sábado, 31 de julho de 2010

A CRISE DA INTELECTUALIDADE BRASILEIRA


SE UMBERTO ECO FOSSE BRASILEIRO, TERIA SIDO BARRADO NAS INSCRIÇÕES PARA O MESTRADO E NENHUM LIVRO SEU TERIA SIDO PUBLICADO.

A intelectualidade brasileira está em crise. E essa crise é muito, muito séria. Fechada em seu narcisismo acadêmico, em sua compreensão paternalista da sociedade, a intelectualidade brasileira não deixa de produzir trabalhos nem de exercer suas atividades mas os intelectuais brasileiros, salvo honradas exceções, se situam num isolamento presunçoso, que os faz ficarem até mesmo surdos a críticas, ocupados em suas abordagens de assuntos de seu interesse.

A geração de intelectuais brasileiros atuais tornou-se assim uma geração decepcionante, pelo contexto histórico-social de seus integrantes. São intelectuais nascidos entre o final dos anos 30 e o começo dos anos 60 - mas, às vezes, há um Fernando Henrique Cardoso nascido em 1931 e um Pedro Alexandre Sanches nascido na virada dos anos 60 para os 70 - , que a princípio lutou contra a ditadura militar e pela modernidade cultural brasileira, além de defender os princípios da democracia e do humanismo, e de questionar, de certa maneira, o caráter subdesenvolvido de nosso país.

A decepção se deu ao longo dos anos 90 quando, efetivada a redemocratização, a intelectualidade se acomodou. Sobretudo na USP, que então se tornou celeiro de uma mentalidade neoliberal que se tornou padrão - ou "paradigma", no jargão intelectual - para a intelectualidade de todo o país.

No âmbito das ciências sociais, nota-se o abandono da antiga solidariedade aos verdadeiros interesses sociais da intelectualidade dominante. No âmbito político, a "nata" da USP fundou o PSDB para reagir ao trabalhismo do PT. No âmbito cultural, a adesão foi ao circo brega-popularesco que se ascendia na grande mídia.

Em ambos os lados, o povo foi deixado de lado, transformado em "gado" dos interesses privados de pensadores neoliberais, tecnocratas, burocratas acadêmicos. Ao mesmo tempo em que essa geração de intelectuais, cuja maioria nasceu entre 1939 e 1963, passou também a defender uma abordagem "oficial" da cultura popular determinada pelos meios de comunicação.

Não há mais senso crítico, pois os interesses agora envolvem vantagens pessoais. As parcas verbas para pesquisas, vistas como um mal necessário, tornam engessado o trabalho dos intelectuais. E cria mecanismos ao mesmo tempo tendenciosos, restritivos, narcisistas e anti-sociais que transformam a intelectualidade de um país emergente numa intelectualidade ainda presa no subdesenvolvimento social.

Dessa forma, é criado um padrão meramente formalista de trabalhos acadêmicos, que transformam nossas monografias num engodo em que o jogo das aparências é corretamente cumprido: o rigor da metodologia, incluindo justificativas, objetivos, referências bibliográficas, enquanto a análise crítica é praticamente inexpressiva, quase estéril.

A monografia do intelectual brasileiro médio, bem ao gosto de seus mestres e orientadores, segue então um padrão que torna o texto difícil de ser lido pelo leitor comum. O intelectual estabelece uma divagação de argumentos que se limita à descrição do tema estudado e ao desfile de ideias relacionadas descritas pelos autores da bibliografia selecionada. Essa divagação percorre todo o texto e não dá ideia de que postura crítica tem o autor da monografia, que só apresenta um parecer no final do texto, e mesmo assim sem qualquer análise crítica, ou mesmo sem a produção social de conhecimento.

Enquanto isso, intelectuais que possuem senso crítico são barrados logo na seleção de inscrição dos cursos de mestrado, por três motivos: incômodos para o sistema de bolsas de pesquisa, arriscados para os padrões acadêmicos dominantes e perigosos para a reputação e vaidade do corpo docente.

São incômodos para o sistema de bolsas de pesquisa, porque o senso crítico de intelectuais brasileiros que pensassem como Noam Chomsky e Umberto Eco não se adequa aos padrões "comedidos" da pesquisa acadêmica exigidos pelas instituições de pesquisa. Ter senso crítico ainda é visto como descumprimento da objetividade intelectual e confundido, erroneamente, com a ideia de "ensaio opinativo".

São arriscados para os padrões acadêmicos dominantes porque sempre que um intelectual aponta erro em algum fenômeno, desestabiliza as estruturas fenomenológicas do objeto estudado. Sim, porque a classe acadêmica sente um mal estar quando algum fenômeno não é simplesmente estudado, mas contestado. Aqui também vale a confusão que a burocracia acadêmica faz entre senso crítico e ensaio opinativo.

São perigosos para a reputação e vaidade do corpo docente porque, além de existir a instabilidade trabalhista que pode demitir professores veteranos, o senso crítico agudo dos aspirantes a mestrandos vai contra a vaidade de certos professores-orientadores, que rejeitam a concorrência de iniciantes no mesmo nível de pensamento e dedicação acadêmica.

Só esses três motivos transformam a intelectualidade brasileira num ente ao mesmo tempo mastodôntico e adormecido. Evitam que a intelectualidade do país seja renovada com novas ideias e com abordagem cada vez mais crítica. Ter senso critico não deve ser confundido com ter opinião, mas em compensação a análise meramente descritiva e às vezes apologética dos fenômenos sociais chega ao nível da propaganda, apenas travestida de um discurso que reúne clichês pós-modernos do discurso sociológico, antropológico ou simplesmente panfletário. O que é o texto "Esses pagodes impertinentes..." do professor baiano Milton Moura senão uma mera propaganda narrada como se fosse um manifesto pós-moderno, além disso pouco sutil nas suas cafajestices de abordagem?

A revista Caros Amigos também é outro sintoma disso. Uma intelectualidade mais preocupada em discutir os problemas do exterior, mas sem prestar atenção aos problemas daqui. Mal sabem eles que Pedro Alexandre Sanches faz uma abordagem neoliberal para a cultura popular. Mas consomem as ideias de Sanches como se fossem "ativismo intelectual-popular de esquerda", sem saber o quê de Roberto Campos, de Francis Fukuyama e até de Instituto Millenium tem o recheio ideológico da "Paçoca" de Caros Amigos.

Os intelectuais não veem sua própria crise. Se alertados, tapam os ouvidos, fecham os olhos, suas bocas mudas resmungam o silêncio de quem se recusa a ter autocrítica. Se fecham nas suas preocupações rigorosas, nos seus interesses específicos, e O Kylocyclo e outros veículos críticos continuam ignorados por essa intelectualidade narcisista, sem autocrítica e sem vergonha de si mesma.

Mal sabe essa intelectualidade engessada, estéril e acomodada, que ela é criticada até mesmo pela canção dos tempos em que Gilberto Gil e Caetano Veloso não compactuavam com o lixo sócio-político-cultural da atualidade: "Mas as pessoas a falar de jantar / São ocupadas em nascer / E morrer" ("Panis Et Circensis", gravada em 1968 pelos Mutantes).

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