segunda-feira, 5 de julho de 2010

POVO GANHOU ESTIGMA DE FAZER MÚSICA RUIM


INTELECTUAIS TÊM MEDO QUE SURJA DO MORRO UM NOVO JACKSON DO PANDEIRO.

Em outros tempos, o povo pobre fazia boa música. Música de verdade, em total respeito à linguagem das melodias, das letras, da voz e dos instrumentos. Era realmente um ato intuitivo, autodidata, simples mas também vigoroso, com sua força artística de arrepiar. Tanto que muitos sambistas do morro chegaram a ser usurpados por cantores românticos que compravam suas músicas mas omitiam os créditos originais.

Desde 1964, porém, a situação mudou. Enquanto os ritmos populares produzidos pela população pobre, por um simples erro de interpretação, passaram a ser associados a uma elite de universitários de classe média - mito reforçado com a geração pós-tropicalista da MPB com seus trajes hippies - , o povo, entregue à colcha-de-retalhos cultural do brega-popularesco, que dizimou identidades regionais e baixou a qualidade artística e todos os valores associados, passou a ser associado a essa mediocridade cultural que, na verdade, foi imposta e patrocinada pelas elites, dos empresários de boates aos barões da grande mídia.

A imagem injustiçada da música popular autêntica como associada às elites universitárias de classe média se deu porque o diálogo promovido pelos Centros Populares de Cultura, da União Nacional dos Estudantes (CPC-UNE), foi interrompido com o golpe de 1964 e pela cassação da entidade, que ainda teve a sede incendiada por membros do Comando de Caça aos Comunistas.

Com o diálogo interrompido, a cultura de massa promovida pelas oligarquias regionais, donas de meios de comunicação, e que já dominava o povo nas zonas rurais, passou a dominar ainda mais, crescendo nos subúrbios e até mesmo nas zonas urbanas com a música estereotipada, caricata e apátrida do brega-popularesco.

Enquanto isso, o diálogo interrompido dos CPC's da UNE fez seus membros iniciarem uma frente ampla com os antigos desafetos da Bossa Nova e, juntos, fundiram o legado da música popular de raiz com a sofisticação bossanovista e iniciaram o movimento que chamaram de MPB, Música Popular Brasileira, feita predominantemente por jovens universitários de classe média.

Isso criou um mal-entendido que tornou-se a "visão oficial" da problemática que atinge a música popular, e que num futuro próximo seja resolvido pela avaliação crítica dos alunos através do projeto MPB nas Escolas.

De um lado, a qualidade musical tão associada à música de nosso povo hoje passou a ser vista como um "privilégio" de músicos abastados de orientação pós-hippie. Isso fez com que a MPB pós-1965, simbolizada sobretudo por Chico Buarque de Hollanda, fosse vista como "elitista" e "discriminatória".

Enquanto isso, a rica música popular de nomes como Jackson do Pandeiro, Marinês e Sua Gente, Luís Gonzaga, Ataulfo Alves, João do Vale, Tião Carreiro, Teixeirinha, Cascatinha e Inhana, Cartola, Nelson Cavaquinho, Sinhô e Adoniran Barbosa, entre tantos outros, passou a ser associada à falsa ideia de uma música folclórica fossilizada, apreciável tão somente por estudiosos saudosistas.

Isso cria um rancor em parte da intelectualidade paulista em relação à MPB pós-1965 cujo acervo só eles ouviram integralmente durante anos. O grande público só tinha acesso parcial à essa geração da MPB, sobretudo por intermédio das trilhas de novelas e dos musicais da televisão de maior audiência.

Esse rancor não poupava sequer o saudoso mestre Tom Jobim, ou mesmo a também falecida Elis Regina, mas os alvos preferidos eram Chico Buarque e Ivan Lins. Milton Nascimento e Djavan eram poupados para que a ojeriza intelectual não fosse interpretada como crime de racismo.

Como um certo revanchismo, temperado com um julgamento etnocêntrico das classes populares, gente como Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Bia Abramo, Pedro Alexandre Sanches, Milton Moura e Rodrigo Faour passou a cortejar a música brega-popularesca creditando a ela uma suposta redenção das classes populares.

Deste modo, como Francis Fukuyama adaptados ao âmbito da cultura popular, eles decretaram o "fim da história" da antiga música popular. Não temos mais Jackson do Pandeiro, temos o "rebolation" do Parangolé. Não temos mais Marinês e Sua Gente, temos o forró-brega do Calcinha Preta. Não temos mais Jararaca e Ratinho, temos a pseudo-sofisticação de Chitãozinho & Xororó. Não temos mais Ataulfo Alves, temos Alexandre Pires mal indo além da imitação mista de R. Kelly com Luís Miguel.

Só que essa atitude "generosa" dessa intelectualidade, em vez de ajudar na preservação e valorização da cultura popular, age muito pelo contrário. E torna-se inútil Pedro Alexandre Sanches e Bia Abramo defenderem a causa sob um suposto contexto de mídia esquerdista. Isso porque é justamente a mídia conservadora que primeiro investe no apoio e no sustento do sucesso dos ídolos do brega-popularesco, chegando a ponto de, não raro, a inventar os próprios ídolos, sobretudo nos chamados "grupos com dono" da axé-music, do pagodão e do forró-brega e dos MC's inventados pelos DJs-empresários do "funk carioca" (FAVELA BASS).

A manobra ideológica dessa intelectualidade, baseada em alegações tipo "ruptura de preconceitos", "liberdade total para a música brasileira" etc, como na suspeitíssima tese do desprezo à estética na avaliação artística, se resume numa ideia nada generosa que está por trás de argumentações tão "positivas".

Esse resumo consiste em, primeiro, atribuir ao povo pobre o fardo da mediocridade artístico-cultural, como se o povo pobre estivesse associado sempre a valores sociais inferiores. Mas, no discurso, a intelectualidade, ao mesmo tempo em que credita ao povo a mediocridade artística-cultural, adota um discurso que tenta fazer acreditar que essa mediocridade é o que há de "valioso" na cultura do povo.

Em outras palavras, a intelectualidade vê o povo como culturalmente inferior, mas finge acreditar que essa inferioridade cultural é superior. E adota um paternalismo muito pior ao que atribui a Chico Buarque e aos antigos militantes dos CPC's da UNE. Porque reconhece no povo um ente social impotente, como se esses intelectuais fossem uma espécie de "Justo Veríssimo do bem".

Daí a gravidade com que age a imprensa de esquerda, tão comprometida com a luta das classes populares, em contratar jornalistas como Pedro Alexandre Sanches e seu preconceito "positivo" com o povo pobre.

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