domingo, 25 de julho de 2010

A INDIFERENÇA DA MÍDIA DE ESQUERDA AOS "PALESTINOS" DE CÁ



Envergonha jornais como Caros Amigos permitirem que se defenda uma música brega-popularesca e toda uma simbologia de valores sócio-culturais caricatos, apátridas, estereotipados e domesticados. E todo mundo aplaudindo, com alegria idiota, a gororobização cultural convertida em "paçoca".

É o mesmo pessoal que conhece a luta do povo palestino contra o imperialismo representado por Israel. Não reprovo essa preocupação, pois sabemos o quanto os palestinos sofrem por não terem pátria, por viverem exilados, por sofrerem opressão e violência, que já dizimou várias pessoas.

Mas é preciso ter coerência e verificar também o drama do povo que vê seus barracos deslizando, os agricultores sendo dizimados pela pistolagem, enquanto o público de Caros Amigos aplaude que nem foca de circo as pregações brega-popularescas de Pedro Alexandre Sanches, sobretudo ao tecnobrega (o "funk carioca" da vez) patrocinado pelos mesmos latifundiários que mandam fuzilar agricultores.

Pois os "palestinos" de cá sofrem tanto quanto os palestinos propriamente ditos. O povo palestino, sem pátria, sem poder expressar sua cultura, vivendo feito exilados e lutando para manter seus referenciais culturais, de fato eles merecem nossa solidariedade e respeito. E que devemos sempre lutar contra o imperialismo dos chefões de Israel, paus mandados da política megalomaníaca dos EUA.

Mas e os "palestinos" de cá? Sem cultura própria, sem referenciais nacionais, reduzido a uma massa medíocre, patética e estereotipada graças à supremacia da grande mídia, o povo pobre brasileiro é o "palestino" transformado em bonecos de marionetes pela "política israelense" da grande mídia.

Será que nossos caros amigos não têm vergonha de que, apoiando as pregações de Pedro Alexandre Sanches, jornalista com passagens na mídia golpista e educado pela mesma, apoiam o método Folha-Globo-Contigo de pensar a cultura popular? Ou será que nossos caros amigos fazem tais defesas do povo pobre porque têm medo de algum processo trabalhista de suas empregadas domésticas?

O que Pedro Alexandre Sanches defende é a mesma política de Benjamin Netanyahu traduzida para o âmbito da MPB. A identidade nacional tradicional acabou, agora é "reconstruir nossa identidade" às custas do "resto" dos referenciais estrangeiros misturados. É esse o pensamento apátrida, neoliberal e capitalista do sr. Sanches, menino de ouro de Otávio Frias Filho e senhor de uma retórica de sonho que engana muita gente.

É esse o pensamento que, de forma sorridente, afirma que a identidade cultural que o povo brasileiro construiu com muito sacrifício acabou, não existe mais, e que o máximo agora é todo mundo brincar de caubói americano, de soulman americano, de Beyoncé, de Usher, de Michael Jackson.

A "identidade nacional", agora, é tão somente uma leitura "local" do que vem de fora. Não somos mais nós mesmos, mas apenas meras formas locais de expressar o outro. Não produzimos mais conhecimento, mas tão somente o espetáculo desenvolvido por nossa ingênua e patética ignorância. Não são mais nossas famílias que transmitem os valores sócio-culturais que acreditamos, mas rádios FM e emissoras de TV aberta que transmitem aquilo que devemos acreditar, valores que não são nossos mas que temos que tomar como "nossos".

Afinal, Pedro Alexandre Sanches tenta nos fazer crer que agora "nossa" cultura é mundializada, nossa identidade cultural perdeu o sentido porque agora somos "mundiais", somos "universais". Nossa burrice tornou-se a "mais pura inteligência". A cultura brasileira virou circo e os leitores de Caros Amigos são as focas de circo, aplaudindo qualquer entulho anunciado como "novidade". E nós, que reclamamos disso, temos que fazer papel de palhaços.

O Brasil de Pedro Alexandre Sanches NÃO é o Brasil dos movimentos sociais, das lutas sociais do povo pobre. O Brasil de Pedro Alexandre Sanches é o mesmo Brasil de Fausto Silva, de Gugu Liberato, de Sílvio Santos, do Pânico da TV, das novelas da Rede Globo, do Luciano Huck, da Ilustrada da Folha, da revista Contigo. A Paçoca da Caros Amigos tem o P de Partido da Imprensa Golpista.

E, como um Francis Fukuyama tropicalista, Pedro Alexandre Sanches tenta nos fazer crer que não devamos pensar como nossos pais. Ele nos convida para a ruptura de "um modo tradicional" de ver a MPB. O que não é isso senão a aplicação do "fim da História" na abordagem da cultura brasileira?

Convido os caros amigos da Caros Amigos a lerem mais O Kylocyclo.

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