

"O funk, assim como a axé-music, o rap e a chamada música sertaneja , sofre os efeitos de uma espécie perversa de exclusão estético-ideológica do que se chama de MPB".(grifo meu)

Nem é preciso dizer que perversa foi Bia Abramo nesta frase infeliz, já que nos convida para o desprezo estético com base na ideia de que "é o que o povo sabe fazer". Mas o que chamou a atenção foi a inclusão da "música sertaneja", ou melhor, o breganejo, na retórica de defesa da filha de Perseu Abramo.

O que Bia não sabe, ou talvez não queira saber, é que o breganejo representa, no plano da música, as mesmas forças sociais, econômicas e políticas que oprimem o povo pobre, seja pela opressão econômica, seja pelo controle social da mídia, seja pela violência que dizimou milhões.

A "música sertaneja" é claramente ligada aos grandes proprietários de terras, não pode ser confundida com a música caipira autêntica, hoje ameaçada de desaparecer. A geração de 1985-1990 que se celebrizou tocando para Fernando Collor na sua vitória eleitoral de 1989 representa os interesses das tradicionais oligarquias do latifúndio. De Bruno & Marrone até os "universitários", o breganejo passou a representar também os interesses emergentes dos novos latifundiários, que são os jovens fazendeiros do agronegócio.

Por isso Bia Abramo se contradiz com sua solidariedade a um estilo musical que simboliza exatamente o oposto ao foco de defesa do seu pai e do seu tio, que como jornalistas eram comprometidos em defender a luta dos movimentos sociais, principalmente contra a concentração de poder econômico que, nas zonas rurais, se expressa pelo latifúndio.

Outra frase de Bia Abramo a põe novamente em contradição com a luta dos movimentos sociais, ao se solidarizar com o mau gosto como uma suposta provocação aos valores moralistas:

"Aos muxoxos dos moralistas estéticos juntaram-se as exclamações da patrulha dos costumes. "Denúncias" escabrosas que davam conta de "orgias" e sexo desregrado nos bailes funk apareceram na imprensa e várias autoridades apressaram-se em tecer considerações alarmadas2. As tais denúncias versavam sobre menores fazendo sexo, sexo sem proteção, gravidez precoce, nada muito diferente do que acontece todos os dias em outros grupos juvenis e não apenas entre as classes populares. Ao mesmo tempo que os meios de comunicação abriam espaço para que os dedos da moralidade apontassem o escândalo, a mesma mídia estava explorando o sensacionalismo sexual que se criou em torno do funk, inventando novos objetos de babação masculina como a "Enfermeira do Funk" e exibindo meninas em trajes sumários executando coreografias explicitamente sexualizadas. Novamente, nenhuma novidade – antes das garotas do funk, tivemos as bundas do Tchan e as mascaradas de Luciano Huck. A única diferença, na verdade, foi a magra vitória feminista que o Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo conseguiu quando, preocupado com o aumento de casos de assédio sexual e com a erotização da imagem das enfermeiras profissionais, anunciou que ia entrar com uma ação contra o empresário Alexandre Frota e assim impediu que a "Enfermeira do Funk" fosse exibida em capas de revista e na televisão (o empresário, entretanto, não perdeu tempo e transformou a "Enfermeira" em a "Proibida do Funk" e também lançou uma nova personagem, a "Ninja")". (grifo meu)

Isso é extremamente grave. Filha e sobrinha de jornalistas comprometidos com os movimentos sociais, Bia, num discurso paranóico que estabelece a psicologia do terror, chamando de "patrulha dos costumes" as pessoas que se dedicam a apenas reprovar os abusos da libertinagem, a ponto de escrever em defesa a uma dançarina que faz gozação contra uma categoria profissional das mulheres, no caso as enfermeiras.

Aqui, Bia Abramo comete deslizes que complicam ainda mais sua situação:

1) Defendendo a "Enfermeira do Funk" e ironizando a luta das feministas como uma "magra vitória" judicial contra a dançarina, Bia acaba agindo contra a luta social das mulheres, sobretudo com a luta das enfermeiras que, muitas vezes, chegam a trabalhar nos feriados e vão e vem de casa ao trabalho em longas distâncias, até mesmo de trem ou de ônibus lotados.

2) A posição de Bia Abramo também vai contra a luta dos movimentos feministas como um todo, desqualificando a mobilização das mulheres contra a violência, a opressão e a exploração pelo machismo, na medida em que trata as feministas como se fossem moralistas paranóicas e dá total apoio à vulgarização aberta da mulher, como se o fato da mulher, no "funk carioca", ser tratada como objeto fosse sinal de "liberdade de expressão" e "emancipação social".

3) Bia Abramo acaba violentando a ética, na medida em que consente que no "funk carioca" e mesmo em fenômenos como É O Tchan haja a pornografia aberta, sem medir escrúpulos para permitir a "suruba" das adolescentes nos "bailes funk", enquanto que aqueles que reprovam tudo isso são tidos como "moralistas", "patrulheiros dos costumes".

Aliás, essa acusação de moralismo é outra incoerência que já explicamos em outras ocasiões. Acusadores desta espécie acabam por cometer o equívoco de ver a sociedade atual como rigorosamente igual à de cem anos atrás. Não há como comparar o rigor moralista do início do século XX, de uma aristocracia dotada de valores sociais muito fechados, com a nossa atual reprovação da vulgaridade do grotesco, fruto de uma sociedade preocupada com a crise de valores morais e éticos.

Mal comparando, é como se nós fôssemos horrorosamente moralistas condenando a corrupção política, porque nossos acusadores comparam nossa posição com a dos aristocratas dos séculos XIX e XX que açoitavam ladrões de galinha. Evidentemente, nada a ver uma coisa com outra.

Bia Abramo foi tão infeliz na sua posição que o texto, até pouco tempo atrás publicado na Fundação Perseu Abramo, foi tirado do site. Mas, antes disso, acabou sendo resgatado por um blog funqueiro (do qual coloquei o link), que serviu de fonte para este questionamento.

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