sexta-feira, 23 de julho de 2010

DEFENDER BREGA-POPULARESCO NÃO É LEGITIMAR AS LUTAS POPULARES


PROTESTOS DE PROFESSORES CONTRA A GOVERNADORA GAÚCHA YEDA CRUSIUS, NO CENTRO DE PORTO ALEGRE.

Batemos nossas teclas em chamar a atenção da opinião pública para o contraste de evocar os movimentos sociais, no plano da crônica política de esquerda, enquanto que, no âmbito cultural, se evocam os mesmos ritmos popularescos que fazem sucesso na grande mídia, a pretexto de "romper com o preconceito" dado à MPB supostamente elitista.

Pois não é elogiando o "rebolation", o "tchan", o "créu", o "tecnomelody", a axé-music, oxente-music e tchê-music, que se legitimará as lutas das classes populares.

Porque existe um grande abismo entre essa "música popular" de mercado, tão associada oficiosamente às classes populares, e as verdadeiras manifestações movidas pelas classes populares.

Esse abismo pode ser observado quando, num mesmo lugar, seja Bahia ou Pará, nota-se o cenário político tenso, ameaçador e conflituoso, enquanto, no âmbito da cultura, sobretudo a música, se trabalha uma imagem idealizada, domesticada e fantasiosa do povo pobre.

Basta olhar para as caras dos pobres nas duas abordagens. Na crônica política, o povo pobre chora, se zanga, se indigna, porque têm problemas, porque sofre, porque reclama por melhorias. Na crônica cultural, no entanto, as caras do povo pobre são completamente outras. São caras ao mesmo tempo ingênuas e submissas, com sorrisos patéticos, jeito frouxo de declarar suas atividades e seu estilo de vida, gente a um só momento medíocre e bondosa.

Como é que a imprensa de esquerda vai deixar passar um contraste desses? E ninguém reclama, ninguém estranha, ninguém faz coisa alguma!! Nada!!

As lutas populares, no que se diz ao âmbito cultural, se anulam porque o povo vive numa periferia feliz, numa outra dimensão dos subúrbios e roças, dos morros e sertões, onde não existem tiroteios, nem deslizamentos de terras, nem ação da pistolagem, nem deficiência dos serviços básicos para a população.

Não. Na periferia sorridente dos funqueiros, axezeiros, bregas, tecnobregas, breganejos e por aí vai, as lutas populares não existem. Mas seus ideólogos creditam, sob o rótulo hipócrita de "lutas populares", um mero ato submisso de camelôs ouvirem o que as rádios tocam e o povo ir que nem gado ao clube ou à boate do subúrbio ou roça.

Isso trava completamente a difusão integral das lutas populares, porque no âmbito da cultura o que se evoca não são as manifestações genuínas do povo, mas apenas o condicionamento da multidão pobre para o consumo de um tipo de música, ou então de referenciais culturais - como a pornografia barata das boazudas, o jornalismo policialesco da TV e dos jornais baratos - , coisa que não representa luta alguma, pelo contrário, é uma submissão ao que a mídia regional (comandada pelos detentores regionais do poder político e econômico) determina para o povo consumir.

A verdadeira cultura popular continua marginalizada, deixada de lado por essa pseudo-cultura de reles lotadores de plateias que as rádios e TVs abertas mais divulgam.

Um comentário:

Lucas Rocha disse...

Será que, em 2015, vão fazer luta armada contra o tecnobrega? Ou esse ritmo paraense deveria, primeiro, virar "hegemonia nacional"?