quinta-feira, 8 de julho de 2010

DESILUSÕES HISTÓRICAS DA MÍDIA



Nos últimos 25 anos, a desilusão pública em relação à grande mídia aumentou consideravelmente e o nível de desconfiômetro se ampliou e se atualizou consideravelmente. Felizmente somos menos ingênuos do que há duas décadas e meia atrás, quando o Brasil voltou a exercer a legalidade democrática.

Imagine o que considerávamos então a mídia golpista? Ela era tão somente as Organizações Globo e o grupo Estadão. Somente tais veículos eram a meca do tendenciosismo midiático e do sectarismo conservador ao regime militar e aos políticos civis que sustentavam a ditadura.

De resto, o que havia era "mídia cidadã". A grande mídia já exercia o quarto poder, mas esse quarto poder nem sempre era visto, mesmo por cidadãos considerados "bem informados" de classe média. Para estes, o quarto poder não existia em si próprio, mas se confundia com a própria sociedade, e mesmo um jornalista engravatado era visto como se fosse um proletário da informação.

Veículos como a Folha de São Paulo e o Grupo Bandeirantes de Comunicação tornaram-se os "heróis" da novela político-midiática porque contavam com profissionais de oposição à ditadura militar. Uma geração de intelectuais de esquerda já trabalhava, desde os anos 70, nestes veículos, o que fazia com que os adeptos dessas duas corporações de mídia as subestimassem no perfil aparentemente progressista.

A Isto É mal havia surgido das cinzas da antiga e histórica revista Senhor. E Veja já era conservadora naquele 1985, mas sua postura era bem menos rancorosa que a de hoje, e era mais profissional.

As primeiras desilusões em torno da mídia, que tornaram mais rigorosos os critérios de avaliação da mídia conservadora, vieram na década de 90. A mudança de orientação de Veja para uma linha não só conservadora, mas rancorosa e radicalmente reacionária, fez a revista semanal do Grupo Abril entrar para o "pequeno monastério" da mídia golpista simbolizado até então pela dupla Globo/Estadão.

Mas o clube tornava-se pequeno, ainda, e havia dois blocos da mídia conservadora que polarizavam o olimpo midiático numa mídia abertamente reacionária e numa mídia aparentemente "cidadã". De um lado, havia a mídia golpista, mais tarde chamada também de "mídia gorda". De outro, havia a mídia boazinha, ou "mídia fofa", em contraposição à "mídia gorda".

Por questões de polarização concorrencial, criava-se uma mídia vilã, a golpista, e outra, supostamente cidadã, sua concorrente direta, era a "mídia mocinha". Ainda no começo do século XXI, essa polarização deslumbrava a opinião pública e era festejada pelos "líderes de opinião" (primeira geração acomodada e subserviente de blogueiros e críticos da mídia).

Desta maneira, se havia uma reacionária Veja, havia a boazinha Isto É. Se havia o ranzinza Estadão, havia a ensolarada Folha. Se havia a rabugenta Globo, tinha a corajosa Bandeirantes. Até em outros Estados brasileiros, a polarização iludia a todos. A Rádio Metrópole de Salvador (Bahia), por exemplo, era usada para polarizar com a Rede Bahia, grupo dos herdeiros de Antônio Carlos Magalhães.

Mas essa ilusão, há pouco tempo, começou a ruir. Já em 2004 a Folha de São Paulo mostrava ser tão vilã quanto O Estado de São Paulo, além de com o tempo nos recordarmos que o grupo Folha tem um passado bastante sombrio, pois, durante o regime militar, havia colaborado com um órgão de tortura através do fornecimento de carros para transportar presos e material de tortura. Foi preciso a Folha adotar uma campanha difamatória contra o governo Lula para que esse passado voltasse à tona em nossa memória.

No Sul do país - Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná - a corporação midiática Rede Brasil Sul até que era vilã entre os críticos da mídia na região. Mas nos últimos anos, a postura conservadora da rede tornou-se mais evidente e isso fez com que as críticas tornassem ainda mais rigorosas contra a corporação sediada no Rio Grande do Sul e que envolve emissoras de TV, rádios e jornais como o gaúcho Zero Hora.

Na Bahia, a Rádio Metrópole, nascida em consequência de um esquema de corrupção do ex-prefeito de Salvador Mário Kertèsz - que deixou a vida política para virar um suposto radiojornalista, por sinal incompetente - , chegou a iludir a esquerda baiana como a Folha de São Paulo chegou a iludir a esquerda paulista. Conhecidos jornalistas de esquerda da capital baiana chegaram mesmo a elogiar a Rádio Metrópole, de forma bastante ingênua. Mas Mário, ofendido com as críticas que esses jornalistas fizeram ao jornal Metrópole, da mesma empresa da rádio, disparou críticas difamatórias contra os jornalistas, e o reacionarismo da rádio e do jornal tornaram-se evidentes. Rádio e jornal Metrópole disparavam ofensas contra toda a esquerda, seja PT, PC do B, PSTU, PSOL e PCO, e por aí vai.

O Grupo Bandeirantes, que chegou a vender a Band News FM como se fosse uma "mídia de vanguarda", deixou vasar seu conservadorismo em reportagens nos seus veículos que defendiam os interesses dos latifundiários, seja no rádio e na TV. Para piorar, um deslize de operadores fez com que o jornalista Bóris Casoy - de cujo reacionarismo as pessoas não mais suspeitavam - fizesse comentários grotescos contra a dupla de garis que mandou mensagem de Ano Novo para os espectadores da TV Band.

A Band ficou do lado de Casoy ao demitir os operadores, e isso vasou o passado sombrio do jornalista, que havia sido integrante do Comando de Caça aos Comunistas. Casoy foi retratado numa antiga reportagem de O Cruzeiro, em 1968, e, como aluno da Universidade Mackenzie, participou do histórico conflito contra os alunos da USP, na rua Maria Antônia, em São Paulo. Não participou da morte de um aluno da USP, mas era cúmplice da "quadrilha".

Mas também sobrou para a Band, cujo dono, João Carlos Saad, é grande fazendeiro e, por parte de mãe, é descendente do corrupto conservador Adhemar de Barros, que era governador de São Paulo quando, em 1964, defendia o golpe militar a ponto de financiar a gigantesca manifestação no Vale do Anhangabaú, a Marcha da Famíia Unida com Deus pela Liberdade, o evento que pediu a derrubada do progressista João Goulart do poder.

A Isto É, vista erroneamente por uns como "mídia de esquerda", apoiou a candidatura de Fernando Collor de Mello, ex-presidente da República, ao Senado Federal, sem que a opinião pública despertasse qualquer suspeita. Esquecido, Collor aproveitava a situação para vender a imagem de "injustiçado" e, no Orkut, houve um tempo em que só havia comunidades que defendiam ele. Isto É e Collor viveram seus breves tempos de reputação pseudo-progressista, até que fatos pudessem depois desqualificá-los.

Fernando Collor tornou-se um senador medíocre, um político poser que nada fazia de relevante mas adotava bafos de pseudo-estadista. Isto É passou a fazer oposição a Lula, passando a defender José Serra, enquanto que adotava a mesma postura pró-latifundiária do Grupo Bandeirantes.

Mas os viúvos de Isto É não precisavam chorar por muito tempo, já que uma terceira revista semanal, Carta Capital, cosneguiu assumir uma postura que os leitores de revistas semanais tanto procuraram em Isto É e nunca acharam. Carta Capital é comandada por Mino Carta, jornalista que havia trabalhado tanto em Veja quanto em Isto É nos seus respectivos períodos não-reacionários.

Muita coisa ainda está para ser esclarecida, no jogo midiático. Mas, felizmente, com o avanço da blogosfera e os progressivos esclarecimentos difundidos sobre a mídia, cada vez mais as antigas ilusões acabam sendo derrubadas. Os antigos "líderes de opinião", que atraíam centenas de seguidores por um único dia, tornam-se desacreditados diante do medo que eles têm da revelação total do jogo midiático. Parcialmente críticos, eles são deixados para trás por uma outra geração mais enérgica, que não teme criticar até mesmo a "mídia boazinha" no que ela tem de conservadora.

Por isso, novas luzes serão acesas na avaliação crítica da mídia.

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