quarta-feira, 28 de julho de 2010

FIM DA RÁDIO O DIA FM COMPLICA MERCADO DO BREGA-POPULARESCO


FIM DA FM O DIA: BOA NOTÍCIA, MAS AINDA NÃO É MOTIVO DE COMEMORAÇÃO.

O rádio carioca vive, nos últimos cinco anos, uma verdadeira dança das cadeiras, resultante do verdadeiro "cassino" que se tornou o dial FM, entregue à ciranda dos barões da mídia radiofônica. Para o bem e para o mal, emissoras tradicionais ou relativamente veteranas são dizimadas.

Com a moda das "rádios AM em FM" - feitas mais para a concentração político-financeira dos empresários, porque, do contrário que as propagandas alardeiam, rádios como a "Tupi AM" e "Globo AM" amargam fracasso de audiência no dial FM e a Band News Fluminense nunca sai dos mesmos índices de audiência que derrubaram a antiga "Maldita" em 1994 - , a crueldade do mercado não poupa sequer o filão fácil e aparentemente certeiro da música brega-popularesca.

A música brega-popularesca era tida como o pretexto para a proposta da Aemização das FMs, defendida até por veículos da imprensa conservadora como Veja, em reportagem de 1984. Havia promessas, muitas delas delirantes, de que se houvesse notícias, debates, falatório e jornadas esportivas em FM, a "música ruim" e o jabaculê seriam extintos.

O que se viu, na verdade, foi o contrário. A música de qualidade desapareceu praticamente do dial FM, salvo uns raros espaços. E o jabaculê deixou de ser vinculado à música, com maior volume de propinas invadindo noticiários radiofônicos e, acima de tudo, as jornadas esportivas, que se tornaram o maior mercado de jabaculê do rádio, superando, de longe, a música. É tanto jabaculê que os barões da grande mídia são obrigados a fazer eufemismo, transformando a palavra no inofensivo sinônimo de mershandising, tamanha a lavagem financeira que acontece entre dirigentes esportivos e diretores de FM, e que quase matou, em 2008, o ex-prefeito de Salvador Mário Kertèsz, astro-rei da Rádio Metrópole FM e corrupto e demagogo histórico da Bahia.

Pois o fim da emissora de FM carioca, O Dia FM, para dar lugar a uma repetidora da Rádio Record AM já transmitida na Amplitude Modulada do Grande Rio, trará sem dúvida uma boa e uma má notícia.

Vamos, primeiro, à boa. Será uma a menos entre as atuais três emissoras dedicadas à música brega-popularesca, a suposta "música popular" de mercado complica sua situação no rádio e terá que se contentar com a Beat 98 e a Nativa FM, como emissoras dedicadas ao brega-popularesco geral, ou respaldar o atual lobby de intelectuais simpatizantes ao brega-popularesco (que se estende à coluna "Paçoca" da Caros Amigos) no programa "Noite Preta" da MPB FM (isso se o programa não sair do ar; o programa, ruim, é praticamente um programa dos amigos de Preta Gil).

Daí que vem, por isso mesmo, a má notícia. Com as restrições cada vez mais crescentes à programação musical no dial FM - cada vez mais substituída por um falatório que se prova cada vez mais supérfluo, pedante e maçante, por mais "informativo" e "cidadão" que tente parecer - , a música brega-popularesca, que há muito tempo havia trocado em parte o jabaculê radiofônico (aqui o conhecido sentido de subornar programadores de rádio) pelo jabaculê acadêmico (subornando intelectuais, sejam críticos musicais ou cientistas sociais, para fazer um discurso intelectualóide sobre as tendências brega-popularescas), tentará reforçar esse atual esquema.

Numa época em que até tendências recentes do brega-popularesco, como o tecnobrega, vendem uma falsa imagem de "movimentos à margem da grande mídia" mesmo depois de apadrinhados pela Rede Globo de Televisão, é de se preocupar quanto aos rumos da música brasileira, mesmo com o fim da FM O Dia.

Certamente o fim da FM O Dia foi bom. É um castigo tardio para uma rádio que foi chamada para tirar do ar a RPC FM, rádio de pop dançante extinta para não atrapalhar a reserva de mercado da Jovem Pan 2, que então havia desalojado a Fluminense FM e havia "sugerido" para as concorrentes Rádio Cidade e Transamérica migrarem para o segmento rock (cujo desempenho de ambas foi risível de tão desastroso). Poderá inspirar até mesmo a futura extinção da Nativa FM, como castigo desta ter desalojado a histórica Antena Um.

Mas, em vez de comemorarmos com festa, nos limitemos a sorrir. A música brega-popularesca é um mercado que movimenta milhões de reais por mês, sendo respaldado pelas mais poderosas elites e oligarquias, desde donos de redes de televisão, empresários do varejo e latifundiários.

O lobby com a intelectualidade cada vez mais substitui o jabaculê radiofônico e por isso a nossa posição é de cautela. Muita cautela. Só para citar um exemplo, a dupla breganeja Chitãozinho & Xororó, símbolo máximo da cafonice dominante em 1990, hoje comemoram 40 anos de carreira vendendo uma imagem falsa de "sofisticados", como se eles fossem "grandes nomes da MPB". A apreensão continua. Os donos da música brega-popularesca ainda têm dinheiro e poder.

2 comentários:

Marcelo Delfino disse...

Cassino, Alexandre? Isso é um elogio. Até mesmo "Feira de Acari" já seria um elogio.

O dial FM carioca está mais para feirão das drogas, de algum desses megafavelões que existem por aí.

Marcelo Delfino disse...

O Twitter do TRIBUTO acaba de indicar o seu artigo.

http://twitter.com/radiorj