quinta-feira, 1 de julho de 2010

O VOCABULÁRIO DO PODER DO BRASIL



Há alguns dias, eu escrevi um texto sobre as palavras do poder analisadas pelo jornalista inglês Robert Fisk. No Brasil, também existe um vocabulário do poder, mas ele não se limita tão somente ao âmbito político, afinal é pelo âmbito sócio-cultural que manipula-se mais as multidões do que a pregação político-ideológica do baronato da grande mídia.

Mas o vocabulário do poder mostra o quanto o baronato da mídia brasileira exerce também seu poder de ferro, manipulando até mesmo a forma de falar da juventude do país.

Selecionamos as palavras mais frequentes no vocabulário do poder da mídia brasileira:

ALIENADO - A pregação pró-popularesca da mídia, sobretudo no que diz a ideia de "preconceito" (ver abaixo), usa a expressão "alienado" para definir quem rejeita as tendências e modismos em evidência. O "alienado" seria então um estereótipo que mistura moralismo com saudosismo, ou então uma espécie de chato reacionário, purista paranóico ou coisa parecida.

ANTENADO - Termo antes atribuído a um estereótipo de juventude alternativa - ou seja, a juventude educada à base de Menudo, Xuxa, Dr. Silvana, Michael Jackson e Steven Spielberg que na faculdade foi obrigada a encarar Sonic Youth, Billie Holiday e Jean-Luc Godard - , o termo hoje é usado pelo vocabulário do poder para as pessoas que se encontram sempre "atualizadas" com as tendências "culturais" do momento. O antigo sentido de "antenado" passou a ser conhecido como "descolado" (ver abaixo).

BALADA - Originária do jargão próprio de DJs e publicitários paulistas, a gíria "balada" está ligada ao universo da dance music. Mas a mídia manipulou a gíria de tal forma que tentou-se ultrapassar a fronteira do pop dançante e ir até mesmo para os bailes da terceira idade ou mesmo para o segmento roqueiro (normalmente hostil ao universo do pop dançante). A grande mídia queria usar a gíria "balada" como substituta para a palavra "festa", mas a coisa chegou-se a tal ponto que até qualquer reunião num bar ou restaurante à noite ficou conhecido como "balada".

BANDA - Deturpando o sentido de boys bands (na verdade, "grupos de garotos") e pegando carona no jargão roqueiro (que credita cantores e grupos como bandas, até porque no rock até cantor solo tem uma banda por trás), passou a chamar qualquer conjunto de "bandas". Grupos apenas com cantores-dançarinos eram creditados como "bandas", ofendendo a classe dos músicos. Chegou-se ao ponto de chamar de "banda" um grupo com uma cantora e várias dançarinas-vocalistas de apoio chamado Pussycat Dolls. A expressão entrou em desuso, diante das reclamações de muita gente, até no Big Brother Brasil (!).

CIDADANIA - Não se sabe o que é pior, a "cidadania" da Antiguidade grega, que excluía mulheres e escravos, ou a "cidadania" burocrática que os detentores do poder reservam para o povo brasileiro, que no fundo não é mais do que a "cidadania clássica" grega adaptada para o contexto politicamente correto. Normalmente, a ideia distorcida de "cidadania", no vocabulário do poder, está associada a um mero comportamento de obediência sócio-política e no atendimento às exigências burocráticas.

CIDADÃO - Esta palavra também tem um sentido próprio no vocabulário de poder, com vida própria em relação ao derivativo "cidadania". O "cidadão" é, para o vocabulário de poder, uma espécie de boneco ventríloquo dos interesses dominantes, sobretudo tecnocráticos, e tornou-se o "sujeito" da retórica demagógica moderna. Antes o discurso demagogo falava em "povo", mas como isso significou uma inclinação populista que tornou-se pejorativa, o novo demagogo não fala mais em "povo", fala agora em "cidadão". É mais personalizado e pomposo para iludir as massas com mais eficiência.

CLIENTE - Poderia ser apenas um marketing pomposo usado pelo comércio, mas a coisa andou, ou melhor, desandou a ponto da mídia não falar mais "freguês". Agora, todo mundo é cliente, até freguês de barbearia de subúrbio. Cria uma impressão de pompa, sem a simplicidade natural da palavra "freguês", cujo derivativo, "freguesia", inspirou nome de dois bairros do Rio de Janeiro, um em Jacarepaguá, outro na Ilha do Governador.

DEMOCRACIA - Evidentemente, para a grande mídia dotada de ideias conservadoras, o conceito de "democracia" só pode ser associado a regimes capitalistas liberais, que não são, necessariamente, democráticos, principalmente numa época em que as decisões acerca da política salarial, da função do Estado nos serviços diversos, ou mesmo do urbanismo, são privilégio de tecnocratas sem qualquer identificação com os interesses de fato públicos. A "democracia", em diversos momentos da História recente, serviu de pretexto para governos de interesses oligárquico-empresariais derrubarem governos com projeto político voltado para os interesses populares.

DESCOLADO - Anos atrás, havia um estereótipo caricato do jovem intelectualizado e vanguardista que no Brasil denominava-se "antenado". Desde que veio o grunge, a mídia grande brasileira adorou brincar de "cultura alternativa" e até programas horrendos da Rede TV!, por exemplo, passaram a mostrar esportes radicais. O alternativo estereotipado era normalmente um rapaz ou moça que haviam tido uma "educação cultural" conservadora pela mídia, voltada ao pop descartável e ao populismo televisivo. Mas, quando chegava a faculdade, esses jovens eram "estimulados" a adotar um perfil alternativo caricato, cheio de clichês. Imagine um sujeito acostumado com filmes de Spielberg e comédias infanto-insossas da Sessão da Tarde nos anos 90 ter que conhecer, de uma hora para outra, os filmes alternativos europeus? É isso. Com o tempo, o termo "antenado" foi substituído por "descolado", e o estereótipo ganhou um toque fashion.

EDUCAÇÃO - A palavra "educação", que poderia naturalmente se referir a um âmbito geral de qualquer tipo de ensino, instrução e mesmo atividades sócio-educativas destinadas a desenvolver valores sociais elevados, é usada vagamente pelo vocabulário de poder como sinônimo de instrução. A própria ideia de educação escolar, trabalhada pelos barões da grande mídia, é de uma superficialidade tragicômica. Limita-se a ensinar a ler, escrever e fazer contas. De resto, apenas jogar bola (alusão ideológica ao futebol). A grande mídia transforma a Educação num processo extremamente fácil e tolo, esvaziando o sentido de qualquer abordagem que aprofunde os reais problemas que envolvem o tema. E tivemos grandes pensadores como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire, e hoje temos Cristovam Buarque. Só que o grande público não sabe disso, pensa que Educação é criança jogar bola.

ECOLOGICAMENTE CORRETO - Antes a mídia grande adotava o termo "politicamente correto" para definir aquele que se preocupa com a ecologia. Mas como a expressão pegou mal, muitos achavam a denominação muito pesada, a mídia grande resolveu amenizar e substituir "politicamente correto" por "ecologicamente correto". O que não deixa de ser uma provocação com quem se preocupa verdadeiramente com o meio ambiente, em detrimento do desejo de "progresso" das grandes corporações, responsáveis diretas do efeito estufa e dos desastres ambientais do planeta.

EMPREENDEDOR - A expressão "empreendedor" é usada no vocabulário do poder para "humanizar" a figura naturalmente fria e sisuda do grande empresário, principalmente em revistas, páginas de jornais e sites dedicados ao mundo dos negócios. Não há mais "executivo", agora é "empreeendedor", palavra que manipula a ideia de "empresário" como se ele fosse um idealista corajoso e perseverante, fundou e mantém a referida corporação citada pela imprensa. A palavra tenta apresentar uma ideia de "altruísmo" e "aventura", criando uma visão romantizada do homem de negócios.

GALERA - Expressão originária das navegações marítimas, foi adotada pela gíria esportiva e daí virou gíria de playboys. Mas a grande mídia empurrou a gíria para definir todo e qualquer tipo de coletivo de pessoas, geralmente num sentido afetivo. No lugar de "família", "equipe", "classe (da escola)", "(grupo) de amigos", agora é só "galera". Ficou até mais complicado, porque fulano tem que dizer qual ou de onde é a "galera" que ele fala: "galera da farmácia", "galera lá de casa", "galera lá do estúdio", "galera do Flamengo", "galera da Faculdade" etc.

GLOBALIZAÇÃO - Expressão usada pela mídia conservadora para camuflar a imagem negativa do sistema capitalista, sobretudo em relação ao imperialismo. Dessa forma, quando existem protestos contra o imperialismo em eventos como o Fórum Econômico Mundial, a grande mídia os credita como se fossem "protestos contra a globalização".

INVESTIDOR - Da mesma forma que "empreendedor" é uma visão romantizada do empresário, o capitalista - e aqui não podemos nos esquecer também dos especuladores financeiros e dos agiotas - , através da palavra "investidor", também é tratado de forma pretensamente humana. É como se o capitalista do Primeiro Mundo investisse de forma generosa nos países dependentes, ou mesmo emergentes, porque supostamente acredita no desenvolvimento das nações subordinadas. Quando, na verdade, o "investidor" investe um punhado nesses países para, no mínimo, faturar o dobro do valor investido.

JABACULÊ - Acontece tanto jabaculê na mídia - e não se trata de sucessos musicais, não, há muito mais jabaculê no jornalismo político e esportivo - que mesmo os adeptos mais fervorosos do baronato da mídia não conseguem mais desenvolver. E agora? A grande mídia resolveu apelar para o sentido eufemista, transformando a expressão "jabaculê" ou "jabá" num simpático sinônimo à brasileira da expressão mershandising, procurando acobertar o macabro sentido de corrupção da mídia associado ao termo.

LÍDER - O vocabulário do poder tenta transformar a ideia de patrão e chefe em alguém ao mesmo tempo "aventureiro", "heróico", "altruísta", "companheiro", "corajoso" e "perseverante". E define tudo isso com a palavra "líder", neutralizando qualquer reação contrária dos subordinados ao seu "patrão-companheiro".

OPINIÃO - O inocente termo, relacionado a um ato de expressar o parecer do raciocínio humano em relação a uma ideia, é usado pela grande mídia como se fosse uma moeda valiosa cuja posse é prioritariamente dos chamados grandes jornalistas, elite de editores-chefes, colunistas, articulistas e comentaristas que, na prática, privatizam a opinião pública, tornando-a um bem privado. O povo não está proibido de ter opinião, desde que se apoie seguramente no ponto-de-vista "sábio e objetivo" dos chamados "profissionais da opinião".

PATRIOTISMO - Para distrair a moçada, a mídia grande brasileira distorce o termo "patriotismo" limitando-o a um mero culto à seleção brasileira de futebol. Limita-se o conceito de patriotismo ao fanatismo "sadio" pelo futebol, enquanto a mídia grande se recusa a definir como patriotismo os protestos diversos das classes populares. Realizar passeatas protestando contra a exclusão imobiliária não é "patriotismo", é "desordem", ser "patriota" é torcer pelos jogos do futebol brasileiro, sobretudo a "seleção". Num Brasil movido pela deterioração do conceito de nacionalismo, principalmente na Economia, isso é crucial para manter as multidões distraídas.

PRECONCEITO - A palavra tornou-se o verbete preferido pelos barões da mídia para fazer a mediocridade cultural levar vantagem e se propagar acima de quaisquer modismos. Neste caso, o vocabulário do poder trabalha a ideia de "preconceito" como uma "rejeição injusta", transformando qualquer ídolo medíocre do entretenimento num pretenso "mártir" em vida, criando todo um discurso choroso e apelativo que busca se promover às custas do sentimentalismo fácil do povo. Desconfiado, o lúcido e experiente Millôr Fernandes acha que a "ruptura de preconceitos" promovida pela grande mídia - e olha que, ironicamente, ele escreve para Veja (!), numa clara exceção à linha editorial golpista do periódico abrilino - é muito mais carregada de "preconceitos" do que os ditos "preconceitos".

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