segunda-feira, 19 de julho de 2010

INTELECTUAIS PRÓ-BREGA DEVERIAM SER ESTUDADOS



Uma das maiores questões das ciências sociais, em particular a Antropologia, não está exatamente na compreensão mais generosa do outro, mas na compreensão que o intelectual tem que ter de si mesmo.

Até mesmo o saudoso antropólogo Clifford Geertz já falou nisso, quando pensou o relativismo da abordagem etnográfica. Ele não condena, a rigor, o etnocentrismo, mas aconselha ao antropólogo uma análise mais cautelosa de si mesmo.

Afinal, é a partir da visão pessoal do etnógrafo, mesmo a visão deslumbrada diante do "outro", que ele estabelece seu juízo de valor, seus preconceitos, sua visão docilmente distorcida do "outro", por mais generoso que pareça ser.

É por isso que, tal um Pero Vaz de Caminha embasbacado diante dos índios do litoral brasileiro, Pedro Alexandre Sanches, com sua formação cultural herdada de referenciais próprios da TV Record dos anos 80 e da revista Bizz dos anos 80, se deslumbra com os subúrbios popularescos do Pará, de Salvador, de Goiânia, da Baixada Fluminense.

COLUNA "PAÇOCA" É A "SUCURSAL" DA FOLHA NA CAROS AMIGOS

Seu "Paçoca" (nome de uma coluna publicada em Caros Amigos) é a Central da Periferia da vez. Na prática, apesar do contraste ideológico dos dois veículos, "Paçoca" acaba sendo a sucursal da Folha de São Paulo, pela sua apologia popularesca que tão logo alimentará as páginas da Ilustrada e dos programas da Rede Globo (Folha e Globo são "irmãs" ideológicas).

Mas em todo caso, a análise vale tanto para Pedro Sanches quanto para Bia Abramo, Hermano Vianna, Rodrigo Faour ou quem vier com a mesma abordagem. Seu etnocentrismo moderno pega de surpresa uma classe média desprevenida, que não compreende direito o que é a periferia, seus problemas, suas contradições e os mecanismos de controle social dos barões regionais da mídia.

VISÃO FANTASIOSA DA PERIFERIA

Por isso todos ficam felizes e sorridentes quando a abordagem da música brega-popularesco cria uma visão fantasiosa da periferia, descrita como um "paraíso" com multidões sorridentes, sem problemas, ao mesmo tempo ingênuo, sem maldades e sem tutores.

A abordagem tem muito daquilo que é contestado por John Kenneth Galbraith no seu livro A Cultura do Contentamento, que é atribuir ao povo pobre a ilusão de sua auto-suficiência, como forma dos detentores do poder de aliviar as tensões das classes populares.

Este doce etnocentrismo, por parecer generoso, otimista e simpático, não é questionado numa linha só pela classe média que lê tais apologias. E nem desconfiam que estas, ao serem publicadas por veículos esquerdistas como as revistas Fórum e Caros Amigos, agem em diverência, e não convergência, com as abordagens críticas que as mesmas publicações fazem no âmbito político.

IMPRENSA DE ESQUERDA ACABA FAZENDO O MESMO QUE O JORNAL NACIONAL DURANTE A DITADURA

Mas essa visão tão generosa e confortável, na medida em que desperta, na classe média, o mesmo efeito analgésico dos noticiários alienantes, faz com que a imprensa de esquerda acabe fazendo o mesmo que o Jornal Nacional fazia durante a ditadura militar.

Enquanto o noticiário político ferve com suas tensões, seus dramas, tragédias e confrontos, o noticiário cultural mostra uma "periferia feliz", infantilizada, alegre, ingênua, submissa ainda que seja definida como "espontânea". Não é mais a periferia tal como ela realmente é, mas uma visão idealizada e domesticada trazida por Pedro Alexandre Sanches, Bia Abramo e seus similares, que depositam numa periferia manipulada pelos barões da grande mídia uma suposta sabedoria que os jovens pobres não têm a menor ideia do que se trata.

É isso que o Jornal Nacional fazia nos tempos do AI-5. Falava de um mundo explosivo, tenso, conflituoso, enquanto anunciava o "Brasil Grande" como um "doce paraíso", alegre, ingênuo, infantilizado, domesticado.

A "Paçoca" de Pedro Sanches e suas colaborações em Carta Capital e Fórum também mostram um Brasil "adocicado" - na ironia do sucesso do brega Beto Barbosa se chamar "Adocica", talvez bem do agrado da falsa etnografia de Sanches, Vianna e companhia - , um país domesticado que contrasta com as explosivas notícias do ramo político.

Mas, por debaixo dos panos, o poder latifundiário que faz derramar a mortal ferida de sangue de agricultores, seringueiros, padres, operários, professores, donas-de-casas e até missionárias estrangeiras, patrocina o entretenimento brega das regiões interioranas. Só que falar isso estraga a doce fantasia da classe média urbana, que prefere sonhar com uma periferia feliz, que eles, no seu julgamento pequeno-burguês, acreditam que vá diminuir o risco deles serem assaltados na calada da noite.

Por isso mesmo, deve-se estudar o perfil desses intelectuais e da classe média que os aplaude com sorrisos tão dóceis. Gente que não desconfia de uma revista Fórum falando do mesmo tecnobrega que depois ganha tratamento VIP da Globo.

É preciso estudar esse etnocentrismo às vezes piegas e tolo, mas também paternalista e sonhador, pois não é a visão bondosa que a classe média e seus intelectuais têm do povo pobre através do apoio ao brega-popularesco que ela se despojará de uma visão fantasiosa ou preconceituosa. Pelo contrário, seus preconceitos se tornam cada vez maiores, na medida em que continua tratando o povo pobre de forma domesticada e estereotipada.

2 comentários:

Edilson Trekking disse...

Toda critica que você faz aos defensores do brega-popularesco tem um respaldo em Nietzsche que diz: "...música doente,decadente,enquanto mecanismo de manipulação e apatia,transformada e transfigurada em omissões,cuja função é anestesiar,alienar e distanciar o homem do valor de sua existência".

Marcelo Pereira disse...

Esses téoricos da cafonália devem estar desesperados. Loucos para encontrarem na música tomada pela gripe mercenária do irrit-pareide uma novidade que não existe, vão procurar nos habitats do analfabetos uma "cultura" aleijada, perneta, eunuca e acéfala, que ridiculariza ainda mais o nosso povo e impõe costumes ridículos as classes mais humildes, fazendo elas pensarem que estão sendo valorizadas.

É mais um capítulo da nefasta ideologia do "orgulho de ser pobre" criado para manter intactas todas as injustiças sociais que caracterizam o capitalismo.

O pior que muitos desses "intelectuais", se auto-rotulam de socialistas, embora façam tudo que os grandes empresários e políticos de direita querem que seja feito.