quarta-feira, 7 de julho de 2010

DUAS DÉCADAS SEM CAZUZA



Em 07 de julho de 1990, eu e minha família morávamos no bairro do Resgate, em Salvador, e fomos para o extinto supermercado Unimar, na filial do Shopping Piedade, para fazer compras. O local, que até alguns anos atrás funcionava o Bompreço (que havia comprado a antiga rede Paes Mendonça, da qual fez parte o Unimar), hoje é compartilhado pela C&A e Ricardo Eletro.

Na volta para casa, no carro do meu pai, quando chegamos em casa e ligamos a televisão, o noticiário anunciava o falecimento do cantor Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, que não resistiu aos efeitos da AIDS. Há um tempo ele lutava contra a doença, com coragem e bom humor, e havia até gravado músicas já muito doente, que resultaram no seu último álbum, Burguesia (1989), e no póstumo Por Aí (1991).

Eu acompanhava a luta de Cazuza, que ironicamente tinha alguns traços faciais levemente parecidos com o do galã Lauro Corona, também falecido vítima da AIDS, mas em 1989. Do contrário que Cazuza, Lauro ficou temeroso com a doença, uma vez que a AIDS era associada ao público gay. Grande erro. A AIDS potencialmente pode atingir todo mundo. Até mesmo um taxista de Salvador, que cometeu um crime passional contra a vida da namorada universitária, teria morrido anos depois vítima da doença.

Cazuza enfrentou a doença com coragem. Sei que causou muita polêmica. Afinal, ele tinha um estilo de vida que juntava o do roqueiro dos anos 60 e o do boêmio dos anos 50. Tinha um nome de batismo de um senhor de idade, Agenor, mas um apelido de moleque que veio da literatura, e se foi muito jovem aos 32 anos (também a idade de óbito de Lauro Corona). Sexo, drogas, rock, boemia. Coisas do livre arbítrio de quem viveu a época do desbunde.

Mas Cazuza tinha caráter, embora não fosse perfeito. Pelo menos encarava a vida com prazer e jovialidade. E era um grande artista. Seria um grande nome do hard rock brasileiro se o padrão enjoadamente limpinho de mixagem da indústria fonográfica não podasse demais os discos do Barão Vermelho, gravando a bateria em volume mais baixo e aumentando o volume dos teclados. Era um padrão de mixagem da MPB pasteurizada, que não deixou mostrar nos discos a energia que o BV exibia nos palcos.

Mas, mesmo assim, o Barão Vermelho, com a guitarra do então calado Roberto Frejat - amigo e parceiro de Cazuza até os últimos dias - mostrou sua força musical como um dos grandes grupos do Rock Brasil dos anos 80. Em 1985, Cazuza se inclinou para a MPB, afinal era um garoto que gostava de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Rolling Stones (e, mais tarde, Smiths), mas também de Cartola, Lupicínio Rodrigues, Dolores Duran e também Chico Buarque.

Isso causou, na época, uma briga com os integrantes do grupo (mais tarde, porém, o próprio Frejat havia mudado sua posição em relação à MPB, gravando até um sucesso do sambista Bezerra da Silva) fez Cazuza sair da banda. Frejat assumiu a voz. Cada um seguiu seu caminho, e, apesar da momentânea discussão, havia um respeito mútuo entre cantor e sua ex-banda.

Recentemente, eu vi o filme Cazuza, de Sandra Werneck e Walter Carvalho, que é até uma boa reconstituição do espírito dos anos 80. Excelente atuação de Daniel de Oliveira - hoje na novela Passsione - no papel do cantor. O filme só peca por algumas omissões como o breve romance que Cazuza teve com o cantor Ney Matogrosso. Nem tudo é perfeito.

Uma grande curiosidade e, hoje, uma grande relíquia da nossa imprensa musical, foi o Entrevistão da revista Bizz que, em 1988, promoveu um bate-papo entre Cazuza e Renato Russo. Dois roqueiros brasileiros hoje falecidos, os dois foram chamados pela revista para uma "entrevista-conversa" de um com o outro, o que era curioso na época.

Aparentemente uma entrevista banal, que passou pouco percebida, ela no entanto se tornou um grande documento que poderia ser publicado em livro ou na Internet, porque reúne não somente dois cantores e artistas prestigiados, mas também duas personalidades bastante diferentes.

No fim, Cazuza sobreviveu ao próprio óbito, tornando-se sempre lembrado como um grande cantor e poeta. Músicas politizadas como "Ideologia", "Brasil" e a irônica "Burguesia", tornaram-se seus grandes sucessos no final da vida.

Cazuza foi um dos beneficiados pelo reconhecimento recente do Rock Brasil pela MPB (reconhecimento que, apesar do lobby e da grande torcida, é pouco recomendável se reproduzir para a música brega-popularesca), já que traduziu no rock uma peculiaridade bem brasileira, com um quê de Noel Rosa, de Cartola (quase-xará de Cazuza, porque se chamava Angenor) e de Lupicínio Rodrigues. Ou mesmo uma resposta masculina e roqueira a Dolores Duran.

Enfim, o tempo não pára e o prestígio de Cazuza vai sobrevivendo sem um arranhão.

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