sábado, 17 de julho de 2010

NO BREGA-POPULARESCO, O POVO NÃO CRIA, SÓ CONSOME



Grande erro fazem os intelectuais que defendem as tendências brega-popularescas, principalmente o "funk carioca" (FAVELA BASS) e o tecnobrega, quando tentam ver neles a "legítima manifestação artística do povo da periferia".

Eles parecem turistas vindos de São Paulo e que acham os subúrbios e as regiões interioranas um paraíso de prosperidade cultural. No entanto, julgam tais fenômenos com seus olhos etnocêntricos, desconhecendo as armadilhas da indústria cultural em regiões marcadas pelo coronelismo rural e suburbano, pela mídia tendenciosa das rádios FM e TV aberta, nem da falta de referências que o povo pobre sofre há mais de 46 anos, quando o latifúndio tentou suplantar a cultura regional genuína pela música brega.

Alguns dos principais defensores do brega-popularesco são de formação mais próxima do underground paulistano. Gente como Bia Abramo e Pedro Alexandre Sanches se formaram na base do rock paulista, do Tropicalismo e da geração da Lira Paulistana. Hermano Vianna bebeu nas fontes do reggae jamaicano, do pop africano e do ska, até mesmo de carona no irmão paralama Herbert. Mas, da noite para o dia, todos tiveram que bancar os dublês de ensaístas etnógrafos, sociológicos ou pós-modernos. Brincam eles de serem Mário de Andrade ou Oswald de Andrade, sem o espírito crítico e o discernimento dos escritores modernistas.

Eles vão para as danceterias de subúrbios, nas suas abordagens "sociológicas", "etnográficas" ou, simplesmente, "jornalísticas", e percorrem os camelôs nas ruas. Tentam fazer uma pesquisa de campo mas seu resultado se limita tão somente a uma narração descritiva, apologética, que pouco tem de realmente reflexiva e de autenticamente intelectual.

Mas, num Brasil com uma intelectualidade burocrática, com os cursos de Mestrado cortando o mal (para eles) pela raiz, ou seja, vetando aspirantes com senso crítico agudo, que poderiam ferir a vaidade acadêmica de seus potenciais orientadores e complicaria as política(gen)s de concessão de verbas, é compreensível que a tradição intelectual brasileira privilegie abordagens bem cordeirinhas, desde que se adote uma verborragia "científica", dentro do rigor metodológico que compensa, em roupagem acadêmica, a debilidade cognoscitiva (produção de conhecimento) das monografias e ensaios apresentados.

Por isso mesmo, a mídia de esquerda, presa num paradigma de intelectual que, de tão inofensivo e convencional, não lhe causa estranheza, não consegue enxergar por que o Brasil raramente conta com intelectuais da envergadura de Noam Chomsky, Umberto Eco, Jean Baudrillard, Guy Debord, Paul Virilio e outros. Tivemos a brilhante passagem, entre nós, do mestre baiano Milton Santos, mas poucos perceberam a força intelectual deste grande geógrafo comprometido com a interdisciplinariedade (a geografia de Milton Santos é também encharcada de muita antropologia e sociologia).

Daí que vemos intelectuais carneirinhos, defendendo uma cultura musical também carneirinha, de cordeiros vestidos em pele de lobo, fingindo que assustam o "sistema", seja a grande mídia, seja a sociedade conservadora, sejam os detentores do poder. Porque o "sistema" é que criou essa música brega-popularesca, tendenciosa, esquizofrênica, apátrida, caricata, estereotipada e artisticamente de qualidade bem duvidosa, queiram ou não queiram seus defensores.

Eles acham que basta o povo ir e vir das danceterias e consumir um tipo de música que é atribuído como "seu", que basta os camelôs tocarem o que rola nas rádios, para eles afirmarem que nesses locais a "verdadeira cultura popular" vive plenamente.

O povo vai que nem gado para uma danceteria para consumir a música que um ídolo tal, apadrinhado por um empresário local, está apresentando. Isso é "criatividade artística"? Não. É apenas a manifestação de mero consumo de referenciais ditados pela indústria cultural.

O povo das danceterias ou do comércio de camelôs apenas segue o que as rádios, controladas pelos donos de poder locais, tocam. As rádios e TVs locais determinam o gosto musical. É a "cultura de cabresto", daí o nome Música de Cabresto Brasileira.

A cultura verdadeira, manifesta pela compartilhação social de valores e crenças locais, em nenhum modo pode ser confundida com o consumo compartilhado de sucessos radiofônicos ou de valores estabelecidos pela TV aberta ou pela imprensa policialesca-fofoqueira. Pensar assim é entender a cultura como se fosse um engodo, um vale-tudo lúdico, sem referências sólidas de localidade, de ética, de estética, etc.

A cada dia os defensores do brega-popularesco, mesmo com um discurso lindo e sonhador, provam estar a cada dia mais equivocados. A paçoca de Pedro Alexandre Sanches, por exemplo, ainda vai causar disenteria em muita gente.

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